Segunda-feira, 3 de Abril de 2006
O nacionalismo e as direitas


As direitas perceberam que os tempos não estão para ”liberalismos” e regressam à sua antiga tradição, a cega paixão do nacionalismo.

Os exemplos vão-se sucedendo pelo mundo fora. No Canadá, o governo conservador, eleito à custa da retórica ”dura” contra os imigrantes ilegais, já começou a expulsá-los. Portugueses, gregos, espanhóis e muitos outros, são tratados como cidadãos desprezíveis e colocados no ‘check-in’ do aeroporto, só com bilhete de ida. Nos Estados Unidos da América, circula pelo Congresso uma lei de imigração ”duríssima”, que promete o inferno aos ”ilegais”. Los Angeles já viu uma das maiores manifestações de sempre de que há memória, contra tal lei, mas os ”duros” não parecem comover-se com a malta na rua. Há já quem fale, sem um pingo de vergonha na cara, em construir um muro, (sim, leram bem, um muro) que separe o México dos Estados Unidos, pondo fim à grande corrida mexicana para entrar na América.

Na Dinamarca, o actual governo chegou ao poder graças a uma retórica violenta contra os imigrantes, no caso muçulmanos, e faz pontuais alianças com o partido de extrema-direita, que propõe a expulsão imediata de muitos deles, o que talvez explique certos ‘cartoons’. Na Holanda, ruiu com estrondo a utopia do ”multiculturalismo”, e há pulsões fortíssimas para escorraçar do país milhares de ilegais, de todas as raças. Em Itália, semana sim, semana não, há um ministro do governo de Berlusconi que se sai com uma pérola verbal de ataque aos imigrantes, prometendo fúria e ranger de dentes para os incumpridores ou os recalcitrantes.

A tendência parece ser geral. Abandonados os objectivos reformistas e liberais, que nos anos 80 e princípios de 90 alimentaram o discurso das direitas americana e europeia, estão de regresso as paixões nacionalistas, os discursos ”duros”, as posições de ”força”. Como se viu no caso da Alemanha, onde o discurso ”liberal” de Angela Merkl quase conduzia a uma derrota eleitoral, as direitas perceberam que os tempos não estão para ”liberalismos” e regressam com rapidez às sua antiga tradição, a cega paixão do nacionalismo. E, é preciso reconhecê-lo, têm conseguido vitórias eleitorais com isso. No mundo glogal, com competição permanente, este discurso ”reactivo” e ”defensivo” é extremamente popular. Não só no caso da imigração, mas também noutros casos. Perante qualquer OPA de uma empresa estrangeira sobre uma nacional, de imediato os países europeus fazem marcha-atrás nos seus belos propósitos, colocam o ideal do ”mercado único” na gaveta, e desatam a defender os ”campeões nacionais”, boicotando as OPA estrangeiras.

Seja no continente americano, seja no europeu, o discurso nacionalista está de volta em todo o seu esplendor, como bem o percebeu o senhor Portas, que o defende nas suas prédicas televisivas. Para ele, como para muitos políticos americanos ou europeus, o que está em causa não são questões de princípio, nem ideais. O que está em causa é uma coisa muito simples e básica: estes discursos dão votos, e o resto é conversa para entreter criancinhas antes de adormecerem.

Convém lembrar que a política é sobre isso: como conquistar o poder. Nos anos 80, quando a Europa e a América pareciam anémicas e paralisadas, o discurso ”liberal”, do ”menos Estado, melhor Estado”, foi um discurso popular, que permitiu à América vencer a Guerra Fria e relançar-se economicamente, e que permitiu a criação de uma União Europeia vigorosa. Ou seja, o discurso liberal pegou porque foi popular, venceu eleições, e mudou os países.

Vinte anos depois, o discurso liberal continua bonito mas já não rende votos. Está a ser substituído pelo discurso ”nacionalista”, que hostiliza a imigração, que defende o ”produto e a empresa nacional”, e que pratica políticas ”musculadas”, de retórica ”dura”, e ”acção concreta”. Percebendo que esse discurso é popular, e que lhe pode permitir o assalto e a conquista do poder, as direitas americanas e europeias correm para ele sem hesitação. Não é uma surpresa. Surpresa é o PSD português ainda não ter entrado nessa onda. Mas, como sempre, em Portugal as modas costumam chegar com algum atraso...
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publicado por psylva às 08:38
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