Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006
Estamos mais europeus?

Agora, ser “chato” é bem visto. Demonstra uma consciência social apurada, uma preocupação com o bem-estar colectivo, coisas desse tipo.


Numa recente festa de 18 anos de uma sobrinha minha, e apesar dos avisos e dos pedidos de autorização à vizinhança para que fosse possível a música tocar durante a noite, pouco depois da meia noite apareceu um representante da comunidade local que explicou, sem hesitações, que era “proibido fazer barulho depois dessa hora”. Apesar dos protestos, das tentativas de sedução, dos apelos à compreensão, a representante foi irredutível e impôs o seu ultimato: “ou o fim imediato da música, ou a chegada imediata da polícia”. Perante tal cenário, a organização da festa apresentou a rendição, e calou a alta fidelidade. A festança prosseguiu sem danças, em voz baixa, para não perturbar o soninho dos vizinhos.

Esta história passou-se na Suíça, há apenas dois meses, e quando soube dela senti uma espécie de superioridade antropológica. Para mim, histórias assim eram uma confirmação do que há muito tempo pressentia: os suíços eram uma cambada de chatos. São muito organizados, o país é muito limpinho, tudo é posto em sossego, mas a verdade é que são insuportáveis de tanta ordem. Não há na Suíça aquela anarquia saudável, aquela desorganização bem disposta que existe em Portugal. Por cá, pensava eu, ninguém se lembraria de afundar uma festa de 18 anos de uma rapariga bonita. Por cá, pensava eu, as pessoas eram tolerantes. Caramba, era apenas um festa, não era uma discoteca permanente! Um dia não são dias, uma noite mal dormida não mata ninguém. Para mais, os vizinhos tinham sido convidados para aparecer, se quisessem também podiam dançar até às tantas. No entanto, suíços são suíços, e não se pode mudar a natureza dos povos, não é?

Bem, na verdade não é bem assim. Num dos últimos fins de semana, estive numa festa em Cascais. Estava tudo preparado para uma grande noitada: havia ‘dj’, colunas de som potentes, boa disposição para dar e vender. Estava uma noite quente de Julho, daquelas que apetece ficar acordado até de manhã. Porém, por volta da uma da manhã, começaram os problemas. Um vizinho mais irritadiço queixou-se, um estabelecimento local protestou, e por volta das duas da manhã apareceu mesmo a polícia local, impondo o fim imediato da música e da barulheira. Eu nem queria acreditar. Mas, pensava eu, na Suíça é que são chatos! Nós estamos em Portugal, aqui a malta gosta de divertir-se, é tolerante, não é verdade? Não somos tão boémios como os italianos, nem tão trepidantes como os brasileiros, mas caramba, não somos suíços, pois não?

Infelizmente, as coisas estão a mudar. Devagar, pé ante pé, Portugal “civiliza-se”. Os portugueses começam a querer ser mais “europeus”. Isto, é óbvio, tem coisas boas e coisas más. As pessoas andam com mais “consciência ecológica”, seja lá o que isso quer dizer. Andam também um pouco mais devagar nos carros, desde há uns tempos para cá o número de acidentes começou a baixar; as pessoas reciclam; as pessoas cospem menos para o chão; e há uma quantidade de coisas assim, velhos hábitos lusos, que vão desaparecendo para dar lugar a um país mais “europeu”, e portanto, mais “civilizado”.

Contudo, há coisas boas que se perdem. Há vinte anos atrás, ninguém parava uma festa às duas da manhã em Cascais. Simplesmente não era possível. Ninguém queria ficar mal visto, ser o “chato” de serviço. Foi isso que mudou. Agora, ser “chato” é bem visto. Demonstra uma consciência social apurada, uma preocupação com o bem-estar colectivo, coisas desse tipo. As pessoas adquiriram preocupações novas, muito “politicamente correctas”, e querem dar exemplos de “cidadania”. Isto representa uma grande mudança social, mas duvido que seja para melhor. É por essas e por outras que eu prefiro os italianos. Ao menos eles orgulham-se da desordem e em momento nenhum querem transformar-se em suíços.
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publicado por psylva às 09:27
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