Quinta-feira, 13 de Abril de 2006
Teerão 2006


Estamos na fase da ameaça, da pressão psicológica, do mostrar músculos em público. Nem o Irão nem os ocidentais parecem “ceder”.

Começa a aproximar-se a olhos vistos o dia das grandes decisões no que toca ao Irão. Os sinais estão por todo o lado. Os iranianos testam mísseis, em imagens de propaganda marítima, e dizem que têm o projéctil mais rápido do mundo! Nos jornais ingleses, saem as primeiras notícias, ainda que imediatamente desmentidas, de que Tony Blair já reuniu com os seus chefes militares, para estudar uma “intervenção”. Quase na mesma altura, Jack Straw e Condoleeza Rice dão a entender que, apesar de reconhecerem “milhares de erros tácticos no Iraque”, não vão dar ao Irão mais de 30 dias para parar o enriquecimento de urânio. Os iranianos respondem com ameaças, de fontes não confirmadas, prometendo retalições terroristas executadas pelo Hezbollah.

Entrámos pois na fase da ameaça, mais ou menos velada; da pressão psicológica, do mostrar músculos em público, enquanto em privado se vai tentando evitar o descarrilar definitivo da questão. Aos olhos do público, os dois lados parecem “não querer ceder”. O Irão não aceita uma “ingerência nos seus assuntos internos”, e não quer abrir mão da possibilidade de se tornar uma potência regional nuclear, colocando-se no mesmo patamar que Israel, o Paquistão ou a Índia. Por outro lado, americanos e europeus consideram que o Irão é um país agressivo, capaz de colocar Israel em perigo, e estender a sua influência xiita a outros países, como por exemplo o Iraque.

Parecendo esgotadas as possibilidades de a Rússia conseguir acalmar os iranianos, haverá forma de se evitar um ataque americano ao Irão? E haverá possibilidades de esse ataque produzir os efeitos desejados? Pelo andar da carruagem, tal ataque parece inevitável, mas é muito duvidoso que os efeitos desejados sejam conseguidos.

Na verdade, com o Iraque a ferro e fogo, a credidilidade americana na região e no mundo em geral, está pelas ruas da amargura. Aonde quer que vá, Condoleeza Rice é apupada, e com visível dificuldade tem de reconhecer as suas fraquezas. Embora aparentemente a questão seja de mais fácil compreensão para todos – ninguém quer que o Irão tenha bombas nucleares – é muito difícil convencer o mundo que a melhor solução é um ataque à bomba ou uma invasão do Irão. Para mais, atolados no Iraque, os americanos não têm já exército para se meterem noutra aventura, e também não têm dinheiro para a pagar. A popularidade de Bush atingiu os valores mínimos, e o povo americano desconfia da sua lucidez e da sua estratégia. Pedir a esse povo que continue a ver soldados a morrer no Irão e no Iraque ao mesmo tempo, é quase pedir o impossível. E, se a ideia é optar por raides áereos cirúrgicos, como escolher os alvos, quando aquilo que os iranianos têm, não são ainda as bombas, mas apenas instalações dispersas por dezenas de locais onde é possível que venham um dia a fabricar bombas nucleares? Sem alvos concretos, e a certeza de os atingir, um ataque poderá ter efeitos punitivos, mas desestabilizará definitivamente o poder político e a opinião pública do Irão, e colocará do seu lado, mais do que já estão, os xiitas de todo o mundo, em especial os iraquianos. Atacar o Irão poderá pois não ser eficaz, e ao mesmo tempo atirar definitivamente o Iraque para a guerra civil, desestabilizando pelo caminho os mercados petrolíferos.

Trata-se pois de um dilema dramático para o Ocidente: a escolha entre uma situação péssima - deixar o Irão prosseguir a caminho da bomba nuclear – e uma situação terrível – intervir militarmente sem certezas de atingir objectivos e com a certeza de lançar a região definitivamente no caos.

Há poucas semanas, houve um pequeno sinal de esperança, quando surgiram notícias de que os líderes religiosos iranianos aceitavam conversar com os americanos sobre o Iraque. Pareceu existir aí um vislumbre de entendimento, até porque são os líderes religiosos, e não o presidente do Irão, quem tem um controle do programa nuclear. Pode ser que, no lado oculto da política, haja ainda esperanças. Mas à superfície, a retórica ameaçadora de ambas as partes faz-nos temer o pior.
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publicado por psylva às 13:03
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