Terça-feira, 20 de Junho de 2006
O problema americano


Joseph Stiglitz



Qualquer abordagem aos desequilíbrios comerciais deverá centrar-se no principal desequilíbrio global, isto é, o dos Estados Unidos da América.

A chamada reunião de ”Primavera” do Fundo Monetário Internacional (FMI) decorreu num clima de esperança e ficou marcada pelo novo mandato de ”vigilância” dos desequilíbrios comerciais que contribuem, significativamente, para a instabilidade global. Esta nova missão reveste-se de uma importância crucial, tanto para a saúde da economia global como para a própria legitimidade do FMI. Mas será que o Fundo está à altura do desafio?

Como é óbvio, existe algo de peculiar num sistema financeiro global onde o país mais rico do mundo, os EUA, pede emprestado mais de 2 mil milhões de dólares por dia aos países mais pobres – ao mesmo tempo que lhes ensina os princípios do bom governo e da responsabilidade orçamental. Ou seja, as responsabilidades do FMI, encarregue de manter a estabilidade financeira global, são muitas e importantes: se, porventura, os restantes países perderem a confiança depositada nos EUA – cada vez mais devedores –, as eventuais repercussões sentidas nos mercados financeiros de todo o mundo serão enormes.

O desafio que o FMI tem pela frente é formidável. Como é óbvio, será importante que o Fundo se debruce sobre os desequilíbrios globais, em detrimento dos desequilíbrios bilaterais. Num sistema comercial multilateral, os grandes défices comerciais bilaterais são, frequentemente, contrabalançados por excedentes bilaterais registados nos outros países. A China pode estar interessada no petróleo proveniente do Médio Oriente, todavia, é provável que o Médio Oriente – onde a riqueza se encontra concentrada em poucas pessoas –, esteja mais virada para as malas Gucci do que para os produtos chineses produzidos em larga escala. Assim, é plausível que a China possua um défice comercial com o Médio Oriente, e um excedente comercial com os EUA, porém, estes equilíbrios bilaterais não reflectem a contribuição global da China para os desequilíbrios globais.

Os EUA, por seu lado, estão radiantes face ao sucesso obtido com o alargamento das funções do FMI, por acreditarem que, deste modo, as pressões sobre a China irão aumentar. No entanto, este júbilo é insensato. Se tivermos em conta os desequilíbrios comerciais multilaterais, os EUA encontram-se bem à frente dos restantes países. Em 2005, o défice comercial norte-americano ascendia a 805 mil milhões de dólares, enquanto que o somatório dos excedentes da Europa, Japão e China não ultrapassava os 325 mil milhões de dólares. Deste modo, qualquer abordagem aos desequilíbrios comerciais deverá centrar-se no principal desequilíbrio global, isto é, o dos EUA.

A avaliação dos desequilíbrios comerciais, isto é, encontrar um culpado e as respectivas soluções, possui um cariz económico e político. Os desequilíbrios comerciais resultam, por exemplo, das decisões tomadas pelas famílias acerca do quanto poupar e do quanto, e onde, gastar. Mas também são o resultado de decisões políticas: taxação efectuada e gastos realizados (que ajudam a determinar os níveis de poupança ou os défices de um país), regulamentação sobre o investimento, políticas de taxas de câmbio, entre outras. Mais, todas estas decisões são interdependentes.

Os enormes subsídios agrícolas concedidos pelos EUA contribuem, por exemplo, para o seu défice orçamental, o que se traduz num défice comercial ainda maior. Porém, os subsídios agrícolas acarretam consequências para a China e para outros países em desenvolvimento. Neste momento, uma reavaliação da moeda chinesa faria com que os seus agricultores ficassem em pior situação, todavia, num mundo caracterizado pelo comércio (mais) livre, os subsídios agrícolas norte-americanos resultam em preços agrícolas globais mais baixos e, consequentemente, em preços mais baixos para os agricultores chineses. É provável que os EUA, ao estenderem a sua generosidade às grandes empresas agrícolas, não tenham querido prejudicar os mais pobres, no entanto, esse era o resultado mais previsível.

Ora, tal coloca um sério dilema aos decisores chineses. A concessão de subsídios aos seus agricultores iria desviar verbas destinadas à educação, saúde e à concretização de projectos de desenvolvimento prioritários. Ou então, a China poderia tentar manter uma taxa de câmbio ligeiramente inferior aos valores contabilizados noutras circunstâncias. Mas será que o FMI, tido como justo e imparcial, deve criticar as políticas agrícolas norte-americanas ou as políticas cambiais da China?

Descobrir se os desequilíbrios comerciais de um determinado país são o resultado de políticas mal orientadas, ou uma consequência natural das suas circunstâncias, também não é tarefa fácil. O défice comercial de um país equivale à diferença entre o investimento nacional e as poupanças efectuadas, sendo que os países em desenvolvimento são, normalmente, encorajados a poupar o mais possível. Como é óbvio, a população chinesa fez mais do que responder a este tipo de conselho. No futuro, porém, talvez já nem seja preciso poupar a este ritmo, mas trata-se de reformas que não podem ser implementadas de um dia para o outro. Se bem que o investimento seja elevado, a perspectiva do seu aumento faz perigar a correcta aplicação de fundos, no entanto, se continuar a aumentar, pode vir a ser mal aplicado, o que dificulta a redução dos desequilíbrios comerciais da China.

Além do mais, uma alteração na taxa de câmbio chinesa teria pouco peso num eventual processo de alteração do défice comercial multilateral dos EUA – os norte-americanos podem optar pela importação do Bangladesh em detrimento dos têxteis chineses. É difícil avaliar se uma eventual alteração na taxa de câmbio da China teria um efeito significativo tanto na poupança como no investimento dos EUA.

Com o défice comercial dos EUA a assumir o papel de principal desequilíbrio global, as atenções devem recair sobre o método mais adequado para aumentar as poupanças nacionais – uma questão com que os governos dos EUA há muito se defrontam, e uma das mais debatidas na altura em que eu presidia ao Conselho de Consultores Económicos de Bill Clinton. Se bem que seja verdade que a preferência fiscal pode contribuir para um ligeiro aumento das poupanças privadas, a diminuição das receitas fiscais faria mais do que compensar os ganhos contribuindo, assim, para uma redução na poupança nacional. Posto isto existe apenas uma solução: reduzir o défice orçamental.

Resumindo e concluindo, os EUA são responsáveis tanto pelos desequilíbrios comerciais como pelas políticas que podem resolver rapidamente esta situação. A resposta do FMI à sua nova missão será um teste à sua legitimidade política. Na reunião da Primavera, o Fundo fracassou na escolha dos seus responsáveis máximos com base no mérito e independentemente da nacionalidade, e não garantiu uma distribuição justa e ponderada dos direitos de voto. A título de exemplo, é possível constatar que a maior parte dos países emergentes continua sem uma representação adequada.

Se a análise do FMI sobre os desequilíbrios globais não for pautada pelo equilíbrio, se não identificar os EUA como principal réu e se não canalizar as suas atenções para a necessidade de os EUA reduzirem os seus défices orçamentais, o século XXI será testemunha do inevitável declínio do FMI.


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E se o dólar desvalorizar?


Samuel Brittan



Se a desvalorização do dólar é inevitável, é do interesse de todos que o ‘crash’ aconteça quanto antes. E porquê? Porque evitaria retaliações.

Segundo o Banco Internacional de Pagamentos, os preços das acções têm vindo a descer e os preços das matérias-primas estão cada vez mais voláteis. E isto não se deve aos receios em torno da subida da inflação ou dos preços das taxas de juro, deve-se sim ao nervosismo que hoje grassa entre os detentores de activos de risco, em especial os directamente ligados a acções e obrigações dos mercados emergentes. O Banco Central Europeu (BCE) volta a apontar, no seu Relatório de Estabilidade Financeira de Junho, ”os desequilíbrios financeiros globais” como principal fonte de risco e vulnerabilidade – uma observação que traz implícita a queda do dólar.

Quando me sugeriram que analisasse as implicações globais de uma forte depreciação do dólar, ocorreu-me que há uma grande diferença entre as consequências de tal cenário e a previsão da sua ocorrência. Em vez de consultarmos a bola de cristal, talvez seja melhor ponderar sobre os riscos inerentes e as políticas a adoptar para debelar a situação.

Tomemos uma depreciação do dólar na ordem dos 20% durante várias semanas. Inicialmente, esta queda afectaria particularmente o euro, no entanto, uma desvalorização tão drástica do valor externo do dólar deveria, antes de mais, levar os governos asiáticos a pôr termo à acumulação de activos e a proceder à sua alienação.

Mas mais importante são as circunstâncias em que este ‘crash’ pode ocorrer. Pessoalmente, tenho mantido um certo cepticismo face ao discurso sobre os desequilíbrios internacionais e respectivas panaceias. E explico porquê. Porque uma desaceleração no mercado imobiliário dos EUA resultaria num forte revés para o poder de compra dos consumidores norte-americanos, que resultaria, por sua vez, numa acentuada depreciação do dólar. Neste contexto, a Reserva Federal norte-americana teria, forçosamente, de alterar a actual política, aumentando gradualmente as taxas de juro de curto prazo. Em suma, tanto as perspectivas económicas imediatas como o comportamento dos diferenciais das taxas de juro internacionais seriam pessimistas para o dólar. O mercado obrigacionista entraria em queda e as taxas de juro reais e nominais de longo prazo tenderiam a subir, abrindo caminho a uma nova recessão.

Os resultados da economia norte-americana não têm, necessariamente, de ser adversos. A prova é que nem a debilidade da economia nacional – no fundo, o verdadeiro cerne do problema – a impede de manter um crescimento médio anual de 3% a 4%. A gravidade da situação dependeria, acima de tudo, dos desenvolvimentos no resto do mundo. Os optimistas esperam que este cenário sirva de estímulo à procura na zona euro e nos países asiáticos, enquanto os pessimistas receiam que os líderes europeus – como Jacques Chirac – possam retaliar reforçando as barreiras proteccionistas, desvalorizando a competitividade ou introduzindo taxas danosas nos movimentos internacionais de capital.

Segundo previsões do Fundo Monetário Internacional e da OCDE, este cenário terá provavelmente lugar durante um período de crescimento económico no resto do mundo. A verificar-se, não haveria consequências de maior caso a Europa e a Ásia falhassem a implementação de medidas de estímulo à procura interna. Melhor, uma ligeira inflexão nos EUA poderia, até, revelar-se bastante benéfica.

Se a desvalorização do dólar é inevitável, é do interesse de todos que o ‘crash’ aconteça o quanto antes. E porquê? Porque evitaria retaliações e leituras perversas dos governos europeus e asiáticos, dada a actual vaga de crescimento. Todavia, isto não basta para satisfazer o apetite dos mais pessimistas. Vamos supor que o preço do petróleo dispara para os 100 dólares ou mais por barril. Nesse caso, os bancos centrais teriam de controlar a procura independentemente do aumento da capacidade industrial e dos escassos indícios de pleno emprego. E os EUA seriam, obviamente, os mais afectados, na medida em que as suas importações energéticas são mais elevadas por cada dólar face ao PIB do que noutros países industrializados.

O pior cenário vai, contudo, além das teorias económicas convencionais e pode perfeitamente ser desencadeado com o encerramento do Estreito de Ormuz. Em vez de uma frente económica, passaríamos a ter duas outras frentes – a militar e a diplomática. A acontecer, o dólar seria a menor das nossas preocupações. Crises semelhantes no passado ensinaram-nos que, num cenário destes, se dá primazia a activos imobiliários, a reservas em ouro ou jóias em detrimento dos activos monetários. Mas não há dúvida de que o dólar sofreria muito mais do que o euro e a libra esterlina.

A pergunta que coloco é: conseguirá o Congresso norte-americano aplicar medidas orçamentais eficazes que lhe permitam agir em vez de reagir aos acontecimentos?


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Um pouco de ‘sex appeal’

Atenção ao que dizem os políticos portugueses quando se escudam nos interesses nacionais. Nisso são muito parecidos com os espanhóis.

Quando ouço um político falar nos interesses nacionais, tenho o hábito de me virar para ver se está alguém nas minhas costas, mas nunca vejo ninguém. O meu cunhado, que é assumidamente de esquerda, tem saudades das grandes empresas públicas porque, segundo diz, são elas os verdadeiros representantes dos interesses nacionais por serem de todos. ”Bons tempos aqueles em que a Telefónica era uma empresa pública”, desabafou um dia destes. Ao que retorqui, perguntando: ”Já pensaste que a Telefónica praticava preços mais altos que os actuais e prestava um mau serviço?”. Não vale a pena, não consigo convencê-lo do contrário.
Felizmente, já são raros os defensores da empresa pública, todavia, há muitos que julgam saber – e com certezas absolutas – em que consiste o interesse nacional e que metem mãos à obra nesse sentido. Em Espanha, por exemplo, o governo socialista aprovou a OPA da Gas Natural sobre a Endesa apesar do parecer negativo do Tribunal da Concorrência espanhol. E fê-lo sob a bandeira do interesse nacional e da liberdade empresarial. Como é óbvio, nenhum espanhol acreditou na honestidade de tais argumentos, antes ficou ciente da contaminação política, isto é, do interesse do governo em apadrinhar a operação, ainda que por razões espúrias.

Pessoalmente, considero a liberdade empresarial um princípio sagrado. As empresas têm o direito ”bíblico” de crescer e de se multiplicar desde que respeitem as regras do jogo e, acima de tudo, as leis da concorrência para que daí não resultem abusos de mercado em claro prejuízo dos consumidores. Ora, o Tribunal da Concorrência vetou a compra da Endesa pela Gás Natural precisamente pela concentração resultante poder assumir a forma de monopólio e este vir a traduzir-se num poder excessivo para os clientes. O facto de o governo ter ignorado o veredicto do tribunal apenas põe em causa o prestígio da entidade reguladora. Creio que o mesmo aconteceu em Portugal com a fusão da Brisa e da Auto-Estradas do Atlântico, depois de o ministro da Economia, Manuel Pinho, ter desautorizado a Autoridade da Concorrência.

Li argumentos vários a favor da decisão do governo, que alegavam excesso de zelo da parte da Autoridade, inexperiência e pouco tempo de vida. E como Portugal é um país pequeno, os critérios têm forçosamente de ser diferentes. De todas as razões invocadas, esta – a mais recorrente – é obviamente a mais condenável. Quando se permite que a dimensão global de um país condicione os critérios e dite as regras da concorrência, só podemos chegar a uma conclusão: a filosofia desta política estrutural ainda não foi totalmente assimilada.

Importa dizer que em termos de dimensão física a Irlanda é mais pequena que Portugal, não obstante o respectivo PIB corresponder ao dobro do produto português. O seu desempenho não se deve apenas à proximidade com o Reino Unido. Deve-se também ao facto de ser a ”antecâmara” do investimento norte-americano na Europa e de os últimos governos terem adoptado políticas públicas idóneas, conformes aos pareceres do Tribunal da Concorrência nacional.

Parece-me que esta é uma regra elementar para um país que se quer sério e com ‘sex appeal’: a de fomentar o mais possível o prestígio das suas instituições, apoiando em particular as mais ”jovens” e com menos experiência. Creio igualmente que é fundamental resistir à tentação de estimular a produção ‘in vitro’ de ”campeões nacionais”, nomeadamente por parte do poder político, visto ser uma opção especialmente patética quanto mais pequeno for o país em questão. Mas é bom dizer que esta doença não é apanágio de Portugal. É uma epidemia geral que também afecta Espanha, onde se acredita piamente que a compra da Endesa pela Gas Natural nos tornará mais fortes. Mais fortes em relação a quê?

Pessoalmente, agradam-me mais as empresas cuja consolidação resulta do seu próprio progresso ou crescimento – diz-nos a experiência que assim é quando há perspicácia, visão, tenacidade e boa gestão –, mas aceito que empresas com forte poder de mercado num dado país possam crescer em mercados estrangeiros. O conflito surge quando acumulam demasiado poder num único mercado e sobre a mesma base de clientes – como acredito que tenha sido o caso da Brisa.

Mas atenção ao que dizem os políticos portugueses quando se escudam nos interesses nacionais, os colocam num altar e lhe cravam a bandeira. Nisso são muito parecidos com os espanhóis.


publicado por psylva às 14:13
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Perigo: chefia tóxica!

Em todas as facetas da vida existem emoções positivas e negativas. As organizações não constituem excepção. O problema de tais emoções não advém portanto da sua existência, mas da forma como são ou não geridas. Uma expressão de língua inglesa ajuda a perceber o alcance construtivo das emoções negativas: No pain, no gain. Ou seja, a privação e o sofrimento podem ser um factor de amadurecimento e de desenvolvimento. No entanto, para que a relação entre dor e crescimento seja construtiva é necessário que as "dores de crescimento" sejam acompanhadas de esperança, de autoconfiança e da noção de que o objectivo a alcançar (por exemplo, uma mudança difícil, uma fusão com um anterior concorrente) é digno do esforço e das dificuldades que é necessário atravessar.

Lamentavelmente, as emoções negativas são frequentemente acompanhadas de incerteza, de negrume, de pessimismo de medo. Quando tal sucede, a emoção não é construtiva e o sofrimento não gera ganhos de crescimento pessoal. As toxinas, em vez de serem excretadas, vão-se acumulando até tornarem a organização tóxica. Um dos modos mais profícuos de compreender a toxicidade organizacional foi preconizado por Peter Frost, um investigador canadiano recentemente falecido. Frost identificou sete formas de toxicidade, a maioria delas associada ao comportamento das chefias: intencionalidade, incompetência, infidelidade, insensibilidade, intrusão, indutores institucionais e inevitabilidade. Distinguindo estas formas de toxicidade:

Fonte da intencionalidade - explanação: os superiores provocam deliberadamente o sofrimento dos colaboradores; exemplo de comportamentos e ocorrências: o líder ridiculariza, critica em público, ameaça, persegue.

Fonte da incompetência - explanação: os gestores denotam fraca inteligência emocional; exemplo de comportamentos e ocorrências: as promoções são feitas com base em critérios meramente "técnicos", sendo descuradas as capacidades de liderança e de gestão de equipas.

Fonte da infidelidade - explanação: os superiores traem a confiança dos subordinados; exemplo de comportamentos e ocorrências: a confidencialidade é violada, as promessas são quebradas.

Fonte da insensibilidade - explanação: os superiores não compreendem o alcance emocional dos seus comportamentos sobre os colaboradores e são insensíveis aos efeitos dos seus actos sobre as pessoas; exemplo de comportamentos e ocorrências: o impacto emocional das decisões não é considerado e espera-se que os trabalhadores deixem as emoções à entrada da empresa.

Fonte da intrusão - explanação: os superiores fazem microgestão e denotam uma tendência para o controlo total e exacerbado; exemplo de comportamentos e ocorrências: os chefes orientam-se para a gestão dos mais ínfimos e secundários pormenores e não é concedida autonomia aos colaboradores.

Indutores institucionais - explanação: as políticas e as normas organizacionais são inadequadas às realidades, aos problemas e às características dos colaboradores. exemplo de comportamentos e ocorrências: as normas introduzem sentimentos de insatisfação ou injustiça e a norma geral não é adequada para o caso particular.

Fonte da inevitabilidade - explanação: algumas causas de problemas, de toxicidade e de sofrimento estão fora do controlo dos decisores organizacionais, são inevitáveis, mas algumas organizações e chefias levam esta "inevitabilidade" ao extremo ou tomam-na mesmo como uma "vantagem" para os negócios; exemplo de comportamentos e ocorrências: morte de um chefe querido, catástrofe humana, incêndio, desastre, falência de um grande cliente, insucesso rotundo de um novo produto.

A toxicidade assim gerada tem consequências perversas sobre as organizações, as equipas, o desempenho, os colaboradores, as suas famílias e a própria sociedade. Suscita ambientes de desconfiança e de cinismo. Produz aumentos do absentismo, incrementa os abandonos da organização, induz actos de sabotagem, decresce a motivação e o desempenho dos colaboradores. Provoca problemas de saúde e bem- -estar aos seus membros da organização e aos respectivos familiares. Induz o aparecimento de comunidades humanas onde imperam o stress e as consequentes maleitas físicas e psicológicas. Induz, na sociedade, concepções cínicas acerca das organizações e da vida social.

A criação de ambientes salubres, marcados pela perseguição da justiça e do sentido de comunidade, está na origem de organizações de cidadãos, nas quais imperam contributos voluntários para a me- lhoria do sistema e onde a confiança prevalece sobre o cinismo. Como a construção do tipo de ambiente em que se vive e trabalha depende exclusivamente das escolhas individuais, particularmente das escolhas das chefias, tanto a toxicidade como a cidadania são caminhos abertos àqueles que depois os vão trilhar. C

Bibliografia: Frost, P. J. (2003). Toxic Emotions at Work. Boston, MA: Harvard Business School Press.


publicado por psylva às 14:03
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Flexibilidade no trabalho = precariedade?
Será a flexibilidade de recursos humanos um sinónimo de precariedade dos contratos de trabalho e, portanto, um atentado aos direitos dos trabalhadores?

Esta é uma visão incompleta da realidade das empresas! É verdade que a utilização de contratos temporários é uma das práticas flexíveis de trabalho, mas a chamada flexibilidade dos recursos humanos vai muito para além dela e as consequências para as pessoas envolvidas não são apenas negativas. Por exemplo, a utilização de contratos temporários pode ser considerada como um método de triagem de candidatos a lugares de contratação permanente, ou ainda como um meio de ajustar níveis de emprego às flutuações da procura, evitando despedimentos ou falências, com as respectivas consequências sociais.

A incerteza, associada à globalização e à evolução tecnológica, faz com que as empresas procurem introduzir flexibilidade, para melhor responder às ameaças externas, corrigir erros passados e preparar-se para oportunidades futuras. As práticas flexíveis de recursos humanos visam a adaptação da organização às incertezas do futuro e podem variar desde a subcontratação até ao desenvolvimento de competências dos empregados.

Consideremos então três tipos de flexibilidade da gestão de recursos humanos:

- A flexibilidade numérica permite que a organização altere o seu número de empregados, consoante as flutuações de curto prazo da procura dos seus produtos ou serviços. É particularmente útil nos países com uma legislação laboral restritiva dos despedimentos, como Portugal, onde os contratos temporários, por exemplo, são típicos na entrada de jovens no mercado de trabalho. São opções de adiamento da decisão de contratação. Mas também se aplica aos interesses específicos de certos segmentos da população activa, como, por exemplo, jovens mães, que poderão ter interesse na flexibilidade temporal, pouco utilizada em Portugal, através de contratos de part-time, ou de horários flexíveis.

- A flexibilidade financeira permite que os custos salariais variem consoante a performance organizacional e individual. Os custos de compensação podem assim ajustar-se às flutuações da rentabilidade organizacional. Além disso, a compensação variável pode reflectir uma política de meritocracia e, portanto, ter um papel fun- damental na motivação dos empregados e gestores. Estando já associada à performance financeira da empresa, a compensação variável reduz a probabilidade de recurso ao downsizing, funcionando como contraponto à flexibilidade numérica.

- Um terceiro tipo de flexibilidade de recursos humanos, a flexibilidade funcional, consiste no desenvolvimento das competências dos empregados, permitindo- -lhes assumir uma maior variedade de tarefas, podendo mesmo cruzar funções. Esta flexibilidade traz grandes vantagens para as organizações, em termos de redução de custos com o trabalho e aumento da produtividade, mas também para os trabalhadores, aumentando o seu valor no mercado de trabalho e a sua empregabilidade. É por isso mesmo um investimento com significativo impacto positivo, para as empresas e para os trabalhadores. Por alguma razão as estratégias de "aprendizagem ao longo da vida" são tão populares, particularmente na União Europeia.

Em resumo, em ambientes de incerteza, a capacidade de alterar decisões e investimento à medida que se tem mais informação, ajuda a reduzir o risco. Os trabalhos de investigação empírica sobre opções reais têm demonstrado o valor que esta flexibilidade possui para as organizações. A gestão de recursos humanos tem ferramentas para aumentar o grau de flexibilidade organizacional, com opções de adiamento ou faseamento de investimentos em recursos humanos (flexibilidade numérica e financeira) ou com opções de aprendizagem (flexibilidade funcional).

Alguma tensão existe entre a flexibilidade numérica, num extremo e a funcional no outro, ou seja, entre a crescente precariedade contratual e a necessidade de empenhamento e comprometimento com os objectivos organizacionais. Mas a necessidade de compatibilização dos vários tipos de flexibilidade interna é inevitável. E tem consequências para as empresas, os gestores e os trabalhadores. Para estes últimos, o impacto não tem que ser apenas, e necessariamente, negativo! C

Mais informação sobre o o assunto:

Cunha, R. C. (2006) Flexibilidade dos Recursos Humanos, in J. Gomes, M. P. Cunha e A. Rego (Eds.), 21 Temas e Debates para o Séc. XXI, RH Editora, 289-300.

Pfeffer, J. (1994) Competitive Advantage through People, California Management Review, 36: 9-28.


publicado por psylva às 14:02
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Dimensão e poder de mercado


Luís Cabral



A visão simplista indica que, quanto maior for a dimensão, maior o poder de mercado. Mas as coisas não são assim tão simples.

A relação entre dimensão e poder de mercado é frequentemente fonte de confusão. A visão simplista indica que, quanto maior for a dimensão, maior o poder de mercado. Mas as coisas não são assim tão simples.

Há alguns dias, um comentador invocava o exemplo americano como sinal de que a consolidação da banca é um fenómeno inevitável e desejável. De facto, ao longo das últimas décadas, a banca americana passou por um marcado processo de concentração. Algumas das fusões representam valores várias vezes superiores ao que se vê em Portugal.

No entanto, apesar do significativo processo de concentração nos Estados Unidos, o poder de mercado, nomeadamente ao nível do retalho, não sofreu grande alteração. A Secção de Antitrust do Departamento de Justiça – para o efeito a entidade correspondente à Autoridade da Concorrência – garantiu que, caso a caso, o grau de concorrência em cada mercado não fosse comprometido. Por exemplo, se o Bank of America (com balcões na costa Oeste) se une ao Fleet Bank (com balcões na costa Este), é pouco provável que se dê um aumento significativo de poder de mercado.

A compra da Autoestrade pela Albertis é outro caso semelhante. Embora a fusão crie a maior empresa de exploração de auto-estradas, é pouco provável que os consumidores sofram muito com o a criação da mega-empresa.

Do ponto de vista da política de concorrência, o que importa é o grau em que a fusão aumenta a concentração das quotas de mercado em mercados concretos. Para este efeito, a definição de mercado leva em conta o grau de substituabilidade entre os produtos ou serviços em questão. Por exemplo, as auto-estradas em Itália não são um substituto para as auto-estradas em Espanha. De igual forma, os balcões bancários na Califórnia são fracos substitutos para os balcões bancários no Massachusetts. Logo, o mercado da Autoestrade é diferente do mercado da Albertis, tal como o mercado do Bank of America era diferente do mercado do Fleet Bank (no que respeita à banca de retalho). Por maiores que as fusões sejam, de um ponto de vista de acréscimo de poder de mercado o efeito é mínimo ou mesmo nulo.

Resumindo, é perfeitamente possível ter grandes empresas com pouco poder de mercado e pequenas empresas com muito poder de mercado. De igual modo, há grandes fusões que pouco afectam o poder de mercado e pequenas fusões que aumentam muito o poder de mercado. Tudo é relativo.

E as comparações internacionais devem ser feitas com cautela.


publicado por psylva às 14:01
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Carrilho ganhou


Domingos Amaral



Carrilho lembra Octávio Machado, um treinador que, sempre que perdia, justificava a derrota com tremendas conspirações contra ele.

Infelizmente para todos os jornalistas, Manuel Maria Carrilho saiu vencedor da grande ofensiva que lançou contra eles. Mesmo tendo cometido um verdadeiro ‘hara-kiri’ político, e provavelmente colocado um ponto final na sua carreira política, Carrilho conseguiu arrastar consigo a imagem dos jornalistas, conseguiu poluí-la o suficiente para os descredibilizar na praça pública, minando a confiança que a população tem neles, e reavivando os preconceitos que sempre existiram contra os jornalistas.

Na verdade, desde o dia em que se começou a falar no livro de Carrilho, que os jornalistas caíram na armadilha. O livro era uma cilada, uma emboscada à má fila, passada num desfiladeiro rochoso e poeirento do velho Oeste, e os jornalistas caíram como patos, cercados e atarantados com as balas sujas que lhes eram dirigidas. Desde o primeiro dia que Carrilho conseguiu colocar a discussão onde lhe interessava, na suposta manipulação mediática de que foi vítima, desviando assim as atenções das razões políticas da sua derrota. Nas últimas semanas, não se discutiu que a derrota de Carrilho começou quando o PS não aceitou as condições do PCP para fazer uma coligação em Lisboa. Só isso, a mera aritmética eleitoral, retirava a Carrilho muitas das possibilidades de vitória. Sem coligação, era quase impossível a qualquer candidato do PS, Carrilho ou outro qualquer, vencer as eleições. Uns anos antes, Santana Lopes vencera sozinho contra o PS e o PCP coligados e liderados por João Soares, e isso deveria ter levado o PS e o PCP à reflexão. No entanto, as comadres zangaram-se, e foi aí que Carrilho começou a perder as eleições.

Contudo, e mesmo sem coligação, Carrilho ainda tinha hipóteses. Estava a lutar contra um candidato sem especial carisma – Carmona Rodrigues – e tinha um tremendo trunfo na mão, a péssima impressão que Santana Lopes causara. Poucos são os que recebem bónus destes antes de eleições, mas mesmo assim a campanha de Carrilho dispersou-se, em ideias e polémicas, em vez de se focar no essencial, que era mostrar as lisboetas que depois do caos podia vir uma certa tranquilidade.

Por outro lado, e nunca consegui perceber porquê, a campanha de Carrilho desperdiçou a poderosa arma chamada Bárbara Guimarães. Muito poucos políticos são casados com mulheres tão bonitas e tão populares como ela, e no entanto, por pura inabilidade da campanha, aquilo que devia ser um activo transformou-se rapidamente num passivo, e Carrilho nunca conseguiu transferir para si a simpatia popular que Bárbara Guimarães garantia. O célebre vídeo só teve a recepção que teve porque parecia “arma de propaganda”, inesperada e desesperada, quando devia ter sido recebido com total naturalidade.

A incapacidade política demonstrada por Carrilho gerou um enorme mal estar no candidato e no PS, e obviamente transmitiu-se à imprensa. Pouco a pouco, a campanha foi ficando minada por pequenos episódios, impressões, erros, e começou a cheirar a derrota muito antes de chegar ao fim. Todos os maus tratos de que Carrilho se queixa só se tornaram dolorosos porque o carro já ia desgovernado pela ribanceira abaixo. Quando começa a cheirar a derrota, tudo se torna penoso.

No futebol, as coisas são parecidas. Carrilho lembra Octávio Machado, aquele treinador que, sempre que perdia, odiava o mundo e justificava a derrota com tremendas conspirações contra ele, do sistema, dos árbitros, dos empresários. Agora são as “agências de comunicação”, os ‘opinion makers’, os “jornalistas avençados” mas o espectáculo é o mesmo.

Contudo, ao transformar-se numa espectacular vítima que está disposta a agredir tudo e todos, Carrilho conseguiu encurralar os jornalistas, que se viram na obrigação de o contestar, caso a caso, e ele arrastou-os para a lama com ele. Ninguém gosta de perder, e para não perder sozinho, Carrilho perde acompanhado. Os jornalistas não perceberam que não se pode discutir com a raiva, pois ela é uma emoção sempre mais forte que a razão. Carrilho não tinha razão, nunca teve, mas tinha raiva e isso chegou.
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