Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
A fragmentação das esquerdas


Domingos Amaral



Se 7 ou 8 deputados do PS passarem a comportar-se como “ala autónoma”, a maioria absoluta de Sócrates fica em perigo.

Antes das eleições presidenciais, já se sabia que à esquerda do PS existiam cerca de 14% de votos, divididos entre o PCP e o Bloco. Na última década tínhamos assistido a um progressivo minguar do PCP e, em especial nos últimos cinco anos, ao progressivo crescimento do Bloco. A personalidade de Jerónimo de Sousa conseguiu inverter esta tendência, e pela primeira vez o PCP cresceu e o Bloco perdeu. Mas convém não esquecer que a soma dos dois partidos tinha crescido nas últimas legislativas, e não diminuiu nestas presidenciais. Ou seja, à esquerda do PS existe claramente uma esquerda descontente, que compete entre si pelo protagonismo, mas que está consolidada e provavelmente em crescimento. O descontentamento destes 14% com as políticas “do défice” é evidente, e não parece ser possível que nenhuma dessas forças – PCP ou BE – possa ser trazida para o espaço da governação tranquilamente.

Para ajudar à festa, os resultados de Manuel Alegre nas presidenciais demonstram que há, dentro do eleitorado socialista, muita gente que se sente ou descontente com a governação de Sócrates, ou descontente com as suas escolhas políticas, e que viu na candidatura de Alegre uma oportunidade para se revoltar contra Sócrates. Na verdade, há em certas áreas da esquerda socialista uma espécie de sentimento de traição. Muitos, em especial o exército de funcionários públicos que na maioria das vezes vota no PS, sentem-se traídos, pois nunca esperaram que Sócrates fosse “atacar os seus previlégios”. As decisões do Governo de mexer com as idades das reformas, alterar os regimes dos professores, dos juízes, dos militares, dos polícias, as reformas na saúde, tudo isso, tão bem recebidas no centro e na direita, foram sentidas como uma traição em certa esquerda, que agora se pôde revoltar.

Resta saber qual o objectivo de Alegre nos tempos mais próximos. O seu discurso contestatário aos partidos, em especial ao seu, o PS, não o vai ajudar. Alegre “despartidarizou-se” para poder ganhar liberdade, e quase conseguia os seus objectivos, mas agora é difícil “partidarizar-se” de novo, provocando convulsões dentro do PS. É possível, mas não impossível.

Se olharmos bem para o PS, vemos que em pouco mais de um ano quase todas as estrelas do seu firmamento empalideceram. Guterres ainda ensaiou o regresso, mas perante a frieza das gentes foi tratar dos refugiados. Ferro Rodrigues e os seus correligionários saíram quase todos de cena, porventura prematuramente. Carrilho e João Soares foram humilhados nas urnas, e Mário Soares, como se provou nas presidenciais, já não pertence a este filme. À primeira vista, Sócrates tem o partido na mão, mas não é impossível que Alegre possa, com tempo, reunir à sua volta uma “tendência”, e atacar o ponto mais vulnerável de qualquer maioria absoluta, o grupo parlamentar.

A perspectiva não é, obviamente, agradável. Se 7 ou 8 deputados do PS se passarem subitamente a comportar como uma “ala autónoma”, que vota com independência e não segue as ordens do partido, isso significa que a maioria absoluta de Sócrates fica em perigo.

O perigo da instabilidade existe pois, e não é de estranhar. Ideologicamente, a esquerda anda em convulsão. Perdidas as crenças nos amanhãs que cantam, e nas teorias marxistas, pouco tem restado às esquerdas do que um combate de “resistência” ao andamento do mundo. A esquerda tem dito que não a um liberalismo largamente imaginário, que julga comandar o mundo, mas na verdade não tem, como se costuma dizer, um “projecto alternativo”. Assim sendo, as esquerdas modernas dividem-se num dilema: quando estão no poder, governam ao centro, como Lula, Blair, ou Sócrates; quando estão na oposição, tornam-se radicais da constestação. Esta convulsão, e esta confusão, são permanentes e provocam muito mal-estar. Em certos casos podem mesmo levar à derrota, como se passou com Schröder na Alemanha.

Convém por isso a José Sócrates estar atento. O Governo tem conseguido governar bem em certas áreas, e inverter algumas expectativas negativas na economia. Porém, é perigoso esquecer donde vieram a maioria dos seus votos. Talvez nos próximos meses os maiores perigos venham dessa fragmentada esquerda, e não de um presidente Cavaco eleito à tangente.


publicado por psylva às 08:33
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