Sábado, 6 de Agosto de 2005
Winners never cheat’
Por:


Jorge A. Vasconcellos e Sá



É o livro mais recente de J. Huntsman (presidente da mundialmente conhecida empresa química do mesmo nome).

As duas teses do livro são simples. Primeiro: ganhar fazendo batota não é ganhar. Só ganha quem cumpre as regras: não enganar, cumprir a palavra, respeitar os outros (empregados, consumidores e concorrentes) e não abusar do poder de mercado.

Sem isto é como fazer batota num jogo de futebol: a vitória nada vale, não tem significado. Ganhámos um-zero? Mas o golo foi com a mão... o árbitro estava do nosso lado... como é que isso prova que somos melhores? E se o jogo for outro? Com outras “regras”, não feitas por nós? Mais uma razão para não o jogarmos...

Segunda tese: se as universidades transmitem conhecimentos e ensinam a pensar, a vitória, essa depende muito de outras três vertentes: o carácter; a coragem; e o temperamento.

Um gestor tem poder. Sem carácter, usa-o (no mínimo) mal e (por vezes) para o mal. É um péssimo exemplo. Desmotiva e destrói (moral e psicologicamente) os seus colaboradores. Donde: poder sem carácter é um travesti do que deve ser a gestão.

Segue-se a coragem, a qual é a primeira das qualidades, porque sem ela nenhuma das outras se materializa: a inteligência, os conhecimentos, etc., não passam da teoria à prática. Por isso a coragem está subjacente a todas as outras qualidades e é o garante de que elas aconteçam.

Por fim o temperamento, donde emanam qualidades como a empatia, o bom senso e a humildade. Por oposição à arrogância e egocentrismo, as quais por si (tenha ou não o gestor inteligência e conhecimentos) levam ao fracasso: crescimento demasiado rápido; aquisições a preços excessivos; remunerações e fringe benefits desproporcionais à remuneração dos empregados e accionistas criando mal estar; promoção de monopólios, levando à intervenção de entidades externas.

Felizmente que mais tarde ou mais cedo, a vaidade colhe o que semeou. Porque “pode-se enganar todos durante algum tempo; pode-se mesmo enganar alguns durante todo o tempo; mas o que nunca se poderá nunca é: enganar todos durante todo o tempo” (A. Lincoln).

Contudo, infelizmente, a humildade é difícil de encontrar entre os gestores.

É conhecida a história do gestor que lê um livro ao lado da sua mulher que cose. De repente ela pica-se e diz: “meu Deus”. O gestor, pousa o livro, tira os óculos e diz à mulher: “filha, quantas vezes é preciso dizer-te, que na nossa casa, podes tratar-me pelo meu primeiro nome: Joaquim...”
Carácter. Coragem. Humildade. Tudo isto faz do livro de J. Huntsman, que tem o subtítulo: “valores do dia a dia que aprendemos quando crianças mas podemos ter esquecido”, uma excelente obra de um homem, que não só derrotou o cancro, como também fez da sua empresa um líder e um exemplo. Porque… ‘winners never cheat’.





publicado por psylva às 21:29
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O espectro liberal



O chamado “modelo social” não tem sido muito eficaz para poupar os europeus a crises e desigualdades.

O referendo francês sobre a chamada Constituição Europeia revelou um facto curioso sobre os líderes políticos em França. Em desacordo acerca da Constituição, mostraram-se quase todos de acordo na rejeição do “liberalismo”. Quem defendeu a Constituição, fê-lo porque lhe pareceu uma muralha de aço contra o liberalismo, e quem a atacou, porque, ao contrário, lhe pareceu uma porta aberta. Em Portugal, os congressos e convenções partidários dos últimos dois meses deixaram transparecer a mesma comunhão espiritual. Do CDS ao Bloco de Esquerda, nada mais se fez do que gritar e espumar contra os “liberais”.

Donde vem esta unanimidade anti-liberal? A maioria dos líderes europeus admite, actualmente, que a chamada “economia de mercado” é o único mecanismo para criar riqueza. Argumenta, porém, que deve ser controlada pelo poder político. Seria o meio de evitar que os indivíduos gerassem irresponsavelmente, através da sua acção livre nos mercados, as desigualdades sociais e crises económicas que poderiam pôr em causa a democracia. Ao rejeitar o liberalismo, os líderes europeus estariam a defender a democracia contra a inconsciência social e política que, segundo parece, fatalmente afecta os cidadãos quando no papel de empresários, investidores ou consumidores. A questão do liberalismo seria assim a questão da democracia. O que é verdade, mas não pelas razões que os líderes políticos europeus invocam.

No século XIX, os antepassados dos actuais líderes políticos usaram a democracia para destruir as monarquias na Europa. Obtiveram o direito de governar os Estados, não como uma aristocracia, mas em nome do direito de todos os indivíduos ao auto-governo. Isso criou-lhes o problema de saber o que fazer com aquela parte da população – a maioria – que não era nem tão instruída nem tão afortunda como eles. Temeram que essa população aproveitasse os direitos políticos para provocar um regresso eleitoral ao passado clerical e dinástico, ou então para se lançar numa anarquia expropriadora. Convenceram-se de que não podiam esperar que o povo, entregue a si próprio, se transformasse num conveniente reflexo deles próprios, ilustres cavalheiros da classe média. O Estado Social desenvolveu-se para criar um povo domesticado. O poder político adquiriu assim o direito de decidir sobre a vida dos indivíduos, da educação aos investimentos. E com isto, os líderes políticos europeus puderam conceber a democracia de um modo mais agradável. Em vez de afirmarem a sua liderança através de debates envolvendo uma população de cidadãos autónomos e diferentes, puderam propor-se governar como quem pastoreia uma massa mais ou menos homogénea de clientes do Estado. Muitos funcionários públicos, muitos subsidiados, muitos pensionistas, e muitos protegidos formaram eleitorados vulneráveis às manipulações mais grosseiras. O chamado “modelo social” não tem sido muito eficaz para poupar os europeus a crises e desigualdades. Mas tem permitido, em geral, aos actuais líderes políticos governar democracias sem invejar demasiado o conforto autocrático com que outros, no passado, governaram monarquias.

Há liberais de várias espécies. Une-os a ideia de que as decisões fundamentais sobre o modo de vida de cada um devem ser tomadas pelos indivíduos, e não pelo poder político, como se estivéssemos em tempo de guerra. E é aqui que nasce a raiva dos actuais líderes políticos europeus ao liberalismo. Está em causa o poder deles, tal como o exercem agora, burocraticamente. Porque poderiam exercê-lo de outra maneira, por exemplo, democraticamente. O medo ao liberalismo é o medo à democracia.



Quanto maior é o imposto, menor é a matéria colectável. É uma regra empírica que os fiscalistas conhecem. É preciso concentrar os esforços deste plano para o reequilíbrio orçamental não no crescimento da receita, mas na redução dos custos.
O ataque de Jorge Coelho à fiscalidade do mundo financeiro - banca e seguros - faz todo o sentido do ponto de vista político. Não se pode implementar um violento pacote de redução dos benefícios sociais e de aumento fiscal sem uma componente de moralização sobre os grupos económicos e sociais que mais têm. E a necessidade de estancar a despesa pública cumpre-se melhor quando se motivam os funcionários públicos e os contribuintes com uma política série de redistribuição da riqueza. Portugal continua a ser um dos países da OCDE em que é maior a disparidade entre quem mais e menos tem. Isto tem que ver com múltiplos factores, entre os quais a capacidade instalada para fugir ao fisco - que é proporcional aos rendimentos auferidos ou ao património herdado / construído - e a incapacidade nacional de empreender - contam-se pelos dedos de uma mão os grandes grupos económicos que surgiram depois do 25 de Abril.

Mas a ideia de Jorge Coelho sobre a fiscalidade financeira, entendida no seu detalhe, tem outra leitura - os socialistas querem acabar com os buracos nos códigos fiscais que permitem à banca reduzirem os seus impostos através daqueles mecanismos que se chamam de «eficiência fiscal». Coisas perfeitamente legais, mas que acabam por contornar o regime de contribuição das entidades colectivas e o imposto sobre o valor acrescentado. Trata-se, no caso, de apertar as malhas do regime fiscal sobre as instituições financeiras, reduzindo-lhes a margem de manobra nestas questões. Tem lógica. Os impostos quando nascem devem ser para todos.

Mas a questão fiscal não pode ser, hoje, encarada em autarcia. Da mesma forma que o País perdeu o seu instrumento monetário, o instrumento fiscal ficou abananado pela integração europeia. Se o Governo decidir mexer brutalmente na forma como taxa fiscalmente as actividades bancária e seguradora, a reacção será imediata e inexorável - os bancos e seguradoras mudarão as suas sedes fiscais para países com melhores condições fiscais e continuarão a operar em Portugal através do regime de sucursais locais. Da mesma forma, a subida do IVA para 21% será contornada por muitas empresas que, espertas, poderão cair na tentação de abrir sedes em Espanha, onde o IVA está nos 16%, e a partir daí vender os seus produtos para o mercado português. E mesmo as empresas que se sintam ofendidas pelo imposto sobre os resultados ou pela fiscalidade sobre as «holdings» vão, paulatinamente, colocando as suas sedes em territórios com taxas mais favoráveis. É preciso ter presente que a fiscalidade é hoje uma peça essencial na competitividade económica, que as empresas são móveis e que se andam sempre em direcção aos pontos em que conseguem melhores condições para atingir os seus objectivos: o lucro.

É também por isto que uma estratégia de consolidação orçamental que seja focada na maximização das receitas, mais por via do aumento das taxas do que pelo combate à fuga fiscal, está condenada ao insucesso. Para além de mais impostos serem sempre um travão ao crescimento económico - porque reduzem o consumo e o investimento privado - no limite até originam uma fuga de empresas industriais e de serviços para países em que as condições fiscais são mais atraentes. E o plano deste Governo para combater a questão orçamental não está, por natureza, condenado ao sucesso. As contas que o ministro das Finanças tem apresentado - e que a generalidade dos comentadores têm tomado por boas - para os próximos anos, partem de pressupostos endógenos como a actividade económica global, o preço do petróleo, a capacidade de Portugal continuar a atrair as empresas nacionais e multinacionais que cá trabalham, etc. Mas e se algum ou alguns destes pressupostos correrem mal? Qual é o plano de contingência? Pois não deve haver...

Tudo isto ponderado, permite imaginar que nem tudo vai correr bem pelo lado da arrecadação fiscal. Quanto maior é o imposto, menor é a matéria colectável. E uma regra empírica que os fiscalistas conhecem. É preciso concentrar os esforços deste plano para o reequilíbrio orçamental não no crescimento da receita, mas na capacidade de reduzir a despesa e substituir o investimento público não produtivo por investimento público multiplicador. Mas como isso é incomparavelmente mais difícil do que carregar nas taxas do IVA e afins, porque só se consegue com micro-decisões integradas num plano global e coerente de reforma do Estado, aguardamos com expectativa as medidas estruturais para reconstruir a administração pública e eliminar os custos monstruosos que lhe estão associados. É um tema sobre o qual convido Jorge Coelho a também reflectir e fazer exigências. Se calhar não é tão eficaz do ponto de vista de mobilização popular no curto-prazo, mas é essencial para quem está efectivamente preocupado com o futuro destas coisas todas


publicado por psylva às 21:28
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Como os japoneses sobrevivem aos chineses?
Por:


Jorge A. Vasconcellos e Sá



Como sobrevive a indústria japonesa - com custos salariais vinte vezes mais altos - ao ataque chinês? Que lições retirar para o ocidente?

A resposta tem seis vertentes: 1) especialização na qualidade intrínseca; 2) produtos de custo, mas onde os salários pesam pouco; 3) clusters; 4) conceito de “fábrica mãe”; 5) rapidez de entrega; e 6) brand equity (qualidade percepcionada/imagem). (E deixando de fora os serviços, naturalmente).

Comecemos pela qualidade intrínseca: há aqui duas situações distintas: produção de pequenas séries; e produção em massa. Produção em pequenas séries: Takenaka Mnft. Baseada em Osaka, faz os maiores parafusos do mundo (com + de 4 metros) para centrais nucleares. A Takenaka também domina outro nicho: o dos parafusos anti-corrosivos, que se vendem a um preço dez vezes superior ao das porcas vulgares.

Depois, na produção em massa também há lugar para qualidade, quando é absolutamente indispensável zero defeitos. Aqui torna-se primordial um sistema de controlo de qualidade como uma actividade distinta da produção. É o caso de muitos componentes eléctricos que apesar de terem preços baixos, basta um único defeituoso para que um equipamento cujo preço final é de milhares de euros, não funcione adequadamente.

Há depois os produtos que se vendem com base no preço mas onde o peso salarial é diminuto. Não mais de 5 ou 10%. E assim os ganhos de outsourcing para o estrangeiro são mais que eliminados pelos custos de transporte, coordenação e vários tipos de risco.

Outra razão para a permanência de fábricas no Japão são os clusters entre fábricas: um network entre a fábrica cliente e várias especialistas que oferecem componentes e serviços. A proximidade permite um intercâmbio permanente de ideias, propiciando pequenas e contínuas melhorias no produto final.

Distinto, é o conceito de “fábricas-mãe” que situadas no Japão fazem o 1) R&D, 2) design e 3) operações onde a qualidade é fundamental ou 4) o salário não pesa no custo; e passam para as “fábricas-filhas” as operações predominantemente de custo e salários. A localização prioritária destas? A China, naturalmente.

Finalmente há toda a parte da indústria ligada a brand equity. Ao marketing da indústria (embora a fábrica seja deslocalizada) e todos os produtos como vários tipos de semi-condutores, onde a rapidez de entrega é critica: entrega-se hoje para ontem.

Estas seis razões explicam porque o Japão - apesar de outsourcing para a China, Vietname, etc. a produção de bens de 1) preço e 2) com grande peso salarial, como os têxteis, - tem uma indústria ainda com grande peso: 31% do emprego e 22% do PIB. Contra, respectivamente: 25% e 19% na Grã-Bretanha; e 23% e 18% nos EUA.

Indicando que a competitividade resulta, não de defender o indefensável, mas de apostar onde se tem vantagem competitiva. Isto é: “defender o ontem é um risco maior que construir o amanh㔠(P. Drucker).



publicado por psylva às 21:27
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manifesto: O investimento público não faz milagres


"Parece ter emergido uma corrente de pensamento que acredita que a superação da crise pode estar no investimento em obras públicas, sobretudo se envolvendo grandiosos projectos convenientemente apelidados de estruturantes." "Porque a situação é séria e o País não pode, sem grandes custos, embarcar em mais experiências fantasistas, importa dizer (...) quea sua eventual concretização poderá ser desastrosa para o País."






Tem sido por demais reconhecido que Portugal vive uma profunda crise. Face à sua capacidade de gerar riqueza, a economia tem um excesso de despesa, quer ao nível das finanças públicas, quer ao nível da sociedade em geral. Tais excessos estão traduzidos, nomeadamente, nos persistentes défices das contas do Estado e das contas externas do País. Por outro lado, é notória a perda de capacidade competitiva da economia portuguesa, tal como dão conta o défice externo, o crescimento medíocre dos últimos cinco anos (e perspectivas para os próximos) e o crescente desemprego.

Este preocupante cenário requer uma urgente e dedicada concentração de esforços visando apropriadas medidas de contenção orçamental (com uma estrita selectividade das despesas públicas), de incentivo económico a favor dos sectores produtores de bens transaccionáveis, de promoção da eficiência económica (nomeadamente através da redução das ineficiências geradas pelo próprio Estado) e de uma moderação da despesa colectiva. Mas face a tal cenário parece ter emergido uma corrente de pensamento que acredita que a superação da crise pode estar no investimento em obras públicas, sobretudo se envolvendo grandiosos projectos convenientemente apelidados de estruturantes.

Porque a situação é séria e o País não pode, sem pesados custos, embarcar em mais experiências fantasistas, importa dizer, de forma muito clara, que essa ideia é errada e a sua eventual concretização poderá ser desastrosa para o País. O investimento público pode ter virtudes e pode ser um importante elemento estimulador do desenvolvimento. Mas não é, nas presentes circunstâncias da economia e das finanças públicas, o caso do investimento físico, sobretudo se dirigido a obras cujo mérito não tenha sequer sido devidamente demonstrado por estudos publicamente divulgados, credíveis e contraditáveis.

Primeiro, porque, numa situação de excesso de despesa, mais investimento em obras públicas irá favorecer sobretudo as economias de onde importamos, sem efeito sensível na capacidade produtiva da economia portuguesa, agravando o défice externo (pois só há financiamento parcial de fundos comunitários). Segundo, porque o tipo de emprego mobilizado pela construção pouco efeito terá na absorção do desemprego fabril gerado pela perda de competitividade da nossa indústria e mobilizará sobretudo a imigração. Terceiro, porque tais investimentos irão agravar ainda mais o desequilíbrio das contas públicas, seja pela despesa directa, seja pelos custos de exploração futura, seja, como aconteceu nas SCUTS, pelas inevitáveis garantias para assegurar a mobilização do sector privado. Pelo menos! Por fim, porque os portugueses não poderão compreender que lhes estejam a ser pedidos sacrifícios com impacto no seu nível de vida, quando o Estado se dispõe a gastar dinheiro em projectos sem comprovada rendibilidade económica e social.

Porque o momento é grave; porque continuar com tergiversações à volta do essencial (onde se inclui a reforma do próprio Estado), apenas ajudará o País a afundar-se numa senda de definhamento; e porque é altura de a própria sociedade civil se deixar dos brandos costumes do conformismo e dizer o que tem que ser dito; os signatários entendem dar este seu contributo à reflexão da sociedade e dos poderes políticos.



publicado por psylva às 21:26
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O monopólio da humanidade


Por:
Rui Ramos



Seria bom que os beatos do Estado Social renunciassem ao costume de olhar de cima para quem não pensa como eles.

Descobriram-no, finalmente. Ainda não sabemos bem como foi. Em Blade Runner, Harrison Ford utilizava um questionário complicado. Mas as técnicas de detecção devem ter mudado nos últimos vinte anos. Seja como fôr, a notícia parece boa: o ser não-humano que se havia infiltrado no nosso governo foi identificado, e posto na rua. Na quinta-feira, o Dr. Mesquita Machado, o autarca-mór do PS, explicou: o suspeito era “tecnicamente competente”, mas “falhava na parte humana”, “não tinha sensibilidade para o problema das pessoas”. Houve quem, ao princípio, se tivesse deixado iludir. Não foi o caso do arguto autarca. O Prof. Campos e Cunha nunca o enganou.

Eis como os cruzados do Estado Social gostam de pôr as coisas. A política, para eles, é um confronto entre humanos e não-humanos. Os humanos são eles, os não-humanos são os outros, os descrentes e infiéis do Estado Social – como seria o caso, em segredo, do ex-ministro. Não quer isto dizer que os humanos coloquem o Estado Social acima da crítica. No debate do orçamento, o Eng. Sócrates admitiu “desperdícios”, e denunciou até os “grupos de interesse” que exploram o sistema. Haverá até advogados do modelo dispostos a reconhecer-lhe ineficiências inultrapassáveis. Mas nem por isso abdicam do dogma de que é moralmente superior. Só o Estado Social impediria os fracos de serem vítimas dos fortes, e todos nós de vivermos à maneira da selva, em competição desesperada. No Estado Social, os egoísmos e forças cegas estariam submetidas à justiça e clarividência da humanidade. Com o Estado Social, quando fôrmos pobres, como simpaticamente nos augura o comissário Almunia, seremos ainda humanos.

Não desejo, como é natural, incomodar consciências tão satisfeitas. Mas duvido que os estudos sobre o nosso Estado Social justifiquem tanta euforia moral. Leiam, por exemplo, o insuspeito Maurizio Ferrera. As suas observações sobre o funcionamento do sistema em Portugal são edificantes. O mercado gera desigualdades? O Estado Social também. O mercado favorece os mais fortes? O Estado Social também. No Estado Social, é o poder político que, em última instância, decide da alocação dos recursos. Isso não elimina a competição entre grupos e indivíduos. Apenas a desloca de um domínio para outro: do domínio da inovação e da produtividade para o domínio da política, do lóbi, e da acção sindical. O sistema favorece quem tem meios para pressionar o poder, intrigar nos bastidores, e manifestar-se nas ruas. E não são, como é óbvio, os verdadeiramente “mais desfavorecidos” quem tem esses meios.

Onde está, portanto, a superioridade moral? Seria bom que os beatos do Estado Social renunciassem a esse deselegante costume de olhar de cima para quem não pensa como eles. O debate poderia, assim, prosseguir a níveis mais civilizados e interessantes. Perceberíamos que estão em confronto dois modelos sociais, um que assenta na decisão centralizada do poder político, e outro que deixa as decisões aos indivíduos. As vantagens e desvantagens de cada um dos modelos para gerar e fazer circular riqueza podem ser discutidas pelos técnicos. Fundamentalmente, porém, há aqui um choque de duas visões: uma que valoriza a igualdade, administrada pelo poder político, e outra que valoriza a busca da excelência, deixada à iniciativa individual. Existem argumentos muito convincentes a favor de uma e outra visão. Também existem esforços menos convincentes para combinar as duas. Mas não vale a pena partir do princípio de que as virtudes estão só de um dos lados. Ninguém tem o monopólio da humanidade.



publicado por psylva às 21:25
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Candidatos presidenciais e função presidencial

Quando soube que Mário Soares se preparava para ser candidato presidencial, a notícia surpreendeu-me. Não devia. Várias vezes perguntado, durante o período de activismo anti-Bush mais agudo de Soares, sobre se "será que ele quer mesmo ser Presidente outra vez?", eu respondia qualquer coisa como isto: "Se achar que pode ter um papel decisivo, como seja tirar agora a GNR do Iraque, ele concorre de certeza." Agora vejo que me enganei, não na possibilidade mas sim no "decisivo". Ou seja, Soares concorre não porque haja qualquer coisa "decisiva" que justifique a sua candidatura, mas para servir uma vontade de poder e pretensões intervencionistas, que deviam incomodar em primeiro lugar Sócrates e o seu Governo.
Soares concorre porque não lhe passa pela cabeça qualquer partilha do poder socialista. Ele é um homem de partido, com uma cultura jacobina do poder, quer no estado, quer no partido, e pouco propício a partilhá-la com quem acha que não é da família ou da tribo. Nesta pulsão, reconhece-se o mesmo Soares que empurrou o grupo socialista do Parlamento Europeu para uma estratégia do "tudo ou nada", e que o levou ao "nada". Depois, quando perdeu, chamou com despeito "dona de casa" à sua concorrente, que ainda por cima era uma mulher. O mesmo tipo de atitude existe para um Cavaco que ele achará sempre que é um parvenu na "sua" democracia. Para ele seria uma quase afronta que Cavaco fosse Presidente, no lugar que foi o seu, e "mandasse" no PS. Irritava-o o que achava ser uma complacência dos socialistas perante a inevitabilidade de Cavaco. Convenceu-se de que só ele o pode impedir, e não desdenha mostrar essa capacidade salvífica combatendo para o evitar, o que aliás é mérito seu, porque combativo será sempre.
Mas, se este factor, quase de repulsa por poder ter um estranho na "sua" casa, o motiva, ainda mais o motiva poder pôr na ordem o PS e encaminhá-lo para uma esquerda mais radical, "social" no sentido anticapitalista, antiglobalizadora, antiamericana e gaullista-europeísta extremada, que é o núcleo duro do seu pensamento actual.
Ironicamente, para quem meteu o socialismo na "gaveta", o seu pensamento económico, ou melhor, a sua ideologia económica, é hoje claramente anticapitalista e o apoio que dá aos movimentos antiglobalização, simbolizados no fórum de Porto Alegre, e que representam hoje o "socialismo terceiro-mundista" que combateu no passado, tem poucas nuances. Soares é hostil às políticas de liberalização da Organização Mundial do Comércio (OMC), combateria aquilo a que chama "capitalismo selvagem" e a "dominação" do globo pelo "pensamento único", pelo "neoliberalismo", ou seja, a mundialização da economia de mercado que o fim do "socialismo real" permitiu.
Soares apoiaria um eixo Paris-Berlim-Moscovo e deseja uma Europa federada, uns Estados Unidos da Europa mesmo que sem este nome, uma Europa que se dotasse dos meios de defesa e intervenção que lhe dessem capacidade para se medir com a superpotência americana. O seu ideal seria uma Europa armada que substituiria o lugar da URSS como a outra superpotência e com uma política externa essencialmente de contenção antiamericana. Faria tudo para combater o "império", ou seja os EUA, e para o isolar e condenar sob todas as formas nas instituições internacionais, apoiaria a retirada imediata ou quase das tropas da coligação e da NATO do Afeganistão e do Iraque. Por aí adiante.
Ora, quem tem este programa em Portugal é o Bloco de Esquerda e não o PS e, se isso não soa o alarme no Governo, é porque perderam qualquer capacidade analítica e não têm ouvido e lido Mário Soares nos últimos anos. Nestes anos, Soares não tem feito outra coisa que não seja tentar influenciar o PS com todos os meios ao seu alcance. Apoiou a candidatura de João Soares, elogiou Alegre, atacou Guterres, Gama e Sócrates, manifestou múltiplas vezes o seu descontentamento com todas as políticas seguidas que lhe pareciam ir noutro sentido diferente do seu. Os elogios ao BE não foram circunstanciais, mas substantivos. Não é concebível, a não ser por fraqueza ou por má-fé, a convicção da derrota de Soares, que Sócrates não tema um Soares intervencionista, como o será mais que nunca, na presidência.
Contrariamente ao que se ouve por aí, penso que a candidatura de Mário Soares é uma boa notícia para Cavaco Silva, saiba este e os seus perceberem que a dicotomia que a candidatura do PS suscita é a da estabilidade/instabilidade. Cavaco Silva pode ser, de forma bem mais credível, o referencial de estabilidade para a presidência que Soares não será. Para o ser não precisa de abdicar nem de um átomo do seu pensamento sobre a função presidencial, formado exactamente em resposta ao intervencionismo de Soares. Quando Soares, no seu segundo mandato, se comportou como Eanes, fazendo tudo para derrubar o Governo e para criar um ambiente de usura e hostilidade, Cavaco reagiu falando de "forças de bloqueio". A expressão tinha ambiguidades, mas a verdade é que tudo aquilo que na altura o PSD apontou como "forças de bloqueio" veio mais tarde a ser entendido por todos, a começar pelo PS e pelos seus governos, como sendo de facto "forças de bloqueio", embora nunca as nomeando como tal.
Cavaco Silva, sendo o primeiro a governar Portugal com um governo de maioria, e pelo seu perfil executivo, desenvolveu uma compreensão dos problemas de governabilidade de que ele foi sempre um defensor activo, contra as contínuas perturbações que Soares instigava todos os dias. A sua frase, às vezes incompreendida e mal interpretada, de que a ganhar as eleições preferia que um partido qualquer, o PS inclusive, o fizesse com maioria absoluta, vai nesse sentido. Ele sempre defendeu governos de maioria parlamentar, que cumprissem os tempos plenos do seu mandato e que pudessem, no respeito da lei e das instituições equilibradoras, cumprir os seus programas eleitorais. Num momento de crise económica e social como o que atravessamos, será sempre avesso a introduzir factores de perturbação, mesmo que não concorde com as políticas do Governo socialista. Ele sabe, melhor do que ninguém e certamente melhor do que Soares, que nesse teste já chumbou, que na presidência não se governa.
Duvido que o seu pensamento quanto ao exercício das funções presidenciais seja diferente destas suas posições no passado, e que as suas posturas mais recentes só o confirmam. Se tivermos Soares versus Cavaco, será este o dilema central das eleições.


publicado por psylva às 21:24
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A armadilha do terrorismo
A Al-Qaeda pretende destruir a nossa forma de vida e irá consegui-lo, pelo menos provisoriamente.

Dez dias depois dos atentados de Londres, a Al-Qaeda, ou um grupo relacionado com ela, voltou a emitir um “ultimato” aos países europeus, dando um mês para eles saírem do Iraque. Se tal não acontecer, avisam, sofrerão uma campanha de ataques terroristas como nunca viram. É claro que, depois de Nova Iorque, Madrid, Bali e Londres, qualquer ameaça deste tipo deve ser levada a sério e, como reconheceu a polícia inglesa, é praticamente impossível evitar novos atentados.

Esta terrível “inevitabilidade do terror”, e sua verificação periódica nas cidades ocidentais, vai fatalmente obrigar o nosso mundo a mudar. Para já, é visível o esforço tremendo que os poderes públicos fazem para não deixar o verniz estalar. Bush visitou mesquitas depois do 11 de Setembro, Blair convocou os líderes islâmicos para uma conferência, e ambos pediram ajuda no combate ao terrorismo. Por agora, parece chegar. No entanto, se a vaga de atentados continuar, o “verniz civilizacional” que caracteriza o mundo Ocidental pode quebrar.

É óbvio que o Ocidente gosta de ter de si próprio uma imagem de tolerância e liberdade, de superioridade moral sobre outros locais do mundo. No entanto, esse estado é necessariamente dependente das circunstâncias do mundo. Desde a 2ª guerra mundial, foi possível ao Ocidente, em especial à Europa, viver nesse mundo de paz e liberdade. Mas, convém não nos esquecermos de que se passou imediatamente antes. Entre 1939 e 1945, grandes nações do mundo Ocidental atiraram-se às goelas umas das outras com uma ferocidade nunca vista na história da Humanidade. O nazismo, o estalinismo, os campos de comcentração, as câmaras de gáz, as bombas atómicas, os terríveis bombardeamentos de Londres, Berlim ou Dresden, os horríveis combates de Estalinegrado, não foram entre beduínos, masai, ou mujaedens. Foram entre ocidentais, alemães, ingleses, americanos, ou orientais, como japoneses ou russos. Na época, como hoje, estávamos a falar dos povos mais civilizados, educados e ricos do mundo. A barbárie deu-se com eles.

60 anos depois, é importante perceber que, se provocados em demasia pelos terroristas islâmicos, os povos europeus podem voltar a revelar a sua propensão bárbara. Se as campanhas terroristas começarem a matar com grande frequência pessoas nos transportes de Varsóvia, Copenhaga, Roma, Paris ou Lisboa, as raivas começarão a crescer e serão difíceis de suportar.

Logo a seguir a Pearl Harbour, os americanos decidiram que as comunidades japoneses da Califórnia teriam de ser colocadas em campos de “controle”, onde aliás passaram todo o tempo da guerra. A expulsão dos imãs mais radicais, que os ingleses estão a considerar, é um primeiro passo, mas se as coisas se complicarem muito, outros se seguirão. Pouco a pouco, os ocidentais vão tornar-se mais “israelitas”, e vão começar a aparecer vozes a defender os “raides aéreos” de retaliação, o fecho das fronteiras, ou até as políticas de assassinatos selectivos. Nenhuma sociedade civil democrática aguenta durante muito tempo bombistas suicidas a explodirem-se nos autocarros ou nos metros, a matarem-nos os filhos, os familiares ou os amigos.

Infelizmente para a Europa, que sempre criticou Israel, as campanhas terroristas que julgávamos só ser possíveis em Tel-Aviv ou Jerusalém, já estão em King´s Cross, e em breve serão trazidas para outros locais. A declaração de guerra da Al-Qaeda pretende destruir a nossa forma de vida e, gostemos ou não, irá consegui-lo, pelo menos provisoriamente. Quanto mais dramáticos e mortais forem os ataques, mais nós teremos de mudar, não só aumentando a repressão policial, mas o que é bem pior, impondo repressões civis. Em certos casos, e infelizmente para muitos muçulmanos pacíficos, serão eles as principais vítimas. Vão ser estigmatizados, encurralados, as suas vidas vão ser analisadas à lupa, os seus direitos restringidos, e muitos poderão ser expulsos. Que ninguém duvide da terrível raiva que se esconde sob a superfície tolerante da Europa. Esperemos que seja possível controlá-la.



publicado por psylva às 21:24
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Do bom ou mau governo


Que sentido faz querer construir o TGV e, ao mesmo tempo, privilegiar os transportadores rodoviários?

Ontem, os camionistas saíram à estrada. Para protestarem contra o aumento do preço dos combustíveis.
Ontem, ao fim do dia, o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, anunciou aquilo que designou como um pacote de medidas de "discriminação positiva": os transportes públicos de mercadorias vão beneficiar de algumas isenções fiscais.
Ontem, foi revelado que, se se mantiverem os actuais modelos de desenvolvimento económico, as reservas mundiais de petróleo estarão esgotadas lá para 2050.
Ontem, um conjunto de economistas divulgou um manifesto onde reforçaram as dúvidas sobre a utilidade de alguns grandes investimentos em obras públicas, nomeadamente os que o mesmo ministro Mário Lino defendeu serem indispensáveis para Portugal não ficar para trás.
O que é que estas notícias soltas nos mostram? Que, para nossa desgraça, temos um ministro das Obras Públicas que raciocina como se ainda vivêssemos no século XX e não no século XXI. Se não meditemos nestes elementos:
em Portugal a maior parte das mercadorias é transportada por estrada, um método de transporte que exige maior dispêndio de energia do que o transporte ferroviário. Em Portugal, a principal linha ferroviária de ligação a Espanha, a da Beira Alta, foi objecto de volumosos investimentos de modernização e permite hoje boas velocidades de circulação, melhores que muitas linhas estruturantes em países onde se apostou no transporte ferroviário - contudo, apenas 2,9 por cento das mercadorias que entram em Portugal utilizam aquela infra-estrutura.
Em qualquer parte do mundo, mas sobretudo na Europa, pratica-se a saudável política de deixar repercutir no consumidor final a flutuação dos preços dos combustíveis e, sobretudo, não se subsidia um meio de transporte que é pouco eficaz do ponto de vista energético, quando o petróleo está ao preço que está e, para mais, se começa a esgotar.
Em todos os países onde existe uma saudável autoridade do Estado, os governos não cedem aos primeiros contestatários, e logo no dia em que estes perturbam milhares de concidadãos, dificultando o trânsito nas estradas, dando-lhes aquilo que a racionalidade económica e a equidade no tratamento de todos os contribuintes recomenda.
Em países evoluídos mas periféricos, como a Irlanda ou a Finlândia, tal condição periférica não é invocada como argumento para grandes obras públicas de utilidade duvidosa - e tal não significa que o Estado invista menos, mas que investe muito melhor, como as taxas de crescimento dessas duas nações mostram.
Não nos iludamos: o bom governo não é que gasta muito em obras públicas, é o aplica parcimoniosamente e com critério o dinheiro dos que pagam impostos. O bom governo não é o que confunde a necessidade de promover o transporte público com a cedência aos interesses dos transportadores rodoviários. O bom governo não é o que promete infra-estruturas ferroviárias de luxo quando o país possui linhas férreas de qualidade subutilizadas. O bom governo não é o que raciocina com base nos critérios do passado, mas olhando para o que o futuro nos reserva, percebendo, por exemplo, que não se deve subsidiar actividades que consomem combustíveis derivados do petróleo, quando este está caro e deverá ser cada vez mais raro, e logo mais caro, no futuro.
O problema é que bom governo é coisa que parece não rimar nem com Portugal, nem com os hábitos portugueses. Salve-se pois quem conseguir bloquear mais estradas.



publicado por psylva às 21:23
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Orçamento, sanguessugas e gafanhotos
Por: joão

césar

das neves

Portugal tem um problema claro. Há dificuldades e obstáculos, mas apenas um grande problema profundo e estrutural muitos trabalhadores a receber muito mais do que contribuem para o País.

Esta afirmação, aparentemente polémica, é afinal quase consensual. Todos sabemos que há trabalhadores a receber mais do que valem. Aliás os discursos políticos e as notícias do jornal dizem-no diariamente, só que nunca desta maneira directa. Todos sabemos que há muitos parasitas; só variamos na sua identidade. Uns falam de reformas milionárias ou salários principescos. Outros apontam carros em demasia ou luxos nas viagens. Outros ainda culpam a corrupção e a evasão fiscal. Mas todos sabem que há muita gente a roubar o Estado. E todos sabem que isso é hoje muito grave.

Porque não se esgotam aqui os lugares-comuns. Todos sabem que esse roubo se tornou a causa do maior problema do País. Não é difícil estender o consenso quanto se fala do drama central das contas públicas e do bloqueio que ele cria na actividade económica. Esses abusos salariais são, portanto, a razão central da actual crise nacional. Os jornais obedientemente atarefam-se a desenterrar os respectivos escândalos.

Mas será que a estagnação portuguesa se deve, afinal, apenas a uma infestação de parasitas? Está o organismo nacional a sofrer de um simples ataque de sanguessugas? Bem, a questão é essa, mas não da forma de que se fala. Nós temos, não tanto parasitas, mas gafanhotos.

É preciso dizer que não existem dúvidas quanto aos privilégios escandalosos. Essas despesas são elevadas e imorais. Mas têm dois óbices importantes não são relevantes e desviam a atenção do essencial. Porque, por estranho que pareça, a maior parte das opiniões sobre o buraco orçamental não se baseia na actividade mais directa e relevante: fazer contas. O dinheiro envolvido nesses abusos é microscópico perante a dimensão da cratera. Os casos que têm monopolizado a opinião pública são simbólicos, mas pouco mais.

O real problema nacional é, de facto, de trabalhadores que recebem mais do que produzem. Mas são outros. As pessoas esquecem que a única coisa que pode devastar uma selva não é a marcha dos elefantes, mas a fome das formigas "marabunta"; a única coisa que pode arruinar a planície não são manadas de herbívoros, mas pragas de gafanhotos. O nosso problema real situa-se em centenas de milhar de funcionários que, ganhando muito menos que os privilegiados, esmagam o Orçamento pelo número. O nosso problema é, sobretudo, que cada um desses, recebendo pouco, recebe mais do que produz para o País.

Não sei se repararam, mas os recentes debates sobre a função pública nunca falam de produção. Invocam dinheiro mal gasto, direitos adquiridos ou níveis de países ricos. Em momento nenhum aparece a questão da relação entre esse salário (pago com impostos) e o valor do seu trabalho para a sociedade.

O problema é bem visível ao comparar essa retórica com a lógica do sector privado. Aí os salários são determinados pelos custos da empresa e pela possibilidade de se manter competitiva. Só quem produz mais pode ganhar mais. A questão torna-se bem visível nos valores do crescimento real dos salários (vd. Banco de Portugal). Desde a entrada na UE, em 1986, o salário real por trabalhador de toda a economia aumentou em média 2,3% ao ano. Mas no sector empresarial esse crescimento foi apenas de 1,9%. Isso significa que o sector estatal cresceu muito acima das empresas. Se assumirmos que ele ocupa 15% da população activa, a média seriam uns astronómicos 4,7%. Isto é marabunta!

Tal não seria grave se esse sector contribuísse com algo comparável para o bem-estar nacional. Mas todos sabemos que, mesmo nas estimativas mais generosas, o valor da produtividade no Estado é muito inferior ao das empresas. Deste modo Portugal engordou nas últimas décadas um mecanismo que, em nome do fornecimento de valiosos serviços públicos, representa a devastação do corpo nacional. Os trópicos sabem que nada resiste a gafanhotos.



publicado por psylva às 21:22
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Por que empobrece Portugal?
«Hoje, quando alguém é convidado para o governo já diz à família que não será para quatro anos.»




O DRAMA português chama-se instabilidade. Confrontamo-nos com Espanha e a comparação é demolidora. Desde 1976 a 2005 os espanhóis tiveram quatro chefes de governo. Suarez, González, Aznar e Zapatero. Portugal teve quinze (Palma Carlos, Vasco Gonçalves, Pinheiro de Azevedo, Mário Soares, Nobre da Costa, Mota Pinto, Lourdes Pintasilgo, Francisco Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Mário Soares (de novo), Aníbal Cavaco Silva, António Guterres, José Manuel Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e José Sócrates).

Analisando as longevidades médias, Espanha com mais quinze chefes de governo chega até ao ano 2125. Portugal, para chegar a 2125, precisará de mais sessenta primeiros-ministros.

Outro indicador que investiguei evidencia a nossa tão frágil capacidade de nos autogovernarmos: a duração dos mandatos dos ministros das Finanças.

Vasco Vieira de Almeida foi o primeiro ministro das Finanças depois do 25 de Abril. Durou 63 dias. Silva Lopes seguiu-se por 337 dias. José Joaquim Fragoso ficou 177 e Salgado Zenha 308. Sucedeu-lhe Medina Carreira, que durou 556 dias (23 de Julho de 1976 a 30 de Janeiro de 1978). Depois, Vítor Constâncio, apenas 211 dias. E Jacinto Nunes 352. Veio Sousa Franco, em 1 de Agosto de 1979, ficando 155 dias. Entrou Cavaco Silva, em Janeiro de 1980, e manteve-se pouco mais de um ano, 372 dias. Depois, João Morais Leitão, 238 dias, seguido de João Salgueiro, 643 dias.



publicado por psylva às 21:21
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