Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2006
Lembrando o óbvio


Jorge A. Vasconcellos e Sá



As empresas existem para fazer dinheiro. Maximizar o valor do accionista. Ou no caso de instituições sem fins lucrativos, maximizar o valor dado ao cliente.

Daqui saem sete implicações. Primeiro: a remuneração do Conselho de Administração deve variar com a dos accionistas: cotação e dividendos. Aceitar isto é provar que se acredita A) na empresa, B) nossas (do C.A.) acções e C) que nos assumimos como responsáveis.

Segundo: os gestores são uma ‘helping hand’, uma ajuda, dos accionistas. Não os donos da empresa. Logo têm que ser parcimoniosos nos gastos em “brinquedos”: viagens, luxos, etc. Estão a gerir o dinheiro dos outros. Donde: extremo cuidado e parcimónia.

Terceiro: uma parte dos empregados pretende da sua empresa sobretudo protecção. Mas os accionistas querem motivação. Logo há que criar um sistema (simples) de incentivos, em que todos, todos, subam e desçam com a maré. Nas instituições há sempre um sistema de incentivos: quando ele não existe, incentiva-se a preguiça.

Quarto: todas ONG’s (caridades, fundações, etc.) deviam por lei (nos peditórios e documentos de contas) ter ( nos folhetos e na 1ª pp/ dos relatórios) em letras grandes: a % do orçamento que é gasto com custos internos em vez de servir a sociedade (valor das ofertas e serviços). Um rácio mínimo: 2/3 para o cliente; 1/3 de custos internos, devia ser estabelecido por lei.

Quinto: pela mesma razão, a lei devia proibir a comercialização de fundos de acções (abertos), em que os gestores beneficiem de prémios, mesmo quando o valor das participações dos subscritores diminui. É a única maneira de evitar que os accionistas sejam enganados pelo ‘fine print’ dos prospectos.

Sexto: Deve uma empresa com fins lucrativos fazer ofertas para instituições de caridade? Obviamente que... não. O dinheiro não é da empresa. É dos accionistas. Devolva-se o dinheiro aos accionistas, seus verdadeiros donos, para que eles sim ofereçam às caridades que preferirem. A pergunta: e se eles não fizerem? Não faz muito sentido. Primeiro, porque assumir que os accionistas são “piores” que os gestores? E segundo, não foi para isso que eles investiram na empresa, pelo que não temos o direito de o fazer.

Sétimo: o custo é nosso inimigo. Logo minimize-se os ‘headquarters’ e subcontre-se o mais possível. O nosso ‘back office’ é o ‘front office’ de outros (Drucker). Os subcontratados são custos variáveis, não fixos, podemos negociar entre vários deles e têm sobre nós as vantagens de economias de escala e experiência.

Tudo isto não é óbvio? Está errado? Tudo bem. Então escreva-se nos prospectos, de aumento de capital, subscrição de fundos e relatórios de contas: nós (gestores) não vamos maximizar o seu dinheiro (bem estar dos clientes no caso das ONG’s e fundações), dentro da lei e ética, mas antes tomar acções contrárias a maximizar o seu valor. De qualquer modo invista em nós... dê-nos cá o seu dinheiro...

Pelo contrário: tudo isto é óbvio? Então porque lembrá-lo? Porque o mais difícil é ver o... óbvio (como dizia B. Shaw). E portanto importa recordá-lo.
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publicado por psylva às 09:16
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