Domingo, 11 de Setembro de 2005
choque da procura no próximo Inverno
«Caso haja este ano uma paralisação grave na Europa, Portugal ficará vulnerável.»
O ESCRITOR argentino Bioy Casares concebeu num dos seus romances um personagem que não pára de fazer mal a si próprio. Nos tempos de chumbo que vivemos, quando se acumulam as notícias de estagnação económica, de retracção do investimento, de diminuição das exportações, de perda de quotas de mercado, vemos quão nefasto é o facto de o país não ter um modelo de desenvolvimento estratégico, não ter lideranças esclarecidas e consistentes e ficar prisioneiro dos egoísmos corporativos. Face a tímidas medidas de mudança, dá um exemplo de que não quer mudar e hipoteca o futuro.

Na verdade, Portugal parece a personagem de Bioy Casares e não pára de fazer mal a si próprio. São muitos os que pensam na seita, na corporação, no partido; são poucos os que pensam no país e no seu futuro.

No domínio energético, o futuro pode reservar-nos uma surpresa capaz de penalizar ainda mais a economia. O balanço cerrado entre a oferta e a procura de petróleo pode neste Inverno entrar em desequilíbrio em favor da procura. Se isso acontecer, o preço subirá ainda mais e de forma rápida, colocando-nos no limiar de um choque petrolífero. O choque pode ser evitado com o arrefecimento da economia chinesa e americana ou a capacidade da OPEP elevar a sua produção no último trimestre de 2005. Ambas as hipóteses parecem pouco realistas à luz dos dados actuais. Talvez um aumento da produção dos países não-OPEP, ou uma súbita queda da procura, ou uma acumulação estável dos «stocks», possam ocorrer e evitar o choque, mas vai ser difícil. Para entendermos a complexidade da situação, há três perguntas que temos de fazer: por que é que os preços do petróleo se mantêm altos? Por que é que em 2004 não houve choque petrolífero? E o que aconteceu em 2005?

Os preços altos do petróleo devem-se ao crescimento da procura, sobretudo dos países emergentes, e à incapacidade de resposta do sistema petrolífero actual. Depois da crise asiática de 1998, quando o preço desceu abaixo dos 10 dólares por barril, a indústria atravessou uma fase de subinvestimento, que se agravou com o rebentar da bolha tecnológica em 2000 e com os ataques terroristas às torres gémeas em 2001. Ninguém previu o novo ciclo de crescimento económico e o «boom» da procura. A falta de investimento potenciou os constrangimentos desde a produção à refinação. Há mais de 30 anos que não se constroem refinarias nos EUA e noutros países ocidentais e existe um factor que agrava os preços: o pouco óleo excedentário disponível é produzido pela Arábia Saudita e outros países do Golfo e esse óleo é em geral pesado, tem elevado teor de enxofre e não pode ser processado pelas refinarias americanas e ocidentais. Isso faz escassear a gasolina, o «jet fuel» e o diesel, que derivam de óleos mais finos que não aparecem facilmente no mercado. Para agravar a situação, a produção do Alasca e do Mar do Norte entrou em declínio e isso aumenta a dependência dos países ocidentais. Alguns campos começam a entrar em queda, como é o caso do Cantarell, localizado na baía de Campeche, no México, que é o segundo do mundo em produção. O efeito Cantarell acentua ainda mais o balanço cerrado entre oferta e procura. Acresce a isso o facto de a OPEP revelar uma erosão da sua capacidade excedentária de produção que em 20 anos diminuiu 15 vezes, passando de 15 milhões de barris por dia (mb/d) para menos de 1 mb/d. E a Arábia Saudita, que actuava como «swing producer», aumentando a sua produção quando existiam problemas, está hoje condicionada. Em 2001, quando a contestação ao Presidente Chavez na Venezuela atingiu o zénite e se assistiu ao colapso, privando os mercados de 2 mb/d, a Arábia Saudita aumentou a produção, repôs o nível da oferta e os preços não foram afectados. Hoje não é assim, e por isso qualquer greve na Nigéria ou na Noruega, um tufão nas Caraíbas ou um ataque pirata no estreito de Malaca provocam uma subida imediata dos preços.

Apesar de tudo, os aumentos de preço em 2004 não conduziram a um choque petrolífero. Na Europa, a valorização do euro amorteceu o efeito da subida. Por outro lado, os aumentos ocorreram de forma gradual, num ciclo de crescimento económico e com inflação baixa. Os choques de 1973 e de 1979/80 foram induzidos pela ruptura drástica da oferta e são diferentes na sua génese da crise actual causada pela evolução da procura. Esses choques ocorreram com grandes aumentos de preços em curtos períodos de tempo num contexto de baixo crescimento económico e inflações elevadas. Daí a sua inevitabilidade.

Hoje a situação é diferente, os países desenvolvidos aprenderam a lição, têm uma intensidade energética mais baixa, isto é, a sua dependência do petróleo diminuiu. Portugal é a excepção com uma elevada intensidade energética que tem vindo a aumentar todos os anos. Em caso de choque, Portugal é um dos países mais mal preparados da União porque nunca deixou de fazer mal a si próprio. E isto é tanto mais grave quanto se sabe que 40% das reservas estratégicas de petróleo do país, a serem utilizadas em caso de crise, estão na Alemanha. Caso haja uma paralisação grave na Europa, Portugal ficará vulnerável.

O que aconteceu em 2005? Manteve-se o ritmo da procura do petróleo e gás e a penúria global da capacidade de refinação. As previsões de arrefecimento da economia chinesa, apesar da valorização do renminbi, não se têm verificado, e inclusive em Maio a produção industrial bateu todos os recordes. Por outro lado, a China começou o aprovisionamento das suas reservas estratégicas para o caso de crise, o que significa uma pressão adicional sobre o mercado. Do lado da OPEP confirma-se a erosão da capacidade excedentária e existem análises sombrias sobre o potencial saudita, o que deixa em aberto questões para o futuro, pois as suas reservas não são auditadas há mais de 25 anos. 90% do óleo saudita provêm de sete campos gigantes, alguns dos quais produzem há mais de 50 anos. Apesar dos investimentos recentes, a produção dos campos novos vai demorar. Entretanto a Rússia, o segundo produtor do mundo, revelou uma baixa de produção face às expectativas criadas. O assalto à Yukos pode repetir-se, a rede de «pipelines» deteriora-se e a não-transparência das entidades reguladoras retrai o investimento, que caiu 6.5% este ano. Os ataques terroristas no Iraque mantêm o campo de Kirkuk paralisado, a produção do país cai a pique. A eclosão de ataques piratas no estreito de Malaca, onde circula metade do petróleo que é produzido no mundo, agravados com o tsunami, cria sérias preocupações no mercado e recoloca a questão da segurança do abastecimento. Se a isto acrescentarmos as previsões da procura de petróleo para o último trimestre de 2005, quando o Inverno começar, que apesar de revistas em baixa são ainda significativas, é legítimo perguntarmos o que pode acontecer. A resposta é complexa, mas há uma probabilidade elevada de a oferta ficar abaixo da procura pela primeira vez em muitos anos e os efeitos psicológicos serão devastadores: os preços podem subir ainda mais e um novo choque petrolífero pode ocorrer. A tendência de preços elevados é confirmada pelo mercado de futuros, onde até 2014 se mantêm em alta. O próximo Inverno pode ser difícil tendo em conta que a zona Euro está numa fase de fraco crescimento económico. Portugal tem de lutar pelo melhor mas preparar-se para o pior. E acreditar que o futuro, muitas vezes, difere das previsões.


publicado por psylva às 12:57
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O medo da exigência
«Com Cavaco Silva Presidente viveremos uma fase mais à inglesa ou à alemã»


SE CAVACO Silva se candidatar, a próxima eleição presidencial colocará Portugal perante os seus velhos medos. Já não o medo de arriscar a liberdade (medo suscitado por muitos, em 1985, quando Cavaco Silva se candidatou a primeiro-ministro), mas medos mais sofisticados: o medo da autoridade e o medo da exigência.

Cavaco Silva, todos o sabem hoje, é um homem sério, com íntegro sentido de Estado e inconformado com a tendência de empobrecimento de Portugal. Também é consensual que se trata de uma personalidade forte, pouco dada a transigências palacianas e estruturalmente exigente. Sabemos, ainda, que é um político com carisma, o que lhe permite ocupar espaço com facilidade, com uma profunda marca de autodisciplina e de sentido de autoridade. Percebe-se, igualmente, que é um homem de acção, que quer ver as «coisas» a mexer e a acontecer, uma personalidade independente, que não tem famílias nem partidos para proteger, e um carácter firme, por vezes áspero, que sublinha com nitidez o seu sentido de exigência. Finalmente, é alguém com um percurso de vida feito a pulso, ansioso e impaciente por melhorar a sua situação de partida e que os outros façam o mesmo, com temperamento e imaginário de vencedor.

Esta personalidade deixa os portugueses embaraçados. Racionalmente, é a pessoa que é precisa; intuitivamente, muitos pensarão que é alguém que, projectado ao mais alto nível, mexe excessivamente com as nossas características. Racionalmente, é a personalidade com dimensão e determinação para assegurar estabilidade e firmeza de rumos aos governos que se disponham a fazer o que tem que ser feito; intuitivamente, é a personalidade que, depois de escolhida, não voltará atrás e assegurará mesmo que o que tem que ser feito será mesmo feito e não é claro que os portugueses todos queiram verdadeiramente isso.

A sublimação deste embaraço é feita ao nível do raciocínio e das dúvidas políticas: terá Cavaco Silva perfil de Presidente da República? A questão é posta mais para espantar o embaraço do que por corresponder a um problema real. É evidente que Cavaco Silva, se se candidatar e vier a ser eleito, exercerá o cargo dentro das normas constitucionais e do papel de moderador que cabe ao Presidente e dará à função a marca própria da sua personalidade.

A questão sobre o perfil de Cavaco Silva é suscitada por outra razão: a força da sua personalidade, a sua exigência e o seu dinamismo atraem por fazerem acreditar que, nos próximos dez anos, todos os governos terão um interlocutor muito exigente e um «alter ego» institucional que os fará governar sem possibilidade de desleixo. Ao mesmo tempo, esta atracção converte-se em receio de que aquela mesma personalidade forte introduza um nível de exigência perturbador e que esteja para lá do padrão de exigência considerado pela generalidade dos portugueses como suportável. É com este dilema, se calhar inconsciente, que muitos portugueses poderão vir a confrontar-se até ao momento do voto.

Outra dimensão do embaraço reside na determinação que todos sabemos que Cavaco Silva teria de fazer com que Portugal se concentrasse em questões concretas e na questão do seu próprio desenvolvimento. O político sedutor de estafados lugares comuns, de ideias gerais e que divide o mundo moderno, muito comodamente, ainda em direita e esquerda, nada tem que ver com Cavaco Silva. Se Portugal tivesse Cavaco Silva como Presidente é óbvio que viveríamos uma fase mais à inglesa ou à alemã, ou mesmo à espanhola, com ênfase colectiva nos grandes temas, precisos e concretos, do desenvolvimento (e enriquecimento, convém assumi-lo) do país e nas políticas, precisas e concretas, para atingirmos os objectivos de desenvolvimento que, como nação, pretendemos alcançar.

O tipo de político generalista, sobretudo de formação jacobina, porque não introduz qualquer mudança nos velhos e adquiridos quadros mentais sobre o modo de ver e de viver a cidadania, tem a vantagem de não obrigar a riscos de decisão, apesar de poder significar mais do mesmo e esse mesmo ser já muito pouco para um país em rota estranha de decadência. Já uma personalidade como Cavaco Silva, se é verdade que oferece aos cidadãos uma oportunidade e uma garantia de concentração e mobilização do país para temas, diria, operacionais e orientados para resultados práticos, implica, para muitos, a inquietação de optar por um nível de exigência, desde logo na concentração em objectivos palpáveis, que poderá ser tido como disruptivo e que muitos, genuinamente, considerarão anticultural para o paradigma português.


publicado por psylva às 12:55
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Novas democracias e semipresidencialismo


Aníbal Cavaco Silva no Expresso

«É importante que a natureza híbrida do sistema semipresidencial não envolva uma partilha do poder executivo, contrariamente ao que acontece em França. A actividade executiva do Presidente da República deve ser muito limitada.»

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OS RESULTADOS económicos são cruciais para o sucesso dos processos de transição e consolidação democrática, em particular uma elevada taxa de crescimento, que possibilite a redução do desemprego e a melhoria do bem-estar da população, e uma distribuição do rendimento socialmente justa. Para alcançarem estes objectivos, as novas democracias têm, normalmente, de prosseguir políticas eficientes em três áreas fundamentais: estabilização macroeconómica, reformas estruturais e provisão de bens e serviços sociais.

A estabilidade macroeconómica, que inclui taxa de inflação baixa e controlo do défice público e dos desequilíbrios externos, é uma importante condição necessária ao crescimento económico sustentado.

Por outro lado, a consolidação democrática exige reformas económicas profundas, dirigidas ao aumento da eficiência económica e da produtividade dos factores de produção, ao reforço do potencial de crescimento, à melhoria da competitividade nos mercados externos e à inserção da economia nacional no sistema económico e financeiro mundial. Em geral, é necessário levar por diante mudanças nos sistemas financeiro, fiscal e de segurança social, assim como a privatização de empresas públicas e a liberalização dos mercados.

O desenvolvimento equitativo exige que os Governos assegurem uma adequada provisão de bens e serviços sociais, principalmente nas áreas da educação e da saúde, e adoptem políticas que impeçam o agravamento das desigualdades no rendimento e no consumo das famílias.

O debate sobre a qualidade do sistema de relações entre os poderes legislativo e executivo deve ter em conta os incentivos políticos à promoção daqueles objectivos nacionais e à implementação das reformas necessárias, ao mesmo tempo que a natureza democrática do regime e o Estado de direito são mantidos, os direitos das minorias são respeitados e a coesão social é preservada.

Nesta perspectiva, é altamente conveniente que o sistema de Governo favoreça a estabilidade política, a eficiência do processo de decisão, a coerência nas decisões dos poderes legislativo e executivo, políticas financeiras correctas, a concertação social e a compatibilidade entre a alternância de Governo e a preservação das regras básicas do sistema económico.

A transparência das instituições públicas, a fiscalização do Governo, o controlo da actividade dos políticos e a flexibilidade na resolução de eventuais crises políticas são também importantes para a qualidade dos resultados económicos.

Não é possível afirmar com segurança qual o sistema de Governo que fornece os melhores incentivos para que as novas democracias alcancem bons resultados económicos. Nas democracias em transição, é provável que o risco de resultados menos positivos seja maior no caso de um sistema presidencialista puro. Podem surgir conflitos entre o poder executivo e o Parlamento, devido a uma eventual fragmentação partidária, dando lugar a incoerência nas políticas, atrasos nas reformas estruturais e dificuldade na aprovação de políticas fiscais e de despesa pública adequadas. Para os autores Cintra e Lacombe, «os sistemas presidenciais são atreitos a colocar no poder executivo maiorias contrárias à do Parlamento».

Além de mais, um Governo presidencialista tende a prestar menor atenção à equidade distributiva e a ser menos aberto à promoção do diálogo com os parceiros sociais. Este aspecto pode ser da maior importância para implementar as reformas estruturais necessárias e evitar as tensões sociais.

Um sistema semipresidencial, em que o Governo depende não só da confiança do Parlamento mas também da confiança de um chefe de Estado directamente eleito pelo povo, pode ser mais benéfico para a consolidação da democracia. Mas é importante que a natureza híbrida do sistema não envolva uma partilha do poder executivo entre o Presidente e o primeiro-ministro, contrariamente ao que acontece em França. A actividade executiva do Presidente deve ser muito limitada.

Em Portugal, o Presidente da República nomeia o primeiro-ministro, tendo em conta os resultados eleitorais, e pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, depois de ouvido o Conselho de Estado. Os ministros são nomeados pelo Presidente sob proposta do primeiro-ministro. O Governo só está em pleno exercício de funções se o seu programa não for rejeitado pelo Parlamento. O Governo pode ser derrubado pela aprovação de uma moção de censura. O poder de dissolver o Parlamento pertence ao Presidente. O facto de o Presidente ser directamente eleito pelo povo confere-lhe uma especial legitimidade e uma acrescida capacidade de intervenção e influência política, apesar de não dispor de autoridade executiva. O risco de eventuais conflitos entre o Presidente e o Governo afectarem a eficiência e a coerência das políticas não é, normalmente, elevado. O Governo dispõe de amplos poderes de legislar por decreto, mas está sujeito ao controlo político quer do Parlamento, que pode chamar os decretos a ratificação, quer do Presidente que, além do poder de veto, pode pedir a intervenção do Tribunal Constitucional.

O sistema semipresidencial pode, portanto, através da acção e influência do chefe de Estado, induzir um desempenho mais eficiente do Governo e maior transparência política, assim como pode estimular o consenso nas decisões e impedir a tentação de um Governo maioritário ignorar a voz dos partidos da oposição e os interesses das minorias. O Presidente da República favorece o equilíbrio do sistema de Governo, facilita a resolução de crises políticas e desempenha um importante papel moderador, contribuindo para reduzir as tensões sociais e para impedir eventuais atitudes extrademocráticas de grupos oposicionistas.

O sistema eleitoral é um elemento-chave da estabilidade política. Nas democracias em transição, o equilíbrio entre a representatividade e a governabilidade não deve tornar demasiado difícil a tarefa de formar um Governo maioritário. Pela mesma razão, e também para garantir a coerência das decisões, é benéfica a existência de partidos coesos.

Um sistema eleitoral maioritário simples não parece o mais adequado para a consolidação democrática, porque impede a representação parlamentar de correntes de opinião política significativas e enfraquece a disciplina partidária. Parece preferível um sistema proporcional mitigado, que não favoreça a fragmentação partidária. Torna mais fácil a formação de governos maioritários, ao mesmo tempo que assegura um nível razoável de representatividade.

Em Portugal, só foi possível implementar as reformas estruturais exigidas pela modernização económica quando um só partido, o Partido Social Democrata, obteve uma maioria no Parlamento, nas eleições de 1987, o que aconteceu pela primeira vez depois da restauração da democracia, em 1974. O método de Hondt, que vigora nas eleições parlamentares, exige que um partido obtenha cerca de 44% dos votos para conseguir uma maioria de deputados no Parlamento. Há quem defenda a alteração dos círculos eleitorais, de modo a que uma maioria parlamentar possa ser alcançada com uma percentagem de votos um pouco mais baixa, tal como acontece em Espanha.

Em conclusão: o sistema semipresidencial, em que o chefe de Estado não dispõe de autoridade executiva, combinado com um método eleitoral proporcional que não dificulte a formação de maiorias parlamentares, parece ser a melhor solução para alcançar os resultados económicos que são essenciais para fortalecer a consolidação das novas democracias.

Nota - Este texto foi escrito em Setembro de 2003, no âmbito do Clube de Madrid, como comentário ao documento «The role of executive and legislative relations in the democratic consolidation» de A. O. Cintra e M. B. Lacombe.


publicado por psylva às 12:53
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Remédios Santos
PROBLEMA: Colesterol irregular

RECEITA: Coma nozes





As nozes são alimentos muito ricos em proteínas e lípidos. De acordo com a Dra. Eunice Santos, técnica em orientação nutricional, "os lípidos (gorduras) encontrados nas nozes são benéficos por serem do tipo poli-insaturados.



Têm a propriedade de diminuir as LDL (lipoproteínas que transportam o colesterol para a circulação periférica, onde se deposita nos vasos sanguíneos, conhecidas por 'mau colesterol')". "Além disto" - continua esta especialista - "as nozes fornecem fibras alimentares que ajudam a controlar a absorção das gorduras a nível intestinal, e vitamina E, que é antioxidante".



Quando comer nozes, beba um pouco de vinho. Ao contrário do que se pensa, é benéfico se consumido moderadamente, ajuda a reduzir o risco de sofrer de doenças cardiovasculares, arteriosclerose e doenças cerebrais, como a Alzheimer, por exemplo. Segundo a nutricionista Ana Catarina Sousa, "existem vários estudos a comprovar que o vinho tem poderosas propriedades antioxidantes que combatem os radicais livres existentes no nosso organismo". Portanto, o hábito de beber um copo de vinho às refeições, "contribui para a prevenção das doenças cardiovasculares e, tal como a cerveja, pode ajudar a aumentar os níveis do 'bom colesterol' - HDL", assegura.





PROBLEMA: As suas gengivas sangram

RECEITA Legumes e maçãs



"A inflamação das gengivas não só causa dor, como também é um sintoma de falta de higiene oral", explica o Dr. Nuno Ferreira, estomatologista da Clínica Médica e Dentária da Amoreira.



Para evitar situações destas, além de um tratamento antibacteriano, este especialista recomenda "uma dieta rica em legumes e, acima de tudo, um cuidado acrescido com a saúde oral". As maçãs são igualmente recomendáveis, porque as fibras que contêm ajudam a erradicar as bactérias e a estimular a chegada de sangue novo às gengivas.





PROBLEMA: Quando sai do ginásio fica com as pernas muito rígidas

RECEITA: Bananas da Madeira



Tenta cuidar do seu corpo fazendo exercício e ele paga-lhe com cãibras? Primeiro que tudo, deve dizer-se que o exercício reduz os nutrientes essenciais ao bom funcionamento dos músculos. Mas também é verdade que estas contracções não significam que tenha feito exercício em excesso.



Nada melhor que jogar na antecipação e consumir regularmente bananas para prevenir as cãibras durante o exercício físico e beber água com abundância para combater a desidratação e repor o magnésio e o potássio perdido.



De facto, as cãibras costumam ser consequência da perda de glucose no sangue e da diminuição da capacidade muscular. Nesse sentido, a banana é um fruto que, além de ser rico em potássio e vitaminas B e C, é barata e fácil de descascar. Que mais se pode pedir?





PROBLEMA: As insónias não o deixam dormir

RECEITA: Leite com mel



Está farto de contar ovelhas? Segundo o site do ISTEL (Instituto do Sono, Cronobiologia e Telemedicina), pode dizer-se que "a insónia é algo de comum, que pode estar associado a outras doenças, pode resultar da medicação, do estilo de vida, entre outros factores".



A todas as pessoas com este problema, oferecemos este conselho: vão até à despensa e mandem para o lixo todos os alimentos com propriedades estimulantes que lá tenham (café, latas de coca-colas ou de bebidas energéticas, etc.). Deixem apenas ficar os alimentos com capacidades sedativas. Depois, preparem a receita da avozinha: um copo de leite com umas colheradas de mel.



Graças ao triptofano que compõe esta receita, conseguirá estimular o sono. Comer refeições ligeiras e não praticar desporto minutos antes de ir dormir (a não ser que queira fazer uma directa) são outros conselhos que poderão ajudá-lo a dormir que nem um anjo...





PROBLEMA: Vive preocupado com as doenças cardíacas

RECEITA: Peixe acompanhado de uma caneca de cerveja (mas só uma, não abuse)



Como prevenir-se de problemas cardíacos? Coma peixe. Vários estudos confirmam que os ácidos gordos polinsaturados Ómega-3, abundantes em peixes como o atum, a sardinha ou o salmão, impedem o início e a propagação das taquicardias. Para acompanhar o peixe, sugerimos-lhe cerveja.



Em consonância com a Dra. Maria José Pombeiro, Directora de Qualidade da CentralCervejas, pode dizer-se que "está cientificamente comprovado o efeito da cerveja (devido ao álcool) na prevenção de doenças cardiovasculares".



Segundo numerosos estudos, a cerveja reduz o risco de sofrer um ataque cardíaco (essa protecção acrescentada perde-se com duas a três jarras por dia) devido ao etanol, que faz com que o sangue seja menos espesso e que proteja o coração.



Todavia, "a cerveja, tal como o vinho, só protege e é benéfica se consumida com moderação", alerta a Dra. Maria José Pombeiro. E esta associação cerveja-peixe não é tão estranha quanto possa parecer. A comprová-lo está um estudo elaborado por cientistas espanhóis da Faculdade de Farmácia da Universidade Complutense de Madrid, que conseguiu fundamentar a hipótese de que quem bebe cerveja às refeições, normalmente, come cereais, fruta, carne e peixe em maiores proporções do que os que acompanham a comida com água ou sumos.





PROBLEMA: O seu cérebro parece que está prestes a rebentar

RECEITA: Peixe com amêndoas



A Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro através da qual a pessoa vai perdendo as capacidades intelectuais. Até à data, não tem cura. Segundo as informações recolhidas no site da Associação Humanitária de Doentes de Parkinson e Alzheimer, o número de casos tem vindo a aumentar, "estimando-se que existam mais de 50 mil doentes de Alzheimer em Portugal". Por isso, é muito importante que haja prevenção.



De acordo com uma análise preliminar aos hábitos alimentares de cidadãos de 11 países, pode dizer-se que é possível reduzir o risco de vir a sofrer desta doença se se mantiver uma alimentação com baixo teor de gorduras.



Nos países com este tipo de hábitos alimentares (Nigéria, China, etc.), a Alzheimer afecta apenas 1% da população, ao contrário dos Estados Unidos (campeões das gorduras), que ultrapassam os 5%. Consequentemente, não deve evitar-se o consumo de gorduras saturadas e os alimentos ricos em ácidos gordos Ómega-3, essenciais quer para o desenvolvimento do sistema nervoso, quer para minimizar uma possível debilidade mental própria da velhice.



Segundo um trabalho publicado no "New England Journal of Medicine", as amêndoas são outro alimento recomendado para protelar o surgimento desta doença. Dadas as potencialidades em vitamina E, recomenda-se um consumo de 60 g diárias deste fruto seco, ou seja, não vale a pena empanturrar-se, até porque uma dieta rica em antioxidantes, nomeadamente frutas e legumes, também lhe fornece a quantidade suficiente desta vitamina. Para o jantar já sabe: salmão com amêndoas.





PROBLEMA: Está com um péssimo hálito

RECEITA: Água, água, água e mais água



Em vez de se esconder e de não falar com nenhum ser humano, procure ter à mão uma garrafa de água. A ingestão deste líquido é uma solução eficaz para combater a halitose. Apesar de não existirem provas científicas que o garantam, a lógica faz-nos pensar que a água provoca uma acção de humedecimento que, por sua vez, diminui a acção dos produtos que provocam a halitose.



Além disto, manter um regime alimentar rico em hidratos de carbono e baixo em proteínas é bastante recomendável, uma vez que as bactérias que provocam a halitose alimentam-se, sobretudo, das moléculas proteicas habituais nas carnes.





PROBLEMA: Doem-lhe as articulações

RECEITA: Meio prato de legumes temperados com azeite



Um estudo levado a cabo na Grécia e publicado pelo "American Journal of Clinical Nutrition" revela que quanto maior for o consumo de legumes cozidos e de azeite, menores serão as probabilidades de sofrer de artrite reumatóide (a mais comum).



Após analisarem as dietas alimentares e o estado de saúde de 330 gregos, os cientistas descobriram que as pessoas que comiam regularmente legumes cozidos tinham menos 75% de probabilidades de contraírem artrite do que aquelas que só o faziam esporadicamente. Por sua vez, os que consumiam casualmente azeite tinham mais do dobro do risco de progredir esta doença.



Uma possível explicação: o calor destrói as capas celulares dos legumes, permitindo que o organismo absorva mais nutrientes do que se estas permanecerem intactas. A razão dos benefícios do azeite encontra-se no ácido oléico.





PROBLEMA: Na sua família há antecedentes de cancro de próstata

RECEITA: Molho de tomate



Um estudo efectuado por investigadores da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, que reuniu cerca de 48.000 homens, determinou que o molho de tomate permite reduzir o risco de cancro de próstata.



No decorrer desta pesquisa, os homens que tinham consumido duas ou mais porções de molho de tomate por semana eram 23% menos propensos a desenvolverem cancro de próstata. Aparentemente, o motivo era o licopeno, um antioxidante que abunda no tomate e que se encarrega de neutralizar os radicais livres, as moléculas prejudiciais que provocam o cancro.



Mas se não gosta de tomates nem derivados, tem outra alternativa, é que os experts descobriram que as dietas ricas em boro também ajudam a restringir as possibilidades de contrair este tipo de cancro. O gelado de baunilha, além de ser um excelente exemplo, é uma das suas melhores fontes, fornecendo cerca de 25 miligramas.





PROBLEMA: Os seus espermatozóides têm problemas em chegar à meta

RECEITA: Couve de Bruxelas



O ácido fólico está inevitavelmente associado aos tratamentos contra a infertilidade. O facto é que, durante a gravidez, o corpo requer oito vezes mais ácido fólico do que o habitual.



"Está especialmente indicado para as mulheres, mas no caso dos homens poderia fazer sentido relacionar a reprodução de espermatozóides com o nível de ácido fólico, apesar dessa ligação ainda não ter ficado cientificamente demonstrada", adverte a Dra. Helena Sá Pereira, médica de clínica geral.



Esta especialista aconselha as mulheres que desejarem potenciar a sua fertilidade a iniciarem uma dieta rica em ácido fólico três meses antes de pretenderem engravidar, de modo a prevenir malformações congénitas do tubo neural (crânio e coluna). Mas, como levar o ácido fólico até à nossa mesa? "Podemos encontrá-lo em maior quantidade na levedura de cerveja, no gérmen de trigo, nozes, vegetais de folhas verdes escuras, leguminosas (feijão, grão, lentilhas, soja, ervilhas, favas), pão integral, ovos e bananas", informa a Dra. Eunice Santos, técnica em orientação nutricional.





PROBLEMA: Está constipado

RECEITA: Alho



Quando notar a primeira picada na garganta, largue tudo e vá preparar um molho de alho. É que as suas propriedades antivíricas ajudam a combater muitas infecções. Senão, veja-se o que diz a Dra. Eunice Santos: "O alho tem, entre outras vantagens, um elevado poder antimicrobiano. O único inconveniente do seu uso regular como alimento cru deve-se ao forte odor que deixa no hálito".



Para suprimir este inconveniente - continua esta especialista em nutrição - "procure usar o alho sob a forma de suplementos alimentares produzidos por processos devidamente controlados".



Paralelamente ao consumo de alho, procure também ingerir muito tomate, quer em forma de molho ou de sumo, quer como salada. É que os ácidos contidos no tomate neutralizam os óleos pestilentos do alho. Outra opção para pôr fim à constipação que tanto o atormenta passa por pôr em prática a velha, mas correcta, teoria que diz que a vitamina C é a melhor solução.





publicado por psylva às 12:49
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O enfoque no cidadão
De: António Carrapatoso

A sociedade civil está prisioneira dum Estado fraco e paternalista que asfixia e desconfia do cidadão e da sua iniciativa.

A nossa sociedade não está organizada nem funciona à volta e em benefício de cada cidadão, ou seja, de cada português, mas sim de grupos representativos de interesses corporativos específicos que, de acordo com o seu poder negocial, exercem uma maior ou menor influência e acabam por determinar maioritariamente o rumo que o País toma.

Caso paradigmático é o do próprio Estado, cujo papel e funcionamento é mais determinado pelos interesses próprios corporativos dos grupos que nele prevalecem, do que pela vontade e necessidades da generalidade dos cidadãos.

A razão principal porque tal acontece é porque somos uma democracia muito recente, sem uma sociedade civil fortalecida, e que ainda não foi capaz de alterar substancialmente muitas das deficiências que herdou do passado, às quais acrescentou outras provenientes, nomeadamente, dum período de ruptura e transição política e duma natural imaturidade do regime subsequente.

Como tal, ainda não se consolidou um projecto político consistente, com uma visão de médio longo prazo, liderado por políticos convictos e corajosos, que assumam e se motivem fundamentalmente pelo interesse público, e não pela sua carreira política e pessoal, e que seja merecedor dum apoio cada vez mais alargado da opinião pública.

Esse projecto tem que apostar numa alteração profunda do papel do Estado e do seu funcionamento, num novo modelo social, na abertura definitiva e numa sã concorrência nos vários mercados, e principalmente na libertação da Sociedade Civil, na valorização e qualificação dos cidadãos, na sua iniciativa, e na respectiva responsabilização.

A sociedade civil está prisioneira dum Estado fraco, paternalista e ineficiente que asfixia e desconfia do cidadão e da sua iniciativa, dum enquadramento legal complexo e confuso que condiciona em demasia a liberdade individual e a mobilidade humana e física e dum sistema político que não aproxima os eleitos dos eleitores.

A valorização e qualificação dos cidadãos estão comprometidas por um sistema de educação dispendioso mas ineficaz, que tem como resultados um abandono escolar no ensino obrigatório superior a 40% e uma percentagem de apenas 50% de jovens que completam o ensino secundário.

A responsabilização do cidadão exigirá uma nova cultura e atitude que o leve a assumir-se como responsável pelo seu próprio futuro e da sociedade, exercendo uma cidadania mais activa, procurando a sua auto formação, e abandonando a procura do paternalismo do Estado e duma protecção excessiva que será sempre aparente, fonte de fraudes e injustiças, e não sustentável.

Este projecto político centrando-se no cidadão tem que saber encontrar o equilíbrio certo entre liberdade e igualdade, interesse individual e colectivo e apostar numa repartição justa dos sacrifícios e dos benefícios, não permitindo apropriações indevidas de privilégios por grupos específicos, mesmo que baseadas em supostos direitos adquiridos.

Progressivamente mais cidadãos estão receptivos a aceitar as mudanças necessárias e os respectivos custos, reconhecendo que os seus interesses não estão devidamente defendidos e que a sua realização e felicidade pessoal está cada vez mais comprometida.

O que cada cidadão pretende é estar melhor preparado para os desafios futuros, ter múltiplas opções atractivas e recompensadoras de ocupação profissional e dos seus tempos livres, viver em espaços ambientalmente qualificados e pertencer a uma sociedade bem sucedida que possua também uma elevada consciência ética e social.

Não é isso que actualmente se passa. Por isso prevalece o desânimo, a descrença e o desapontamento.

Temos que ser capazes de construir uma sociedade que vise a maximização acumulada de felicidade de cada cidadão, que acredite nas suas capacidades e iniciativa, e que não o veja apenas como um número num colectivo abstracto, massificado e facilmente manipulável.


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Sábado, 10 de Setembro de 2005
A bolha especulativa do imobiliário
A imprensa e as instituições económicas internacionais começaram a dar conta de preocupação com potenciais efeitos recessivos sobre a economia mundial de uma bolha especulativa dos preços das habitações e da envolvente do sector imobiliário. A revista The Economist, o Fundo Monetário Internacional e a Reserva Federal americana vão manifestando inquietação com as incertezas que se anunciam, com destaque para aquela publicação semanal que dedicou um dossiê a este tema no seu número 8431 de 18 de Junho deste ano, depois de se ter referido à problemática em edições anteriores.
Após o rebentamento da bolha especulativa dos anos 90, associada à queda dos preços das acções das empresas das novas tecnologias (as chamadas dotcoms), grande parte das aplicações transferiram-se para o imobiliário, na ausência de oportunidades rentáveis alternativas. O resultado é um aquecimento internacional, com destaque para o mercado americano, mas também em países de características tão diversas como a Grã-Bretanha, a Austrália, França, Espanha ou a China. A subida dos preços dos terrenos e das casas serviu para reanimar a economia mundial, compensando parcialmente a queda da Bolsa, mas a manutenção dessa tendência num período tão dilatado introduziu sinais de movimento especulativo, que poderá terminar com uma derrapagem.
O carácter especulativo desta trajectória traduz-se na intervenção activa no mercado dos operadores internacionais, apesar de os encargos de uma grande parte dos pequenos investidores poderem suplantar os potenciais rendimentos. Como aconteceu com as dotcoms e o movimento persistente de compra de acções de empresas pouco rentáveis, antecipam-se grandes ganhos de capital associados à subida sustentada dos preços das casas. Porém, quando este processo atingir os seus limites e a bolha rebentar, a queda dos preços é inevitável (como começa a notar-se na Grã-Bretanha, Austrália e Holanda), com a agravante de se realizar num contexto de baixa inflação e exigir uma prolongada descida de muitos anos para que se atinjam os valores médios de longo prazo dos preços em termos reais.
O envolvimento dos principais grupos económicos portugueses (Espírito Santo, Sonae, Amorim) em operações imobiliárias de grande escala não é, portanto, um acto isolado no contexto internacional, ou uma especificidade nacional que traduza apenas a ausência de perspectivas estratégicas daquelas empresas para outros sectores vitais da economia. O que é especificamente português é a forma irracional do ponto vista urbanístico, ambiental, cultural e social de muitos projectos dos operadores do mercado imobiliário, que se desenvolvem na base de cenários e expectativas sem fiabilidade, e cuja incongruência se combina facilmente com a falta de capacidade política, técnica e cultural das autarquias e do governo central.
Do ponto de vista autárquico e do seu sistema de financiamento e de incentivos, o esquema é (como têm afirmado muitos observadores, incluindo o recentemente demissionário Ministro das Finanças e até o primeiro-ministro, ainda que sem consequências) perverso, porque se alimenta com as receitas dos projectos de loteamento e respectivos impostos. Ele confere aos promotores privados uma capacidade de influência sobre os processos de urbanização e de edificação que nenhuma autarquia ou autoridade pública local está em condições de contestar. O resultado está à vista em termos de elevado desordenamento do território, perdas de valores ambientais relevantes, destruição do equilíbrio tradicional de muitas localidades e desertificação e descaracterização cultural de muitas outras.
Mesmo no que respeita ao governo central e aos partidos políticos tradicionais, profundamente penetrados por concepções ultrapassadas de desenvolvimento económico e pela lógica de interesses de curto prazo, há uma incapacidade em conjugar preocupações de desenvolvimento sustentável, inscritas em muita legislação portuguesa, desenvolvida a partir de directivas da União Europeia, com as decisões políticas que muitas vezes a contradizem. Só para citar alguns exemplos, atente-se na construção de um enorme centro comercial (o maior da Europa no seu género) em terrenos de Zona de Protecção Especial em Alcochete, nas intenções de investimento na Mata de Sesimbra contrariando a lógica de um Plano Regional em vigor e nos projectos de edificação em plena Rede Natura 2000 em muitos pontos da costa Atlântica.
Para além da insustentabilidade ambiental, o actual modelo vai conduzir muitos agentes e autarquias financeiramente mais débeis a confrontar-se com erros de apreciação. Quando o movimento de descida e contracção das margens de lucro se fizer sentir, quebrando a resistência dos grandes operadores que constroem, muitas vezes, como forma de investimento sem preocupações de venda imediata, o pânico pode invadir o mercado. Bastará uma pequena subida das taxas de juro e a cobrança a sério dos impostos e taxas municipais para que muitos pequenos aforradores tentem livrar-se das segundas e terceiras habitações, acelerando a tendência para a baixa dos preços. Nessa altura, as autarquias vão coleccionar um monte de betão abandonado e desvalorizado, que não gera as receitas por elas antecipadas. Eis um desenlace possível de uma das maiores bolhas especulativas da história económica.


publicado por psylva às 11:00
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Classes sociais nos EUA
A crença, a essência do sonho americano, é a mobilidade social. Não o desaparecimento de classes. Mas sim o desaparecimento das barreiras entre classes.

E a maioria dos americanos acreditam nesse sonho. Num inquérito do New York Times (2005), à pergunta: é possível começar pobre, trabalhar muito e ficar rico?: 80% dizem sim; 20% respondem não. Há 20 anos os valores eram 60% e 40%.

Mais: 40% dos americanos acreditam que a possibilidade de subir socialmente aumentou nos últimos 30 anos, contra 23% que pensam o oposto.

A realidade, contudo, ensina que são estes últimos que têm razão. Segundo, vários estudos a mobilidade social, tendo aumentado após a IIª GM, está agora em declínio; pelo que a probabilidade de se morrer na mesma classe social é hoje maior que há 30 anos atrás.

Três questões: 1) Porquê?; 2) Como aumentar a mobilidade?; e 3) Como explicar que as crenças das pessoas não correspondem com a realidade?
Porquê? Há duas grandes barreiras à mobilidade: a desigualdade de rendimentos e a cristalização das diferenças de mérito.

Os EUA são o país da OCDE com maior desigualdade de rendimentos: 20% da população tem 46% da riqueza (Des. Hum. ONU). E esta diferença está a aumentar: nos últimos 25 anos, o rendimento dos 1% mais ricos aumentou 139%, contra 17% dos rendimentos medianos e 9% dos 1/5 mais pobres (todos rendimentos ajustados para a inflação).

Depois, estas grandes desigualdades de rendimento contribuem para que os (des)privilégios e (des)vantagens sejam doados e herdados: embora a % de universitários tenha aumentado, a % de alunos de classe alta nas melhores universidades, também aumentou.

Solução? Segundo os liberais, i.é partido democrata): progressividade fiscal e melhor acesso geral à educação: com quotas e apoio financeiro.

Pergunta-se: mas se há menor mobilidade social, como explicar que os americanos acreditem no oposto? Por duas ordens de razões.

Primeiro, o conceito de classe social hoje não é essencialmente de rendimento e sim de valores: na década de 50 os administrativos eram republicanos, hoje votam democrata; os operários especializados eram antes fortemente democratas, hoje estão divididos 50%-50% entre o partido democrata e republicano.

Segundo, apesar das barreiras existentes, a motivação dos americanos (para enriquecer) é tão forte e a sua autoconfiança (de que serão capazes) tão grande, que lhes faz parecer as barreiras menores do que efectivamente são: i.é acreditam genuinamente que conseguem superar os obstáculos.

À pergunta se o sucesso depende de mim (e não de forças fora do meu controlo), 65% (contra 32%) dos americanos respondem que sim. Na Europa? O inverso: 35% (contra 63%). Donde: o que é mais importante para o governo? “Liberdade para cada um alcançar os seus objectivos”, segundo 60% dos americanos, contra 20% na Itália, 35% na G.B., etc.

No limite, tudo se resume ao seguinte: um americano vê um condutor num Ferrari. E pensa: ainda hei-de andar de Ferrari. Em outros países?: pensa-se: ainda hás-de andar a pé como eu.



publicado por psylva às 10:58
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China - pânico ou serenidade
DE: António Borges

A China tem um modelo económico simples e bem sucedido; num quadro de gestão macro-económica prudente.

A irrupção dos produtos chineses nos mercados internacionais tem gerado considerável pânico, sobretudo na Europa. A conquista sistemática de novas posições comerciais por parte dos chineses parece inexorável. Cada ano os produtores chineses entram em novos mercados, evoluem para indústrias mais sofisticadas e impõem os seus produtos a preços imbatíveis. É fácil extrapolar esta tendência: com a sua gigantesca dimensão, a China rapidamente dominará a economia mundial; a todos nós restará o desemprego, na sequência do desaparecimento de toda a nossa capacidade de produzir, seja o que for, a preços competitivos com os chineses. Felizmente, a realidade é bem mais complexa – e interessante – do que uma simples extrapolação. E o crescimento da China – e de outros países emergentes – além de muito menos ameaçador do que se pensa, tem muitíssimos aspectos positivos para o resto do mundo.

O receio excessivo causado por novos concorrentes não é novo; sobretudo, é pouco racional. Já na década de 70 se afirmava sem margem para dúvidas que o Japão dominaria o mundo e que antes do fim do século 20 seria a maior economia do globo. Nada disso aconteceu. E ainda que o Japão tivesse muito melhores condições para liderar a economia mundial do que a China tem, já ninguém receia os japoneses nem tem medo do seu domínio.

A China tem um modelo económico extremamente simples e bem sucedido; num quadro de gestão macro-económica prudente – aliás, dizem alguns, excessivamente prudente – uma taxa de poupança elevadíssima permite canalizar para investimento uma parcela gigantesca do PIB. Com uma mão de obra disciplinada, ambiciosa e trabalhadora e uma notável capacidade para atrair nova tecnologia do exterior, a produção pode crescer a ritmo muito rápido. Graças à globalização, os mercados externos fornecem inesgotáveis oportunidades comerciais. Resta ir repetindo a receita, ano após ano, o que se torna fácil devido à ilimitada disponibilidade de mão de obra interessada em entrar neste novo mundo de prosperidade incomparável com a da China rural e tradicional.

Curiosamente, este modelo tem muitas semelhanças com o do extraordinário crescimento económico português dos anos 60: crescimento muito rápido, exportação, investimento, poupança elevada, mão-de-obra disponível, tudo idêntico – inclusive, claro está, a ditadura. Ora nós bem sabemos que o êxito do nosso crescimento económico dos anos 60 nada significa quanto à nossa capacidade de competir e nos desenvolvermos no século XXI. Quem pensa que o modelo chinês se pode reproduzir indefinidamente sofre seguramente de fortíssima miopia. Aliás, a grande questão que se deve colocar no que respeita à China é justamente a de se poder prever o ponto de inflexão, quando aquela gigantesca economia tiver de encontrar novas vias para manter o momento de que agora inegavelmente desfruta.

O caracter inevitavelmente limitado do crescimento chinês não impede que durante muito tempo a concorrência chinesa continue a ser um enorme quebra-cabeças para todos os outros países. Mas convém lembrar que nunca os ganhos do comércio internacional são apropriados por um único país. A economia mundial sai sempre a ganhar, muitos países beneficiam consideravelmente da expansão do comércio, embora evidentemente também haja quem perca. Quanto mais os chineses exportam, mais têm interesse em importar: é precisamente o crescimento gigantesco do mercado chinês que explica o êxito de países asiáticos ou latino americanos – como o Brasil. E as exportações destes para a China dão origem a importações que criam excelentes oportunidades para terceiros. O processo propaga-se rapidamente, e é hoje um dos mais importantes factores da forte expansão da economia mundial a que temos assistido.

Perante esta situação, há duas atitudes. A nossa – de certa Europa e em particular de Portugal – consiste em concluir que vamos seguramente perder com esta concorrência desabrida: precisamos de protecção e de salvar o que temos. A de muitos outros países do Mundo consiste em procurar avidamente todas as oportunidades, todos os mercados, todos os projectos em que o talento e a experiência de que dispõem possam ser de alguma utilidade. A atitude que se escolhe determina a política dos governos e a estratégia das empresas. Não admira que seja um factor importante para se saber quem realmente sai a ganhar ou a perder.





publicado por psylva às 10:57
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Vai um cafezinho?
>Dois leões fugiram do Circo. Na hora da fuga, cada um tomou um rumo
>diferente, para despistar os perseguidores.
>Um dos leões foi para as matas e outro foi para o centro da cidade.
>
>Procuraram os leões por todo o lado mas ninguém os encontrou. Tinham-se
>sumido.
>Depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi
>justamente o que fugira para as matas.
>
>Voltou magro, faminto e alquebrado.
>
>Foi preciso pedir a um deputado que arranjasse vaga no Jardim Zoológico
>outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão
>carcomido.
>
>Assim, o leão foi conduzido à sua jaula.
>Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrou do leão que fugira
>para o centro da cidade, quando um dia, o bicho foi recapturado.
>
>E foi para o Jardim Zoológico gordo, sadio, a vender saúde. Mal ficaram
>juntos de novo, o leão que fugira para a floresta perguntou ao colega:
>- "Como é que conseguiste ficar na cidade esse tempo todo e ainda
>voltar com essa saúde?
>
>Eu, que fugi para a mata, tive que pedir clemência, porque quase não
>encontrava o que comer... Como é que foi?" O outro leão então explicou:
>-"Enchi-me de coragem e fui esconder-me numa repartição pública.
>
>Cada dia comia um funcionário e ninguém dava por falta dele."
>- "E por que voltaste então para cá? Tinham acabado os funcionários?"
>- "Nada disso.
>
>Funcionário público é coisa que nunca acaba.
>
>É que eu cometi um erro gravíssimo.
>
>Tinha comido o director geral, um director de serviços, um chefe de
>divisão, um chefe de repartição, um chefe de secção, funcionários
>diversos, e ninguém deu por falta deles!
>
>Mas, no dia em que eu comi o que servia o cafezinho... Estraguei tudo...


publicado por psylva às 10:47
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005
Mãos sujas
Será que é possível exercer política permanecendo inocente, isto é, sem nunca praticar actos moralmente errados?

Será que é possível exercer a actividade política permanecendo inocente, isto é, sem nunca praticar actos moralmente errados? Este é o problema que Jean-Paul Sartre levanta numa peça intitulada ‘Les Mains Sales’ e que, por essa razão, passou a ser conhecido no pensamento ético contemporâneo como “o problema das mãos sujas”. Embora não haja unanimidade na reposta a dar à questão levantada, eu não tenho grandes hesitações em considerar que essa resposta deve ser negativa.

Como é sabido, muita gente suja as mãos na política de um modo torpe e que deve ser severamente combatido. Refiro-me a actos de corrupção activa e passiva, enriquecimento indevido, favorecimento pessoal e partidário, etc. Infelizmente, quase todas as semanas temos notícia de mais um caso, aos níveis autárquico e do poder central. Mas, se só se sujasse as mãos desta forma, haveria ainda muitos agentes políticos de mãos limpas. No entanto, há outra forma mais subtil - e também inevitável - de sujar as mãos em política.

Muitas vezes, os políticos sujam as mãos ao fazer exactamente aquilo que devem fazer do ponto de vista político. Assim, se um dirigente legítimo de uma nação democrática ordenar um ataque a um grupo terrorista, dentro ou fora das suas fronteiras, está a fazer o que deve para proteger os seus concidadãos e contará certamente com o apoio da esmagadora maioria. Mas irá provocar várias mortes de indivíduos que até poderão estar inocentes - o que é moralmente errado. Se o mesmo dirigente político ordenar o assassínio, pelos serviços secretos, do líder desse grupo terrorista, estará mais uma vez a proteger a sua nação, que o apoiará, mas também a fazer algo moralmente errado.

Outro exemplo, a um nível mais pacífico: quando um político é desleal em relação a um amigo de longa data ocultando-lhe que se vai candidatar a um lugar a que esse amigo almeja - bloqueando assim a candidatura dele - está a fazer algo moralmente errado. No entanto, essa deslealdade pode justificar-se politicamente. Pode-se considerar que a deslealdade cometida constitui um serviço feito ao partido, ou mesmo ao país. Essa deslealdade pode ter sido praticada genuinamente a contragosto, por dever político. Tal como no exemplo dos terroristas, o homem político terá feito o que é mais adequado politicamente e aquilo que os seus apoiantes esperavam dele. Mas não pôde evitar sujar as mãos.

Assim, sujar as mãos alguma vez, ou algumas vezes, parece inevitável, pelo menos para aqueles que têm uma carreira política longa e com responsabilidades. Os maus políticos fazem-no de um modo torpe. Mas também os melhores políticos não podem deixar de o fazer, ainda que de uma forma não comparável e com a melhor das intenções. Porém, se estes políticos forem seres humanos normais e minimamente reflexivos, também não deixarão de sentir na consciência o peso dos seus actos. Será que podem livrar-se do remorso? Será que podem lavar as mãos depois de as terem sujado?
Penso que não. Albert Camus, que nestas e noutras coisas era mais lúcido do que Sartre, abordou também o tema das mãos sujas numa peça ainda recentemente encenada em Lisboa: ‘Les Justes’. Para Camus, quem envereda pelos pecados e pecadilhos que a política leva a cometer deve depois pagar o seu preço. O assassino justo de Camus, condenado pelo homicídio de um tirano sanguinário, aceita o cadafalso como expiação por um acto politicamente louvável. Também os melhores agentes políticos que, como dissemos, inevitavelmente sujam as mãos, deverão carregar para sempre consigo o peso do mal que praticaram. É essa a sua expiação. Nada nem ninguém poderá aliviar-lhes a consciência pesada pelas mortes que provocaram ou pelos amigos que traíram.



publicado por psylva às 21:48
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