Domingo, 28 de Agosto de 2005
A presidencialização
Com a presente constituição, o Presidente não governa, mas também ninguém governa verdadeiramente sem o Presidente.

No meio da nossa actual desgraça, há sinais positivos. Reparemos, por exemplo, na atitude dos líderes das esquerdas durante esta pré-campanha presidencial. Há vinte anos, perante a candidatura do prof. Freitas, desataram a berrar, sem pudor, contra o “regresso ao fascismo”. Hoje, confrontados com a possível candidatura do prof. Cavaco, tentam-nos assustar um pouco mais elaboradamente. Já não pedem mártires para resistir ao “fascismo”, mas para “defender a actual arquitectura do sistema democrático” (Augusto Santos Silva). É óbvio que os líderes das esquerdas se deixaram impressionar com as qualificações académicas entretanto adquiridas pelos portugueses. Ainda bem que parecemos, enquanto povo, um pouco menos estúpidos.

Registado esse progresso, é preciso reconhecer que o novo papão não é muito mais convincente do que o antigo. Algum inocente que ouça este alarme anti-presidencialista poderá pensar que vigora aqui a constituição italiana, ou que Belém tem sido berço de cordeirinhos silenciosos. Sabemos todos que não tem sido. Por mais presidencialista que seja o próximo Presidente, é difícil imaginá-lo a fazer mais do que fizeram os seus antecessores nos últimos vinte anos. Vetar e bloquear leis importantes, censurar o governo em público, manter o primeiro-ministro, durante meses, sob a ameaça da dissolução, e finalmente dissolver uma assembleia onde havia uma maioria absoluta – já assistimos a tudo. Ninguém sabe o que virá a fazer o prof. Cavaco, caso seja eleito. Seja o que for, não há-de ser nada que não tenham feito, antes dele, os drs. Soares e Sampaio.

E é precisamente disto, e não da mudança da “arquitectura do sistema”, que os líderes das esquerdas têm medo. Só eles, que há vinte anos contam com mãos amigas em Belém, sabem quanto vale a Presidência da República. Os drs. Soares e Sampaio jamais renunciaram a fazer o que a constituição lhes consentia: controlar a governação. Não se limitaram a fiscalizar formalidades, nem se deixaram ficar dependentes do parlamento. Mais do que a democracia, quiseram garantir a concepção de esquerda da democracia. Às direitas, quando no governo, reconheceram apenas o direito de administrar em função de certos objectivos técnicos, geralmente de origem europeia, como a integração no Mercado Único, ou o cumprimento do PEC. Conseguiram assim reduzir as direitas a uma condição tecnocrática, com a qual alguns dos seus líderes se conformaram. Só esta submissão permitiu aos Presidentes das esquerdas desempenharem, aparentemente, um papel de integradores da comunidade política.

Com a presente constituição, o Presidente não governa, mas também ninguém governa verdadeiramente sem o Presidente. Para qualquer solução de governo, a sintonia com o presidente é pelo menos tão importante como uma maioria parlamentar. Não é preciso mudar “arquitectura” nenhuma para que assim seja. A força do presidente neste regime demonstra-se com um único facto. Em Dezembro de 2004, a escolha de 2 411 000 eleitores nas presidenciais de 2001 serviu para anular a escolha de 2 677 000 eleitores nas legislativas de 2002. O Presidente é sempre mais forte, mesmo que seja menos popular.

Os líderes das esquerdas temem que o prof. Cavaco seja um Presidente como foram os drs. Soares e Sampaio. Temem que um Presidente Cavaco os possa submeter àquele tipo de tutela a que os Presidentes Soares e Sampaio, muito constitucionalmente, submeteram as direitas durante vinte anos. Reconheçam isso, e poupem-nos às palhaçadas do “fascismo” e da “presidencialização”.



publicado por psylva às 11:17
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Locke e o terrorismo

Ao contrário do que dizem os líderes políticos do mundo livre, o terrorismo islâmico está a modificar o nosso modo de vida.

Liberdade e segurança são dois valores inter-relacionados, mas não do modo como geralmente se pensa. Tendemos a considerá-los indissociáveis e complementares. Pensamos que não existe verdadeira liberdade sem segurança e que a segurança não tem valor sem a liberdade. Isso é certo. Mas tendemos também a crer que liberdade e segurança estão sempre a par, numa espécie de equilíbrio pré-definido. Infelizmente, não é assim. O equilíbrio entre os dois valores é contingente, varia com as circunstâncias. Há inúmeras situações em que liberdade e segurança entram em rota de colisão e em que é necessário modificar o balanço entre as duas. Ou seja, sacrificar um pouco de uma delas para não perder totalmente a outra. Mas como fazê-lo?
O melhor guião para repensar o balanço entre liberdade e segurança continua a ser o que nos foi deixado, na proto-história do liberalismo, pelo filósofo inglês John Locke. Locke tinha a percepção clara de que o modo como os teóricos do poder absoluto – particularmente Thomas Hobbes – tinham pensado a relação entre estes dois valores era profundamente insatisfatório. Hobbes considerara que, para garantirem a segurança das suas vidas e das suas pessoas, os indivíduos teriam de prescindir da sua liberdade e colocar todo o poder nas mãos de um soberano absoluto. De outra forma, pensava Hobbes, o carácter predatório da natureza humana levaria a uma constante “guerra de todos os homens contra todos os homens”. Porém, Locke percebeu que a conclusão de Hobbes era parte do problema e não parte da solução. Ao admitirem que o poder deveria ser concentrado num soberano absoluto, os homens perderiam não só a sua liberdade, mas também a segurança que julgavam poder alcançar. Eles ficavam à mercê desse mesmo poder absoluto que poderia, com facilidade, atentar contra as suas vidas e a sua integridade física.

Para Locke, a liberdade natural dos homens não equivale a eles poderem fazer tudo o que lhes apetece. A liberdade que cada um tem de dispor de si mesmo é acompanhada pela obrigação de respeitar a liberdade do outro, assim como a segurança da sua pessoa. Mas, como esta obrigação nem sempre é respeitada, torna-se necessário encontrar um poder que puna todos os que atentem contra a liberdade e segurança alheias. Para isso, os indivíduos não precisam de abdicar da sua liberdade em geral, mas apenas de uma liberdade específica: a de perseguir e punir os criminosos pelas suas próprias mãos. Por outro lado, os indivíduos não devem entregar esse poder a um soberano independente da comunidade, mas atribuí-lo à própria comunidade. Esta, por sua vez, pode delegar esse poder em representantes que façam as leis, nomeiem juízes para julgar os infractores e vigiem o poder que executa as leis e as penas.

As sociedades demo-liberais contemporâneas adoptaram, grosso modo, a solução de Locke. Ela aconselha que não se prescinda de mais liberdade individual do que a estritamente necessária para garantir a segurança. O problema residual – e que não é pequeno – reside no facto de o “estritamente necessário” variar com as circunstâncias. Quando os perigos para a segurança são maiores, tende-se a atribuir mais poderes aos que devem perseguir e punir os criminosos. Quando esses perigos são menores, pode-se manter uma mais ampla esfera de liberdade.

No momento actual, as circunstâncias que permitiam um balanço largamente favorável à liberdade deixaram de existir. Ao contrário do que dizem os líderes políticos do mundo livre, o terrorismo islâmico está a modificar o nosso modo de vida. São prova disso a legislação anti-terrorista já adoptada em vários países – como o ‘USA Patriot Act’ ou a ‘Prevention of Terrorism’ Bill na Grã-Bretanha – assim como aquela que ainda está para vir. Parece inevitável que, no futuro imediato, as sociedades liberais continuarão a conceder um pouco mais à segurança e um pouco menos à liberdade. Mas convém estarmos atentos. Mesmo em Estados de inspiração Lockeana, aqueles que exercem o poder tendem sempre a abusar dele. Podem punir terroristas e outros criminosos, mas também alguns inocentes.


publicado por psylva às 11:16
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Uma questão de prioridades

Os projectos da OTA e do TGV – subsumíveis na tese do Manifesto dos 13 – acabaram por tomar o centro do debate.

A maioria das reacções ao documento que ficou conhecido por “Manifesto dos 13”, sobretudo as “oficiais”, têm sido de uma confrangedora pobreza argumentativa. Com excepções, naturalmente, e com destaque para o papel da blogosfera.

A tese central do documento é a de que Portugal vive uma crise profunda, caracterizada, entre outras coisas, pela perda de competitividade da produção nacional e por um excesso de despesa (face à capacidade produtiva). O medíocre crescimento económico dos últimos anos e a sucessiva acumulação de défices externos dão disso boa conta. A que acresce um descontrolo das finanças públicas, de há muito reconhecido pelos mais atentos. Nestas circunstâncias, apostar no investimento em grandes obras públicas é uma ideia errada, que irá agravar, ao invés de resolver, os problemas fundamentais do País e inverter as prioridades reclamadas pela situação. E sobre esta tese central nada de relevante foi dito.

Não deixa, pois, de ser estranho que tanta tinta tenha sido feita correr para justificar o que não foi disputado: o potencial papel do investimento público. Sobre isso, o documento reconhece que “O investimento público pode ter virtudes e pode ser um importante elemento estimulador do desenvolvimento”. Mas especifica – e é sobre esta situação específica que deverá incidir o eventual contraditório – que “não é, nas presentes circunstâncias da economia e das finanças publicas, o caso do investimento físico, sobretudo se dirigido a obras cujo mérito não tenha sequer sido devidamente demonstrado”.

O Ministro da Economia, no artigo do Expresso, cita dois estudos em defesa dos investimentos públicos. Um, é o muito citado trabalho de M. Pereira e J. Andraz, que apenas permite concluir que as infrastruturas de transporte, construídas a partir de um estado de subdesenvolvimento na matéria, terão criado importantes externalidades positivas. Mas se daí se quiser extrair, como tem sido feito, que as obras públicas exercem um grande efeito dinamizador na economia, então deveria esperar-se que os últimos 10 anos (com a Expo, o Euro, as Scuts, a Ponte, os Metros, etc.) fossem dos mais prósperos. Todavia, aconteceu precisamente o contrário: temos que recuar 60 anos para encontrar uma década com um crescimento económico tão baixo, e acumulou-se um dos maiores défices externos do mundo actual. É por este caminho que se quer seguir?
O outro estudo é um paper do FMI (Cristophe Kamps, IMF WP/04/67), do qual é retirado que Portugal tem a menor capitação de capital público entre 22 países da OCDE (pois não tem também a menor capitação do PIB?!), mas de que se omite, convenientemente, que: a) entre 1990 e 2000 o stock de capital público per capita cresceu 75% (contra 30% do PIB per capita); b) Portugal era, até 1990, o último desses 22 países, em termos do rácio entre capital público e o PIB, mas em 2000 já passara para a 16ª posição, ultrapassando a Irlanda, a Bélgica, a Austrália, o Canadá, a Suécia e o R. Unido (e não contando com as obras “desorçamentadas”...); c) a elasticidade entre o PIB português e o stock de capital público (1960-2001) é negativa (-0.57). Será ilusão minha, ou este estudo valida a tese do Manifesto?
Fernando Pacheco, por outro lado, escreveu neste jornal, em 5 de Agosto, um extenso artigo, academicamente argumentado, para justificar a potencial utilidade do investimento público, que, salvo talvez algum radicalismo liberal, ninguém contesta. Mas o mais importante que se extrai do seu artigo está no primeiro quadro (Factores explicativos dos diferenciais de crescimento na OCDE) e que mostra, muito claramente, que os dois factores onde Portugal perdeu mais terreno nos diferenciais de crescimento, que têm um maior efeito potencial no crescimento e que, por isso, deveriam constituir prioridade absoluta de qualquer governo, são: a) “factores específicos” (”eficiência do funcionamento dos mercados de factores, quadro regulatório, políticas de concorrência e estímulo à informação”; e b) capital humano. Só depois, e com um impacto potencial muito menor, é que vem a taxa de investimento (nada a referindo, porém, ao investimento público). Ora, não é isto também um poderoso argumento a favor da tese do Manifesto?
Entretanto, os projectos da OTA e do TGV – que, subsumíveis na tese do Manifesto, não são por ele particularmente visados – acabaram por tomar o centro do debate. E, nesta matéria, a sua defesa tem sido tão frágil e tão mal fundamentada que começa a suscitar receios antes impensados.

Quanto a estes projectos, aquilo que se espera ver fundamentadamente justificado é muito simples: a) que os projectos são necessários; b) que não existem alternativas mais eficientes; c) que têm uma aceitável rendibilidade económica e social; d) quais os recursos financeiros necessários, para investimento e funcionamento, qual a sua origem e qual a “engenharia” de mobilização; e) que garantias, contratuais ou extra-contratuais, são asseguradas pelo Estado aos investidores privados. Só isso.

Já agora, quando se diz que os projectos são uma escolha política (insinuando a sua autojustificação), isso quer dizer exactamente o quê? Que, num regime democrático, o capricho e o “porque sim” são fundamentações da escolha pública prevalecentes sobre a demonstração racional e transparente? É que eu julgava que isso era apanágio dos outros regimes, mas se calhar é ignorância de economista...




publicado por psylva às 11:15
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Competitividade, flexibilidade e discurso político
A classe política parece ter descoberto agora o tema da inovação. Antes já se tinha encantado com o assunto da competitividade.

Vejamos então em que consistem as noções de produtividade e de competitividade.

Em termos físicos, numa lógica que os engenheiros percebem bem, a produtividade dum processo, no qual um input é transformado num dado ‘output’, é o quociente entre o ‘output’ e o ‘input’:

Produtividade = ‘Output’/‘Input’

Em termos económicos, a produtividade será o quociente entre o valor acrescentado gerado no processo de transformação e o input:

Produtividade = Valor acrescentado/‘Input’

Em termos económicos, é fácil perceber que se aumentarmos a produtividade num processo que cria um produto que não se vende (logo socialmente inútil), aumentamos o número de produtos produzidos, mas não aumentamos a competitividade… Por isso, a produtividade é condição necessária para a competitividade mas não é suficiente.

Como só há valor acrescentado se houver utilidade social e valor de mercado (preço) para aquilo que produzimos, ao introduzir a noção de valor acrescentado, aproximamos a noção de produtividade da de competitividade.

A competitividade é, no fundo, a capacidade das empresas produzirem bens e serviços, numa base sustentável, de forma mais eficiente que as suas competidoras, quer em termos dos factores-preço quer dos não-preço (factores de ordem qualitativa).

A competitividade consiste pois, em transformar ideias em produtos de uma forma melhor, mais rápida e mais barata que os concorrentes.

Em resumo: (1) a noção de competitividade descreve de forma genérica o desempenho da economia e a capacidade dum País segurar ou aumentar a sua cota de mercado num sector particular (Krugman, 1996; Porter 1998); (2) para medir a competitividade, recorre-se a vários indicadores de desempenho, entre os quais o mais importante é a produtividade; (3) a produtividade é um conceito e, como tal, pode-se medir; (4) a competitividade é apenas uma noção.

Por tudo isto, muitas vezes, as discussões sobre a competitividade dum Pais acabam por se reduzir à discussão sobre a produtividade.

Também é preciso ter consciência de que não há nos nossos dias competitividade sem flexibilidade na afectação dos recursos, o que passa necessariamente pela flexibilidade nos mercados de trabalho, produtos e serviços. Com efeito, o problema central duma economia é sempre a afectação de recursos escassos a um conjunto muito superior de solicitações. Numa época de acelerada evolução tecnológica, de globalização e de mutações nos mercados, a única certeza que podemos ter é que o dia de amanhã será diferente do dia de hoje, pelo que temos de ter capacidade de resposta rápida e agilidade às solicitações e mutações dos mercados, o que só é possível se houver flexibilidade na afectação dos recursos. Aqui, a Europa e Portugal estão a perder claramente em relação aos EUA e às economias asiáticas. Continuamos estáticos, com sistemas pouco flexíveis, mantendo níveis elevados de proteccionismo e intervencionismo estatais que tendem a cristalizar ou a distorcer a afectação dos recursos.

Por outro lado, no caso português, com a entrada no euro, rigidificamos a nossa taxa de câmbio nominal, que era o nosso ‘slack’, a variável que manipulávamos para repor artificialmente a nossa competitividade. Como os engenheiros bem sabem, as estruturas e os sistemas sujeitos a choques externos não podem ser rígidos, têm que ter flexibilidade e graus de liberdade, ‘slacks’, para se ajustarem a esses choques, sem partirem. Ora, a economia portuguesa é um sistema aberto ao exterior que rigidificou a taxa de câmbio nominal quando aderimos ao euro. Para compensar a perda desse grau de liberdade, temos que arranjar outras variáveis de ajuste aos choques externos duma economia globalizada. Tal implica o reforço da flexibilidade interna a nível macro-económico e a aceleração das reformas estruturais. Se tal não acontecer, o sistema ajusta-se dramaticamente através das variáveis reais como o emprego!
Há então que ter políticas públicas que promovam a competitividade, flexibilizem os mercados, acelerem as reformas estruturais. Por isso o discurso político e coxo quando fala em competitividade, esquecendo a flexibilidade e as reformas estruturais.



publicado por psylva às 11:11
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Sábado, 20 de Agosto de 2005
Crise do petróleo: o que sempre quis saber!

A crise do petróleo iniciada há um ano, ganhou nova expressão com os preços a atingirem valores «record», em termos nominais, já que em termos reais ainda estamos a alguma distância dos 40 USD por barril de 1979/1980.
Em tempo de férias, com tantas más notícias sobre a economia, a seca, os fogos, etc., não me apetece «bater mais no ceguinho»?

A crise do petróleo iniciada há um ano, ganhou nova expressão com os preços a atingirem valores «record», em termos nominais, já que em termos reais ainda estamos a alguma distância - já não muito longe - dos 40 dólares por barril de 1979/1980.

Isto tem levado a fazerem-me muitas perguntas e a escrever-se muito sobre o assunto, quase sempre abordando aspectos parcelares, o que lança confusão na avaliação do problema.

Por isso, decidi tentar definir alguns conceitos e explicações básicas que ajudem o leitor a melhor entender o(s) problema(s).

Tentarei explicar algumas ferramentas para melhor percebermos o que se está a passar.

1. O petróleo está a acabar? As reservas dão para quantos anos?

A confusão entre recursos petrolíferos e reservas petrolíferas é a fonte da maior confusão.

Vamos por partes. Claro que o petróleo «vai acabando» porque levou milhões de anos a formar-se, logo, não é renovável no horizonte útil das nossas sociedades e do nosso tempo histórico.

Recursos petrolíferos serão todo o petróleo que existe no planeta. Mas, deste, só uma pequena parte é recuperável: são as reservas, um subconjunto dos recursos.

Para além de muitos recursos não terem ainda sido identificados - nomeadamente nos oceanos (offshore) - muito do petróleo conhecido não pode ser explorado por razões económicas, políticas ou ambientais. Por exemplo, ninguém vai iniciar a exploração de petróleo num país em guerra e a protecção do ambiente não permite (ainda) extrair petróleo do Alasca.

Mas, a questão económica é a mais relevante para que os recursos possam ser «promovidos» a reservas. É um processo muito dinâmico que depende dos custos de produção - por sua vez dependentes, entre outros factores, da tecnologia disponível para extrair petróleo - e do preço que o mercado está disposto a pagar por um barril.

Assim, quando a cotação do petróleo aumenta, aumentam as reservas petrolíferas, já que reservatórios «marginais» passam a ser interessantes sob o ponto de vista económico.

Foi isto que levou a explorar o Mar do Norte depois dos choques dos preços em 1972/3 e 1979/80 e que hoje permite - com o avanço tecnológico - ir buscar petróleo nos oceanos a mais de 2 km de profundidade.

Dito isto, nas condições actuais de preço, da tecnologia e ao ritmo do consumo actual, teremos reservas petrolíferas para mais 40 anos.

Extrair um barril hoje, custa menos de meio dólar em muitas regiões do Médio Oriente, até 15 dólares em zonas inóspitas - offshore, zonas geladas, pântanos ou florestas densas.

O «resto» dos custos são royalties pagos aos países produtores e, claro, margem das companhias e a conta a outras despesas para fazer chegar o barril - que tem 159 litros de «outro negro» - aos postos de expedição.

2. Quem puxa pelo consumo?

Os chineses têm as costas largas. O aumento do consumo da China foi de 900 mil barris dia. O total do consumo, para 1,2 mil milhões de pessoas é de 6,6 milhões de barris dia. A Índia só aumentou a procura em 100 mil barris dia e mais de mil milhões de pessoas consomem 2,5 milhões de barris dia. Já os EUA aumentaram o seu consumo em 500 mil barris dia e cerca de 260 milhões de pessoas consomem 20,5 milhões de barris dia!!.

O «resto» do Mundo aumentou o consumo em 2004 em 1 milhão de barris dia.

3. A culpa é dos especuladores?

Ouve-se muito dizer que os preços sobem porque aumenta o número de especuladores e respectivos capitais especulativos que giram em torno das principais bolsas de petróleo.

Trata-se de uma explicação pobre.

Primeiro porque os «especuladores» não são parvos. Se transferem capitais para a commoditie petróleo, em vez de os aplicarem em qualquer outra área, é porque sabem que estão reunidas condições no mercado que lhes abrem a perspectiva de realizarem mais-valias. Portanto, como em qualquer outro mercado, a «especulação» não é a causa. Será, quanto muito, o efeito.

E sabe que, desde há muitos anos, que as transacções feitas em bolsa são em 99% de compra e venda de «petróleo branco», ou seja, em que menos de 1% corresponde a trocas físicas e efectivas?

Enfim, quando Bush invade o Iraque ou ameaça o Irão, «faz mais» pela especulação que todos os especuladores juntos, limitando-se a interpretarem os «sinais dos tempos»?

4. O que pagamos no litro de combustível?

O custo da matéria-prima não chega a «pesar» - mesmo a 67 dólares o barril - em 10% no preço de venda ao público da gasolina ou gasóleo. Muito menos, como vimos, os custos de extracção do petróleo do subsolo.

O «resto» dos custos estão no transporte, na refinação, na distribuição e, sobretudo, nos impostos pagos aos Estados na venda final, que chegam a 40% no gasóleo e mais de 60% nas gasolinas.

O que também tem estado a «correr mal», contribuindo para o encarecimento do abastecimento, é que ao aumento dos preços da matéria prima somam-se, pela primeira vez, aumento nos fretes de transporte e nas margens das refinarias.

É tudo a puxar para o mesmo lado!

Tal resulta da oferta e da procura. Durante duas décadas abateram-se navios e refinarias por razões de margem do negócio, ambientais, entre outras. Agora há escassez de oferta nestas etapas todos da «fieira» do petróleo, logo os preços aumentam.

5. Até quando é que isto vai durar?

Muito tempo, talvez para sempre!

A verdade é que todos os «fundamentais» que contam na formação dos preços estão a «puxar para cima» - procura elevada, sub-investimento no arriscado negócio da prospecção e pesquisa, estados mais exigentes na cedência de concessões, escassez de navios, de refinarias, etc.

Não tem qualquer fundamento dizer que os preços da matéria-prima chegarão a y ou 3y. Ninguém sabe e, nos últimos 25 anos, vi afirmarem-se os maiores disparates.

O que sabemos é que a procura é muito rígida - logo, pouco sensível ao aumento dos preços -, que descobrir e pôr a funcionar um novo reservatório pode levar mais de cinco anos, que conceber, licenciar e construir uma refinaria leva facilmente 10 anos, que construir e operar novos navios com as actuais especificações de segurança leva 5 anos.

6. Que fazer?

Prepare-se para gastar mais dinheiro com o seu carro. Pode começar a utilizar mais o transporte público?

Prepare-se ainda para trocar o seu carro por uma tecnologia mista ou «revolucionária» nos próximos anos. O velho motor de explosão alimentado a derivados do petróleo tem os dias contados.

Já agora, em termos macroeconómicos, tenha presente que cada dólar de aumento só na matéria-prima, petróleo, custa ao país 110 milhões de dólares!

Os preços pagos pelo barril foram de 38 dólares, em média, em 2004. Este ano serão superiores a 50, digamos 55 USD.

Como o Euro não tem estado a ajudar, face ao dólar, significa que a factura petrolífera de Portugal irá custar em 2005 mais cerca de 2 mil milhões de dólares?

É uma ponte sobre o Tejo, mais uma sobre o Douro que saem, a mais, do País!



publicado por psylva às 19:49
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Quanto custa despedir

A história é mesmo boa e vale a pena contá-la de novo, agora que já são públicos os últimos números do desemprego em Portugal: quase 400 mil pessoas vivem nessa situação dramática, das quais mais de metade procura emprego há mais de um ano.

A história, contada pela primeira vez na revista brasileira “Veja”, começa na sala de aulas de uma das grandes universidades americanas. O que aqui se conta é assumidamente uma adaptação.

Durante uma aula do Masters in Business Admnistration (MBA), o professor catedrático coloca na mesa um caso prático para os alunos resolverem: a economia do país atravessa um mau período, a recessão vai agravar-se ainda mais no próximo ano, o que deverá fazer o presidente-executivo de uma multinacional de automóveis (o exemplo é meu) para reduzir o embate da travagem económica?
Os alunos reflectem durante alguns minutos. São alunos experimentados, todos eles já passaram por várias empresas, sabem que o caso não é assim tão raro acontecer – pelo contrário, nos últimos anos, com o aumento da concorrência e com o galopar dos preços do petróleo, é um cenário comum, um cenário que qualquer gestor tem obrigatoriamente de manter na agenda de trabalhos, mesmo quando a vida parece correr melhor do que o esperado.

Depois de reflectirem e estudarem os números colocados na mesa, os alunos começam a sugerir as suas estratégias para fintar a crise. O primeiro sugere cortes temporários nos investimentos de marketing e publicidade. Outro prefere centrar a empresa no seu ‘core-business’ e opta por vender grande parte dos negócios paralelos da empresa. Outro aluno, ainda mais radical – ou prudente –, junta às duas políticas anteriores uma terceira: congelamento de salários e corte nos prémios de produtividade. O que importa é reagir depressa e em força.

O professor escuta as propostas sem reagir, até que finalmente um dos alunos levanta a mão e avança a matar: “Para começar, eu despedia 2500 dos 10 mil empregados...” A partir daqui não consegue explicar mais nada. O professor interrompe-o, não o deixa falar mais, ordena-lhe que abandone a sala imediatamente. “Saia já! Já! não volte aqui. O senhor não volte mais.”
A sala cai num silêncio profundo. Profundo e incrédulo: por que motivo o professor reagira daquela maneira, ainda por cima a um aluno com bom currículo, com provas dadas, esforçado, e que, naquele momento, procurava apenas dar resposta a um problema teórico? O professor insiste: “Saia, saia já!”
O aluno recolhe então os livros, coloca-os na mala e dirige-se em silêncio para a porta. Quando se prepara mesmo para sair, o professor, a sorrir (sim, a sorrir), interrompe-o. “Pode voltar para o seu lugar. Pode sentar-se. Agora ficaram todos a perceber o que significa ser despedido sem ter qualquer culpa.”


publicado por psylva às 19:48
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A grande solução


No curioso mundo do dr. Vitorino, o Estado é o sujeito de todas as acções: “incentivar”, “garantir”, “definir”, “ordenar”e “pagar”.

Era de esperar. Ardem as árvores, e o país transborda logo com silvicultores de bancada. Num mês, ficámos a saber tudo sobre os matagais a que, com um patriotismo pomposo, chamamos “floresta”. Aprendemos a odiar a monotonia vulnerável dos pinheiros e eucaliptos. Já somos capazes de criticar, em coro afinado, o desleixo dos proprietários ou a desordem do casario. Na televisão, o dr. António Vitorino destilou fluentemente a sabedoria nacional sobre o assunto. E deu logo a inevitável grande solução: o Estado. No curioso mundo do dr. Vitorino, o Estado é o sujeito de todas as acções: “incentivar”, “garantir”, “definir”, “ordenar”, e ... “pagar”. Os cidadãos existem passivamente, para serem “mobilizados” e “compensados”. Tudo depende do Estado e da sua “política de ordenamento florestal”. Porquê? Porque, como seria de esperar, a causa do mal é o “lucro no mercado”, razão pela qual os “proprietários” teriam forrado as nossas encostas com “árvores de crescimento rápido”.

Eis tudo explicado e tudo resolvido. Mas a história podia ser contada de outra maneira. Em Portugal, o Estado foi demasiadas vezes um instrumento para aplicar o que alguns políticos iluminados imaginaram ser as receitas do progresso. A ocupação intensiva do território, através da cultura e da “florestação”, foi uma dessas receitas. Em nome do progresso, ignoraram-se condições naturais, atropelaram-se tradições históricas, e questionou-se o direito de propriedade. O Estado apossou-se de terrenos comunitários para os cobrir de arvoredos instantâneos. A partir de 1919, obrigou os proprietários de incultos com mais de 100 ha a fazer o mesmo. E quando as populações, ingratamente atrasadas, ousaram resistir à grandiosa visão florestal, os iluminados recorreram à força armada para as fazer ver a luz. Aconteceu no Gerez e na Estrela em 1888-1889. Aquilino Ribeiro tirou de incidentes semelhantes um romance: Quando os Lobos Uivam (1958).

Esses pinhais-de-artifício pertencem menos ao cadastro do mercado, do que ao catálogo de desvarios da nossa política desenvolvimentista. Da Ota para trás, a lista é grande. Graças a um complicado sistema de protecção alfandegária, Portugal chegou a ser um dos mais esforçados produtores de trigo, quando era um dos países europeus com menos condições para essa cultura. Em resultado, Lisboa pagou, durante décadas, o pão mais caro da Europa, e os solos do Alentejo foram submetidos a uma erosão inútil. Mas os iluminados, que agora exigem aeroportos, queriam então um país autosuficiente em trigo e madeira, independentemente dos custos. E assim, com muita “mobilização” e muitas “compensações”, se fizeram pinhais e searas, proporcionando bons negócios a alguns. O Estado dos iluminados foi sempre melhor a dar lucros do que a aplicar a lei. E foi também sempre mais eficaz a destruir do que a repor qualquer ordem. Demasiadas vezes, a passagem do tempo revelou apenas a imprevidência dos iluminados. A “floresta” é um exemplo. Quando as populações abandonaram os campos, o arvoredo do nosso Grande Salto em Frente ficou para trás, como pastagem para incêndios.

Em dois séculos, esquecemos muita coisa e não aprendemos nada. Há um problema, e imaginamos logo a solução sob a forma de um decreto-lei que justifique o emprego de mais funcionários, ou sirva para regalar empresários amigos. Se é assim que queremos viver, ou se já não somos capazes de viver de outra maneira, então o melhor é habituarmo-nos aos incêndios, aos défices, e à desordem. Porque o que diz o dr. Vitorino não é solução. É apenas uma grande parte do problema.


publicado por psylva às 19:47
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Défice quê?!

Por:

Vítor Bento



Com a entrada no euro, gerou-se uma tendência para desvalorizar o défice externo, sustentando que a restrição económica relevante passou a exercer-se directamente ao nível das empresas e das famílias e que a sua gestão é, portanto, da exclusiva responsabilidade de cada unidade económica.

Alguns vão mais longe, argumentando que os equilíbrios macroeconómicos nacionais deixaram de ter relevância para a política económica e que, como tal, os governos se deverão empenhar em intervir mais próximo da “microeconomia” – nas empresas e na “reorganização” de sectores – e na construção de infra-estruturas.

Não é difícil perceber a influência desta corrente nos desmandos políticos cometidos ao nível das grandes empresas sectoriais (onde o Estado mantém posições), na instabilidade de gestão das empresas públicas, na profusão e efemeridade de programas e estruturas de “apoio às empresas” (onde cada Ministro, na sua fugaz passagem pelo governo, projecta a idiossincrasia pessoal), na promoção de grandes investimentos estratégicos (que me recordam a explicação de Miguel Beleza para distinguir entre investimentos rentáveis e estratégicos, ensinando que estes últimos designam precisamente os que não são rentáveis!) e, obviamente, na desvalorização do descontrolo das contas públicas (que só merece atenção porque Bruxelas a isso obriga).

Se eu não fosse economista, tivesse que me basear apenas no bom senso e me dissessem que, na média dos últimos 6 anos, dos 175 países do Mundo só havia 2 que apresentavam um desequilíbrio externo (T. Correntes) mais elevado do que Portugal (Azerbeijão e Estónia, mas com taxas de crescimento económico muito mais elevadas); que dos 32 países com défices superiores a 2% do PIB (Portugal regista 8%), o nosso apresenta o crescimento mais lento; que das 29 economias avançadas, Portugal (sendo a mais pobre) é a que apresenta, simultaneamente, o maior défice externo e (com excepção da Alemanha) o menor crescimento do PIB; se me dissessem tudo isso, eu ficaria preocupado e iria achar que, com euro ou sem euro, tais recordes em matéria de défice externo não podiam ser coisa boa.

E de facto não são! Embora o défice externo já não indicie uma iminente ruptura financeira do País, continua a dar-nos informações fundamentais sobre desequilíbrios que podem ter consequências muito graves se não forem corrigidos atempadamente. Assim, o demorado e enorme défice externo português diz-nos, entre outras coisas, que a sociedade portuguesa está, há demasiado tempo, a viver muito acima das suas possibilidades, sustentando-se com endividamento estrangeiro. E, lido em conjunto com o crescimento medíocre, diz-nos que a economia portuguesa não tem capacidade de gerar a riqueza necessária para sustentar o actual nível de vida. Como qualquer pessoa de bom senso facilmente percebe, não se pode viver indefinidamente do crédito. Por isso, os dois indicadores têm vindo a advertir-nos para a insustentabilidade do nível de vida a que nos habituámos e para a consequente necessidade de o ajustar às possibilidades, bem como a de melhorar a nossa capacidade de geração de riqueza. Em termos de “economia antiga” quer isto dizer que seria necessário reduzir a despesa e estimular a criação de valor “transaccionável”.

E, com euro ou sem euro, o ajustamento vai ter que ser feito, seja a bem, seja mal. Se se tivesse reagido atempadamente aos sinais “clássicos” – presentes pelo menos desde 1999 – teria sido possível atalhar mais cedo o problema e minimizar os custos sociais: tirar “pressão da procura” através da gestão orçamental, moderar a progressão salarial para preservar competitividade e criar mais riqueza (moderando também a procura), incentivar a produção de bens transaccionáveis (em vez de não transaccionáveis como aconteceu com a persistente aposta nas grandes obras públicas), valorizar o capital humano e reformar o Estado (para reduzir os “custos de contexto” e aumentar a eficiência da economia). Não daria lugar a qualquer milagre, mas, muito provavelmente, a situação ter-se-ia agravado menos e ter-se-ia preparado mais cedo o terreno para a recuperação que será sempre demorada.

Em vez disso, tem-se “deixado andar”, confiando nas obras públicas como (falso) dinamizador da economia. Este caminho poderá alimentar transitoriamente a tranquilidade política, mas manterá o País na senda do empobrecimento relativo (e provavelmente absoluto) em que já se encontra: nos últimos 5 anos a economia cresceu a uma média de 0,5% ao ano e é preciso recuar ao fim da 2ª guerra mundial para encontrar um período de 10 anos seguidos onde a economia portuguesa tenha crescido tão pouco como nos últimos 10 (apesar da Expo, do Euro-2004, das SCUTs, etc.). O desemprego continuará a aumentar, as famílias mais pobres e sobre-endividadas poderão entrar em ruptura financeira e as desigualdades sociais vão agravar-se (sobretudo entre quem tem e não tem emprego). A emergência de uma grave crise social, com profundas e imprevisíveis implicações políticas não será, pois, o destino menos provável deste caminho. Mas os sinais estão lá há muito tempo...



publicado por psylva às 19:47
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Nankai High School

Por:

Jorge A. Vasconcellos e Sá



Num país como a China, seria de esperar uma educação sob a influência do igualitarismo (por baixo) da doutrina socialista/comunista; e de obediência (à hierarquia) da filosofia de Confúncio.

Ou seja, padrões de mediocridade e conformismo.

É por isso surpreendente quando o Financial Times nos traz informação sobre o liceu Nankai. Localizado numa cidade portuária a 1h30m de carro de Pequim, este liceu mantém os seus valores inalterados desde a fundação em 1904, (tendo tido que fechar durante alguns dos anos loucos da revolução cultural, na década 60).

O modelo deste liceu baseia-se em três pilares: missão; conceitos e métodos.

A missão é “cultivar talentos excelentes e inovadores para as universidades chinesas”. Isto é, “preparar as fundações dos líderes futuros”.

Em consequência desta missão, o liceu de Nankai vê-se a si próprio como uma marca. E as marcas são promessas às sociedades: “se nos comprar entregaremos o prometido”.

Isto é, as marcas publicitam os conceitos. A entrada do liceu está forrada de quadros anunciando os sucessos antigos e nos últimos exames de entrada para a universidade: um aluno teve a melhor nota numa disciplina em toda a cidade (8 milhões); outro grupo conseguiu a maior média de sempre do liceu; etc.

Finalmente os métodos garantem que a marca cumpre a missão. No caso da Nankai High School eles são três. O primeiro dos métodos é a adaptabilidade (inovação), que se traduz na contínua mudança dos cursos optativos oferecidos.

O segundo método é o culto do individualismo, do pensamento diferente e do incentivo ao debate e divergência.

O terceiro é a perseverança e a diligência: “queremos que os alunos aprendam o valor do esforço, porque só através dele se alcança o sucesso”.

Em resultado, os alunos do liceu de Nankai são uma verdadeira lista de “quem é quem” na China. Desde Zhou Enlai ex-primeiro ministro de Mao-Tse-Tung, até War Jiaboo, actual número um do governo, passando por Wu Dayon ex-número dois dos nacionalistas de Chiang Ki-Shek em Taiwan.

Ou seja, os muitos líderes, quer comunistas, quer dos seus inimigos nacionalistas, têm suas raízes no mesmo sítio. Num liceu onde se cultiva o trabalho, o individualismo e a inovação.

Valores que melhorando cada um, beneficiam todos: pelo exemplo e pela contribuição.

O ensino em Portugal? Com excepções de ilhas de excelência, é o oposto: a preguiça, sob o pseudónimo do diálogo; a conformidade no lugar da inovação; e o desleixo em vez da iniciativa. Logo, colhe-se aquilo que se semeia: “Pelos seus frutos os conhecereis”
(Mateus: 7:16).



publicado por psylva às 19:46
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Sábado, 6 de Agosto de 2005
A ARTE DE VIVER JUNTO



Conta uma lenda dos índios sioux que, certa vez, Touro Bravo e Nuvem Azul chegaram de mãos dadas à tenda do velho feiticeiro da tribo e pediram:

- Nós nos amamos e vamos nos casar. Mas nos amamos tanto que queremos um conselho que nos garanta ficar sempre juntos, que nos assegure estar um ao lado do outro até a morte. Há algo que possamos fazer?



E o velho, emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:

- Há o que possa ser feito, ainda que sejam tarefas muito difíceis. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte da aldeia apenas com uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu,Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono; lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Somente com uma rede deverás apanhá-la, trazendo-a para mim viva!



Os jovens se abraçaram com ternura e logo partiram para cumprir a missão.



No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves.



O velho tirou-as dos sacos e constatou que eram verdadeiramente formosos exemplares dos animais que ele tinha pedido.

- E agora, o que faremos? Os jovens perguntaram.

- Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.



Eles fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas conseguiram apenas saltar pelo terreno.



Minutos depois, irritadas pela impossibilidade do vôo, as aves arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar. Então o velho disse:

- Jamais esqueçam o que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se como também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados.



Libere a pessoa que você ama para que ela possa voar com as próprias asas.



Essa é uma verdade no casamento e também nas relações familiares, de amizade e profissionais. Respeite o direito das pessoas de voar rumo ao sonho delas. A lição principal é saber que somente livres as pessoas são capazes de amar.


publicado por psylva às 21:31
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