Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
Mereciam melhores pais
Se os nossos filhos se recusarem a suportar as nossas reformas, têm toda a razão. Tudo temos feito, nesta geração, para libertar a próxima dessa obrigação. Consumimos o que não temos. Recebemos dos nossos antecessores a maior taxa de poupança da Europa. Vamos deixar aos nossos sucessores um dos mais pesados níveis de endividamento do mundo.
Na gestão do bem comum, nunca produzimos um único excedente orçamental em toda a história das finanças públicas da democracia. Parte dessa gastança é suportada por quem a está a realizar – e isso vê-se nos impostos crescentes.

A outra dimensão é mais obscura, e mais obscena, porque vai directamente para a dívida pública (através da famosa desorçamentação) ou agora tem o tratamento de PPP (a parceria é com os privados, mas a conta fica a consumir os recursos públicos dos próximos trinta anos).

Não bastava a irresponsabilidade financeira geral, agora temos a amnésia colectiva. Os alertas são sucessivos. A insustentabilidade da Segurança Social é conhecida. Homens como Henrique Medina Carreira estão cansados de escrever e falar disso.

Com estatísticas reais. Com projecções credíveis. Mas sempre que um ministro aparece em público e diz o que toda a gente já sabe, a reacção é de incredulidade. Dez anos! Só temos as pensões de reforma garantidas até 2017?

Pois é! Como não é falta de consciência, só pode ser consciência pesada. O tal diagnóstico que identifica rigorosamente as origens de uma ruptura anunciada, as proclamações pomposas sobre a insustentabilidade a prazo, mas coragem para tomar as medidas? Zero!

E a vontade de algo sacrificar, esse sentido de cidadania que agora os candidatos a Presidente andam todos os dias a exaltar? Nada!

Este espanto escandalizado sobre uma intervenção repetitiva de Teixeira dos Santos na TV podia ser uma brincadeira de Carnaval. Mas não é porque ainda estamos no rescaldo do espírito de Natal e, sobretudo, porque o assunto não se presta a brincadeiras.

Evidentemente que nesta sociedade anónima de irresponsáveis, as lideranças são os accionistas maioritários.

As lideranças políticas, que se revezam no Governo e andam há anos a iludir o problema. Com livros brancos e discursos cinzentos.

As lideranças sindicais e patronais, que celebram acordos, como aquele do ano 2000, que simulam medidas e as adiam para as calendas gregas.

E quando alguém pergunta: aumento da idade de reforma? Nem pensar. Tectos contributivos e plafonamento das reformas? É uma aventura. Antecipar a fórmula de cálculo que determina a pensão com base em toda a carreira contributiva? Ainda é cedo.

Os nossos filhos mereciam melhores pais. A civilização europeia criou este magnífico sistema redistributivo, pensou na solidariedade entre gerações, mas as actuais esqueceram-se das seguintes.

Foi você que pediu um sobressalto reformista? Sim. Mas depois das férias a crédito no Brasil.


publicado por psylva às 08:52
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