Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
Direita/Esquerda
João Cardoso Rosas

A direita necessita da esquerda e vice-versa. Nenhuma delas poderia existir sem a outra.

A divisão entre a direita e a esquerda tende a ser mais invocada durante as campanhas eleitorais do que no dia-a-dia da política. Estamos num bom momento para a repensar. Esta divisão corresponde a uma espacialização do pluralismo político típico das democracias representativas. A sua origem é conhecida: na Assembleia Nacional Constituinte Francesa, de 1789, os deputados favoráveis ao veto legislativo do rei sentavam-se à direita e os que eram contra sentavam-se à esquerda. Porém, a dicotomia só se vulgarizou nos anos 20 do século XIX, com a divisão entre realistas e liberais, entre a velha e a nova França. Mas a distinção direita-esquerda corresponde a bem mais do que um episódio da história francesa. Por isso ela perdura até hoje não só no país originário como em todas as outras democracias existentes.

A espacialização do pluralismo em termos de direita e esquerda implica a sua lateralização. Por contraste com as democracias, as sociedades hierárquicas privilegiavam a distinção entre um “alto” e um “baixo”, ou entre um “próximo” e um “afastado” (em relação ao monarca). Aquando da reunião dos Estados-Gerais, que se transformariam depois em Assembleia Nacional Constituinte, as distinções entre o alto e o baixo e entre o próximo e o afastado predominavam ainda sobre a divisão entre a direita e a esquerda. O rei e a família real estavam situados numa plataforma acima dos membros dos três estados e particularmente afastado dos representantes do terceiro estado.

Mas também era verdade que estar colocado à direita do rei era melhor do que estar colocado à sua esquerda. Apesar de abolidas as distinções entre o alto e o baixo e entre o próximo e o afastado, as línguas europeias retêm ainda a depreciação qualitativa da esquerda em relação à direita. Assim, só a direita é “droite”, enquanto que a esquerda é “gauche” (desastrada). Se a direita é “right”, pode-se inferir que a esquerda é “wrong”. Apenas a direita é verdadeiramente “destra”, enquanto que a esquerda é “sinistra”. Em conformidade com este uso linguístico, parece natural que partidários do veto real se sentassem à direita e os adversários à esquerda.

Mais interessante ainda do que a origem da dicotomia é a sua extraordinária resistência. Ela está com certeza ligada à facilidade com que os nossos mapas cognitivos se organizam em estruturas duais. É difícil pensar o plural sem o reduzir a uma dicotomia. Na melhor das hipóteses, conseguimos passar do número 2 ao número 3. Por isso é também comum a referência ao centro (nem esquerda, nem direita), ou então as múltiplas tentativas de formulação de vias médias, ou de terceiras vias. Para além dos aspectos cognitivos, a divisão entre a esquerda e a direita facilita o funcionamento da democracia representativa na medida em que espacializa a possibilidade de oposição e alternativa. Neste sentido, a direita necessita da esquerda e vice-versa. Nenhuma delas poderia existir sem a outra.

É certo que direita e esquerda existem tanto em França como em Portugal, na Europa como na América, no Ocidente como no Oriente. Onde há democracia há uma esquerda e uma direita. Questão bem diferente é a de saber se existe um núcleo de princípios, valores ou práticas que sejam definidores quer da esquerda quer da direita. Aqui, as coisas complicam-se. A diversidade é interna em relação a um e a outro dos dois campos em confronto. Simplificando, podemos dizer que há direitas individualistas e colectivistas, liberais e conservadoras. Da mesma forma, há esquerdas colectivistas e individualistas, socialistas e liberais. Mas é também óbvio que todas estas famílias se decompõem em múltiplas facções, consoante o contexto.

Para além das direitas e das esquerdas que se enquadram no espectro constitucional, existem aquelas que o ultrapassam. É o que acontece com o conservadorismo autoritário, ou com o totalitarismo comunista. Um caso interessante é o do nazi-fascismo. É conhecida a tese de Lipset segundo a qual este é um “extremismo do centro”. Isto convida-nos a introduzir uma terceira dimensão no nosso mapa político. O espectro torna-se curvo quando deixa de ser constitucional. Aquilo que se afasta do centro em termos laterais afasta-se também em profundidade, para convergir de novo em direcção ao extremismo do centro. Por isso é que, como nota Bobbio, os extremos tocam-se. Voltaremos ao assunto.


publicado por psylva às 08:40
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