Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2006
Mensagem para o BCE: não imitem a Fed



Melvyn Krauss



Após um prolongado período de estabilidade monetária, com taxas de juro invulgarmente baixas, poderão existir graves consequências caso se demore a subir as taxas para níveis normais e apropriados. A Reserva Federal, depois de ter descido as taxas de juro para níveis extraordinariamente baixos – em parte devido ao receio infundado de uma deflação –, iniciou, tardiamente, o processo de normalização das taxas de juro. Actualmente, vê-se obrigada a subir as taxas, mesmo na presença de sinais – como a queda dos níveis de confiança dos consumidores norte-americanos -, de que a economia dos EUA pode estar vacilante. O BCE não deve cometer os mesmos erros.
Os sinais de aviso de uma inflação iminente abundam na economia da zona euro. O aumento da moeda em circulação tem estado bem por cima dos níveis previstos, traduzindo uma situação de liquidez excessiva. A inflação básica de 2,5%, registada em Outubro, é superior à meta de 2% do BCE – assim como a previsão da inflação de 2006, cuja actualização será divulgada no início de Dezembro. O aumento dos preços de energia ameaça ter grande influência no processo de inflação.
Por que esperar? Uma nova procrastinação da normalização das taxas de juro, levada a cabo pelo BCE, pode ser bastante negativa para a inflação. Seria, no mínimo, desastroso para a recuperação económica europeia. Nestas circunstâncias, o BCE não terá outra alternativa senão travar a política monetária.
Mas ninguém pretende esta situação. É preferível levar a cabo um aumento, imediato, de 50 pontos base – que permita continuar a recuperação da economia mantendo a inflação controlada –, do que triplicar ou quadruplicar esse valor no futuro. O velho ditado “mais vale prevenir do que remediar” encaixa perfeitamente nos assuntos relacionados com a política monetária.
A julgar pela reunião do Conselho do Governadores do BCE, realizada no início de Novembro, a prevenção parece ser uma medida iminente na economia da zona euro.
Nos últimos meses, temos assistido a um crescendo no ritmo dos avisos, lançados pelo BCE, face aos riscos de inflação, que evoluíram do “estamos particularmente atentos”, de Setembro, para “está assegurada uma forte vigilância no que se refere aos riscos de estabilidade de preços”, declaração proferida durante a reunião de Outubro, que teve lugar em Atenas.
Mais, na reunião da capital grega, Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, adoptou um discurso mais determinado. Pela primeira vez, declarou publicamente que o Conselho do Governadores discutiu os prós e contras da subida das taxas de juro. Ao afirmar que “é necessário evitar a materialização de efeitos secundários”, Trichet mais parecia estar a apelar à prevenção de efeitos secundários.
Apesar de tudo, o BCE continua a catalogar as taxas de juro em vigor como “adequadas” – assinalando que a instituição ainda não possui o ‘timing’ necessário para intervir. Contudo, Trichet alerta para o facto de que “o banco está pronto para intervir a qualquer momento”. No mínimo, o BCE tornou claro – a políticos, sindicados e mercados –, que o seu longo período de inactividade monetária está a chegar ao fim.
Todavia, nem todos estão contentes com esta notícia. Alguns políticos, como o presidente francês Jacques Chirac, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, e vários ministros das finanças europeus, continuam a pressionar o BCE para a aplicação de taxas de juro fixas e ainda mais baixas. Para os políticos, é fácil ser-se irresponsável face à política monetária. Não serão eles os responsabilizados pelos erros cometidos, nem os incumbidos de solucionar o problema.
Mas o BCE deve seguir o seu ‘modus operandi’ europeu e não imitar os passos da Fed. Após as 13 última reuniões, e isto sem contar com as próximas, a Reserva Federal norte-americana subiu as taxas de juro em aumentos de 25 pontos base, no seguimento de um longo período em que as taxas praticadas foram baixas. Nesta altura, uma subida de 50 pontos base pode ser suficiente para o BCE, após o que, as taxas poderão manter-se estáveis durante algum tempo.
A Fed esperou demasiado tempo para dar início ao processo de normalização e, uma vez que foi mais agressiva quando desceu as taxas durante a fase descendente do ciclo, teve de ser mais aguerrida para proceder à sua subida durante a fase ascendente.
Como é óbvio, não é este tipo de política monetária volátil que a Europa pretende ou precisa.


publicado por psylva às 17:18
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