Segunda-feira, 20 de Março de 2006
O fundamentalista em nós

Ser civilizado é apenas conter, dentro dos limites, os instintos mais primários e agressivos do ser humano, e isso inclui obviamente a escrita.

Há cerca de dois meses, um estúdio sociológico americano apresentava um curioso dado: a violência verbal dos consumidores queixosos contra as empresas aumentara drásticamente com a internet, e as queixas recebidas nas empresas através de e-mail utilizavam uma linguagem muito agressiva, insultosa e radical. Segundo o estudo, havia mesmo uma tendência curiosa: se a queixa fosse apresentada presencialmente, ao balcão, a violência verbal e a contundência dos argumentos era menor do que se fosse apresentada pelo telefone. E, se fosse apresentada pelo telefone, era menor do que se fosse apresentada por ‘e-mail’. A conjugação entre um aumento da distância entre o queixoso e a empresa, ao mesmo tempo que se passava da linguagem oral para a escrita, fazia subir em flecha o grau de agressividade, colocando graves problemas ás empresas. Como responder a pessoas que insultavam, por escrito, a empresa, e que lhe chamavam todos os nomes que existe no dicionário de calão local?

Vem isto a propósito de quê? Da blogosfera, pois então. Agora não há bicho careta que não tenha o seu bloguezinho. Desde os mais reputados intelectuais a perfeitos desconhecidos, todos têm um bloguinho, onde depositam os seus elevados e notáveis pensamentos. Está definitivamente na moda ter um ‘blog’, ou escrever num ‘blog’, e aparentemente há uma enorme oferta de raciocínios e ideias na blogosfera. Há mesmo quem, com aquele ar de superioridade que caracteriza os pioneiros na descoberta de um novo mundo, nos olham de cima para baixo só porque nós ainda não fomos consultar este ou aquele ‘blog’. Como se o ‘blog’ se tratasse de uma praia nos confins do Brasil, hiperexclusiva, onde só os que verdadeiramente contam apanham sol!

Mas, o mais curioso nem é isso. O mais curioso é que, tal como os queixosos que utilizam a internet, também nos ‘blogs’ se tem vindo a assistir a um progressivo resvalar para os insultos e para os ataques pessoais como arma argumentativa. A blogosfera, com a sua saudável anarquia, começa também a revelar o seu lado mais nefasto. A coberto da protecção que a blogosfera dá, ultrapassam-se muitos limites, e regressa-se alegremente ao século XIX, onde a imprensa era livre, mas também insultuosa e desnecessáriamente cruel. Por outro lado, cria-se um novo efeito, talvez não intencional. É que, pressionada pelo radicalismo entusiástico da ”blogosfera”, a imprensa escrita sente-se ultrapassada, e os cronistas e ‘opinion makers’ sentem-se na necessidade de irem mais longe, de serem um bocadinho mais radicais, de dizerem mais um argumento, mais uma farpa, mais um insultozinho disfarçado de pensamento profundo. Deus quer, a blogosfera pressiona, o insulto nasce.

Há quem ache tudo isto muito bonito e muito importante, e quem defenda com entusiasmo essa velha tradição novecentista do registo ”duro”, ”contundente”, ”furioso”. Há até quem cite Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, para se auto-absolver. Contudo, o que me parece é que dentro de nós há sempre um fundamentalistazinho, um taxistazinho, pronto a vir ao de cima, com o verniz a estalar. Ora, essa facilidade com que nos estala, ou não estala, o verniz, é o que nos faz ser civilizados. Ser civilizado é apenas conter, dentro dos limites, os instintos mais primários e agressivos do ser humano, e isso inclui obviamente a escrita. Insultar as pessoas, ou as empresas, ou o Estado, em linguagem de ”carroceiro”, não traz nada de novo, e é um regresso civilizacional. Que ele seja comandado por uma inovação tecnológica é uma ironia dos tempos.

Devido a esta tendência disparatada, a ”blogosfera” corre o risco de se transformar num mero campeonato de insultos e de pensamentos radicais, em que o vencedor é...o mais troglodita e o mais excitado. Mas, para isso, não é necessário ir à blogosfera à procura de um ‘blog’. Basta por exemplo apanhar uns táxis, passar o dia a andar de um lado para o outro em Lisboa, e escutar com atenção o que os taxistas dizem. Há alguns que são muito refinados nos insultos e pelo menos assim sempre se sai de casa e se vê mais do que um ‘écran’ deslavado de computador.
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publicado por psylva às 08:21
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