Segunda-feira, 3 de Abril de 2006
Utopias e realismos
Em política externa, o romantismo e as utopias sempre foram coutadas da extrema-direita e da extrema-esquerda.

Três anos depois da invasão do Iraque, é mais do que óbvio que as utopias que alimentaram a aventura produziram um resultado nefasto. Como quase sempre em política externa, não vale a pena acreditar em milagres, e é bem mais avisado ser céptico e prudente. A história da humanidade está cheia de sonhos de grandeza e conquista que acabaram em desgraça, boas e nobres ideias que só produziram tragédias e dor. Seja à esquerda, seja à direita, as utopias trouxeram horrores ao mundo. A gloriosa Revolução Francesa decapitou milhares de seres humanos em nome de belos princípios. As utopias comunistas, nazis ou fascistas, prometeram o céu e deixaram o inferno sobre a terra. Os belos ideais que defendiam a auto-determinação dos povos tiveram como consequência dezenas de guerras civis que massacram o planeta em várias regiões. E, quanto às utopias mais recentes, temos que o ”direito de ingerência” conseguiu parar massacres mas não garantiu a paz e a estabilidade nos Balcãs, e a ”mudança de regime” deu o resultado que deu no Iraque.

Desde o final da segunda guerra mundial e até ao início do século XXI, a maioria das utopias que conduziam o mundo eram de esquerda. Era a esquerda que queria ”lutar pelos direitos de auto-determinação dos povos”, pelos ”direitos de ingerência”, ou pelo ”fim da limpeza étnica”. Com a guerra do Iraque verificou-se uma alteração drástica. Foi a direita, do Partido Republicano americano mas também grande parte da direita europeia, conservadora ou neo-liberal, que se alistou atrás de George W. Bush em defesa da ”guerra preventiva” ao Iraque. Inesperadamente, as direitas americanas e europeias abandonavam décadas de princípios realistas, que haviam professado desde o final dos anos 40, e que tiveram o seu máximo expoente em Kissinger, uma personalidade particularmente odiada pela esquerda. Inesperadamente, tanto nas universidades como na imprensa americana, as vozes defensoras do realismo foram ultrapassadas pelas dos defensores das novas utopias. Na América, a facção realista do Partido Republicano emudeceu, incapaz de enfrentar Bush, Rumsfeld e os seus entusiásticos ideólogos. Perante a força crua do poder federal, perante os músculos exibidos pela administração, e confrontados com uma opinião pública traumatizada com o 11 de Setembro, os realistas hibernaram. Lá como cá, sempre que um deles levantava a cabeça era logo carimbado como ”anti-americano”, rótulo que imediatamente o desqualificava e descredibilizava.

Inesperadamente também, o mesmo se passou em Portugal. O poder português, na altura nas mãos de Barroso e Portas, não teve dúvidas e alinhou com Bush entusiasmado. E os intelectuais de direita, de Luís Delgado a Pacheco Pereira, passando por Vasco Rato e Helena Matos, abraçaram com paixão a utopia de um Iraque ”democrático”, qual farol que iria iluminar o Médio Oriente, e desataram a colocar o rótulo de ”anti-americano” a quem os contestasse. A nenhum deles ocorreu que estavam a romper com a sua própria tradição intelectual, realista, pregada em anos de récitas e artigos inteligentes sobre o erro que era acreditar em utopias de esquerda... A nenhum deles ocorreu que, ao chamarem ”anti-americano” a quem criticava Bush, estavam a fazer precisamente o mesmo que os comunistas no pós-25 de Abril, que chamavam ”fascistas” a qualquer ser humano que não quisesse levar o país ”a caminho do socialismo”.

Agora, com o Iraque em sangue e o Médio Oriente à beira do abismo, seria importante os pensadores de centro-direita regressarem à sua tradição realista, e abandonarem de vez as excitações românticas mas pouco lúcidas que lhes animaram a alma há três anos. Em política externa, o romantismo e as utopias sempre foram coutadas da extrema-direita e da extrema-esquerda. Que o PP, à direita, ou os bloquistas e os comunistas, à esquerda, defendam utopias disparatadas, é compreensível. O que é pena é que pessoas lúcidas e cultas o façam também.
____



publicado por psylva às 08:40
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds