Terça-feira, 16 de Outubro de 2007
Política, ideias e pessoas
 
[...] Se o PR não fosse Cavaco Silva mas Mário Soares, ou Manuel Alegre, a acção reformista de Sócrates estaria hoje bloqueada.

João Cardoso Rosas

O que será mais importante na política: as ideias ou as pessoas? Para quem vê a política a partir de dentro, enquanto actor, não há nenhuma dúvida quanto à resposta: as pessoas. Grande parte da vida política consiste na construção de fidelidades e dependências, no discernimento entre os amigos, os adversários externos e os inimigos internos. Numa entrevista recente, Jacques Attali, que foi o principal conselheiro do Presidente francês François Mitterrand, dizia que aquilo que mais lhe custava na vida política era passar 95% do tempo – 95%! – a pensar nas pessoas a nomear para os diferentes cargos e posições.

No entanto, apesar das pessoas serem muito importantes na política e no sucesso de qualquer projecto de poder, as ideias não o são menos. Para o compreender é talvez preferível adoptar a posição do espectador dos factos políticos, do que a do actor.

Excluindo aqueles que são puramente oportunistas – e que constituem sempre uma percentagem a considerar –, a generalidade dos actores políticos parece agir de acordo com as suas ideias políticas. Pense-se no Governo de Sócrates. Imagine-se o que seria desse Governo se o ministro dos Negócios Estrangeiros fosse Ana Gomes e não Luís Amado, se o ministro da Educação fosse Ana Benavente em vez de Maria de Lurdes Rodrigues e se o ministro da Saúde fosse António Arnaut em substituição de Correia de Campos, etc. Como é óbvio, seria impossível levar por diante o programa do Governo. Mas isso não se deve às qualidades pessoais dos ministros imaginários aqui referidos. Nenhum deles poderia ser acusado de falta de profissionalismo, ou de desconhecimento das matérias da sua pasta. O problema está no facto de eles terem ideias inconciliáveis com as do Governo.

Da mesma forma, se o Presidente da República não fosse Cavaco Silva mas Mário Soares, ou Manuel Alegre, a acção reformista de Sócrates estaria hoje bloqueada. Mais uma vez, ninguém põe em causa a capacidade dos dois últimos para desempenhar a magistratura presidencial. O problema está nas ideias. Apesar de Cavaco não pertencer à mesma família política de Sócrates, as suas ideias políticas estão muito mais próximas das do Primeiro-Ministro, na maior parte dos assuntos, do que as de Mário Soares ou Manuel Alegre.

Julgo que podemos pensar nas pessoas como bons ou maus condutores de ideias políticas, tal como há materiais que são bons e outros maus condutores de energia térmica. Para cada visão política e para cada programa há bons e maus condutores. Se as pessoas são importantes na política isso deve-se, em boa parte, ao facto de as ideias não existirem no vazio – como pensava Platão – e necessitarem de pessoas para terem influxo real. Mas, de um ponto de vista histórico, as pessoas são quase sempre substituíveis e aquilo que fica são mesmo as ideias e a sua realização institucional.

As ideias são capazes de ocupar as nossas mentes e mobilizar as acções individuais e colectivas. Mas a sua influência na política real nunca é directa – é sempre indirecta. Isto é, a influência das ideias não depende do seu mérito intrínseco, mas da sua capacidade para potenciar as vantagens dos diferentes agentes na tentativa para alcançar o poder e mantê-lo. As ideias, boas ou más, ganham importância social em função do modo como vão ao encontro dos interesses em jogo e conseguem inspirar os principais actores políticos e os seus apoiantes.

Desta forma, sempre indirectamente, as ideias conquistam o mundo. Infelizmente, este facto tanto pode ser positivo como negativo. Algumas das grandes ideias que influenciaram decisivamente o curso do século passado são terríveis: a supremacia da raça ariana, a realização da sociedade comunista, etc. O mesmo se passa hoje com a visão jihadista e terrorista do Islão. Mas também há grandes ideias positivas que fizeram o seu curso na realidade histórica: os direitos humanos, a democracia, a justiça social, etc. Através da colonização das nossas mentes e da determinação dos nossos gestos, portanto, as ideias vão mudando o mundo. Para o melhor e para o pior.


publicado por psylva às 16:45
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1 comentário:
De Jogos Online a 2 de Dezembro de 2010 às 18:04
Fantastico, Adorei


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