Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006
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As esquerdas anti-semitas




Assiste-se a um inacreditável branqueamento do terrorismo. Logo a seguir ao 11 de Setembro, as esquerdas pós-soviéticas esfalfaram-se a explicar o baixíssimo nível de desenvolvimento das sociedades onde campeia o fanatismo islâmico, o que, como não podia deixar de ser, era da responsabilidade do Ocidente

Disseram lamentar a chacina mas no íntimo rejubilaram. O poderio norte-americano, a democracia representativa, a civilização ocidental, tudo isso era posto em causa por uma horda suicida. Não faltaram os malabarismos intelectuais repugnantemente apologéticos.

No conflito palestiniano, os pós-soviéticos não se impressionam com a perda de vidas civis causada pelo terrorismo em Israel (e ainda menos com os sucessivos genocídios que têm vitimado milhões de seres humanos em África).

É característica do terrorismo a componente civil da acção violenta e a sua ocultação na sociedade, para tentar impedir uma repressão ou para engendrar dramáticos argumentos invocando as vítimas civis quando ela ocorre, porque tudo se faz para que assim seja.

É verdade que, da parte de Israel, há excessos condenáveis nessa repressão. Mas os pós-soviéticos descontextualizam tudo. Não perdoam a Israel que seja um Estado de Direito e lute firmemente pela sobrevivência. Escamoteiam sempre os termos periclitantes dessa sobrevivência. Omitem que, desde há décadas, se deve ao mundo árabe uma tremenda sucessão de ataques, tanto militares como terroristas, com vista à aniquilação de Israel, e que os radicais islâmicos e palestinianos nunca aceitarão a existência do estado judeu.

Nunca lhes fizeram mossa as actividades do Hamas e do Hezbollah, nem o não desarmamento deste no Líbano (contrariando a decisão da ONU), nem a colaboração da Síria e do Irão no sustento logístico e na operacionalidade da organização.

Não se preocupam com o facto de o Hezbollah não bombardear unidades militares, mas sim as populações. Aí, calam-se circunspectamente.

Formalistas sempre que lhes convém, angelizam o terrorismo. Exaltam o processo das eleições na Palestina, mas não falam na responsabilidade do eleitorado que colocou um grupo terrorista no poder, nas relações desse grupo com o Hezbollah, a Síria e o Irão, nos propósitos explícitos e irrenunciados da fundação do Hezbollah e do Hamas para o extermínio de Israel, na impossibilidade de tomar a sério as suas propostas. Ainda no sábado era noticiado que o Hamas tinha proposto, quanto a Gaza, um cessar-fogo condicionado, mas que dois grupos militares o não aceitavam…

Francisco José Viegas resume lapidarmente a posição dos pós-soviéticos: "Sim, dois estados soberanos. Desde que 1) Israel esteja disponível para ser alvo permanente do Hamas e do Hezzbollah e, 2) que o outro Estado soberano seja uma plataforma para que outros Estados soberanos ataquem Israel sempre que quiserem".

Na sua batota totalitária, desceram tão baixo que até já nem acham que a religião seja o ópio do povo! Tudo serve, desde que aponte a Israel e aos EUA. Nesse caso, centenas ou milhares de mortos já não têm importância nenhuma.

Criticam a UE pela sua passividade, quando se alguma crítica há a fazer-lhe é a de ela ter andado a alimentar, pela ajuda humanitária, algumas das molas reais do conflito e algumas das corrupções mais devastadoras de que há memória na Palestina.

E nutrem um ódio étnico e torpe contra os judeus. Lenine falava na "canalha bundista" e entusiasmou-se com a teorização de Estaline sobre o Bund judaico fundado em 1897.

A acção de Estaline culminou numa repressão feroz contra os Judeus, considerados "o inimigo principal" a seguir a 1945, já depois de conhecido o genocídio nazi. Laurent Rucker fala no seu "anti-semitismo obsessivo" e Pierre-André Taguieff destaca o fenómeno paradoxal e soviético que levava à prática do anti-semitismo e, ao mesmo tempo, à denúncia deste e do racismo…

A absoluta falta de escrúpulos do sinistro ditador levou-o a apoiar a fundação de Israel em 1948. Não por ter mudado subitamente de ideias, mas para desestabilizar a Inglaterra e os EUA, colhendo dividendos para a URSS pela perturbação que contava provocar no mundo árabe. Mas, em 1951, já acusava Israel de conluio com o imperialismo.

Os pós-soviéticos, que nem sequer criticam o negacionismo dos nazis iranianos, mantiveram-se reverentemente impregnados até à medula desse anti-semitismo atávico. Mas indignam-se virtuosamente contra o racismo e a xenofobia.


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Expansão democrática

Com George W. Bush e o 11 de Setembro de 2001, a visão expansiva da democracia ganhou novo fôlego. Mas mudou também na sua natureza.

João Cardoso Rosas

A democracia liberal expandiu-se extraordinariamente no mundo desde meados dos anos setenta. Samuel Huntington popularizou este processo com a ideia de uma “vaga” de democratização, iniciada em Portugal em Abril de 1974 e potenciada pela queda do muro de Berlim em 1989. No final do século, o optimismo quanto à democratização da generalidade dos países do nosso mundo tornou-se predominante no Ocidente e passou a ocupar um papel central na política externa dos Estados Unidos.

A mudança foi particularmente visível durante a presidência de Bill Clinton. Este tinha a enorme vantagem de ser um político atento à esfera internacional e pouco dado a fechamentos ideológicos. Por isso favoreceu a expansão da democracia, mas com as devidas cautelas, especialmente no Médio-Oriente.

Com a presidência de George W. Bush e o 11 de Setembro de 2001, a visão expansiva da democracia ganhou novo fôlego. Mas mudou também na sua natureza. Tornou-se mais ideológica e dogmática.

Muito se falou na influência do neoconservadorismo. Este tem – ou tinha, uma vez que está morto e enterrado – a ideia de que cabia aos Estados Unidos andar pelo mundo a derrubar todos os regimes não democráticos, a que os neoconservadores chamavam, com típica falta de rigor, “fascistas”. É a partir deste enquadramento ideológico neoconservador que se entende o plano para democratizar o Médio-Oriente a partir da invasão e subsequente democratização do Iraque.

Como é sabido, as coisas não correram bem. Embora os neoconservadores tendam a dizer que o erro não esteve no plano, mas na sua execução, há muito que se tornou óbvio que o próprio plano tinha pés de barro. Todos conhecemos as suas consequências: o Iraque mergulhou no caos, os movimentos terroristas ficaram reforçados aos olhos do mundo muçulmano, o Irão tornou-se mais agressivo, as teocracias árabes continuaram no poder, o Hamas ganhou as eleições na Autoridade Nacional Palestiniana, o Hezbollah reforçou-se no sul do Líbano, e por aí adiante. Assim chegámos à crise actual. Ela mostra-nos que, no Médio-Oriente, as coisas continuam a ser aquilo que eram, mas de um modo agravado.

Apesar das limitações inerentes ao seu carácter étnico, o Estado de Israel permanece como a única democracia liberal na região. A ideia de um novo Médio-Oriente, retoricamente repetida ainda esta semana pela Secretária de Estado norte-americana, não passa de uma miragem.

Do ponto de vista da expansão da democracia, portanto, o mínimo que se pode dizer é que o plano neoconservador e a acção da administração Bush falhou com estrondo e com dor. A ‘hybris’ democratizante, pelo menos no Médio-Oriente, parece ter incendiado tudo aquilo em que tocou. Talvez porque esqueceu o velho princípio de auto-ajuda de Stuart Mill: não se pode democratizar um povo contra a sua vontade. Ou ainda porque esqueceu que o essencial num regime democrático é o respeito pelos direitos fundamentais e não a realização de eleições competitivas. Ou seja, o essencial da democracia é o seu fundamento liberal, pacientemente construído, e não a rápida implantação dos mecanismos eleitorais que permitem a selecção de quem ocupa o poder.

Diante do falhanço, há várias atitudes possíveis. A primeira é a daqueles que, à direita e à esquerda, tudo aproveitam para alimentar o seu anti-americanismo primário (e, já agora, o anti-semitismo). A segunda é a dos que preferem a visão dita realista, mais favorável a deixar correr e a permitir que “eles se matem uns aos outros”. Nenhuma destas atitudes é racional ou convincente. Ao prescindirem do ideal democrático diante do falhanço de uma estratégia específica, ambas deitam fora a criança com a água do banho.

Assim, é talvez o momento de recordar que a democracia liberal é e continuará a ser o melhor regime. Ela é aquele regime que permite o respeito pelos direitos fundamentais de cada indivíduo e a substituição dos governantes sem derramamento de sangue. A democracia liberal é o enquadramento que permite a uma sociedade viver em liberdade e em paz com as outras democracias e, se a governação não for demasiado má, prosperar economicamente.

A ideia de que devemos desejar para os outros aquilo que temos de melhor para nós mesmos deve levar-nos a favorecer a expansão da democracia liberal no mundo. Mas não nos deve conduzir à ‘hybris’ democrática, potenciada pelo neoconservadorismo ou por qualquer outra visão ideológica mal alinhavada. A expansão da democracia passa sempre pelo exemplo dos Estados democráticos e pelo apoio aos democratas onde quer que eles estejam. Mas não é possível fazer democratas à força e à pressa.


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Impostos podem salvar a Terra

Vivemos num mundo onde a procura de recursos energéticos não pára de aumentar, e, acima de tudo, onde não existe uma estratégia eficiente.

Martin Wolf

Como podemos enfrentar os riscos das mudanças climáticas resultantes da actividade humana? A doutrina divide-se, pelo que uns respondem “nada”, enquanto outros se mostram peremptórios: “prescindam dos combustíveis fósseis”. Aqueles consideram as alterações climáticas um embuste, estes a única causa digna de interesse. Pessoalmente, nenhum destes extremos me seduz. Devemos actuar, mas temos primeiro de saber como e até onde podemos ir.

A adaptação deve, pois, ser a essência da nossa resposta. Lembro, a propósito, que as concentrações atmosféricas de CO2 já dispararam de 280 partes por milhão (ppm) antes da Revolução Industrial para 380 ppm na actualidade. Para evitar novos aumentos, é essencial que as emissões decresçam para 60% o quanto antes. Todavia, as probabilidades de persuadir a Humanidade a reduzir o consumo de combustíveis fósseis são praticamente nulas, especialmente quando milhares de milhões de seres humanos anseiam ter o conforto energético dos chamados países desenvolvidos. E não podemos esquecer que existem jazidas de carvão suficientes para provocar um novo aumento do consumo caso o petróleo ou o gás falhem. A resposta pode, assim, passar por reduzir a intensidade energética da economia, por substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis e por capturar e reter emissões. Um estudo recente de Klaus Lackner e Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, explica que se o uso de energia registar um decréscimo anual de 1,5% por unidade de produção, a procura mundial de energia primária pode vir a crescer 2,8 vezes até 2050 e 4,3 vezes até 2100. Sumariamente, trata-se de uma “experiência climática” com elevados riscos. Mas será possível impedir esta escalada ao mesmo tempo que satisfazemos a avidez energética da população mundial? A resposta é: sim, é possível, mas só até certo ponto. A Agência Internacional de Energia publicou um relatório extraordinário sobre as possibilidades tecnológicas hoje ao nosso dispor, onde realça que a redução só é possível mediante o uso eficiente da energia.

E quais serão as políticas mais adequadas para introduzir as mudanças necessárias? Antes de mais, deve contemplar três vectores: apoio e investimento em ID de tecnologias promissoras, imposição de padrões reguladores e, acima de tudo, encarecimento das emissões de carbono. As licenças de carbono são uma alternativa à última sugestão, muito embora alguns analistas defendam uma versão híbrida das duas.

William Nordhaus, professor na Universidade de Yale e um dos mais conceituados estudiosos do impacto económico das alterações climáticas, conclui que é premente substituir a emissão de licenças pela tributação das emissões de dióxido de carbono. Neste caso os países aplicariam um imposto comum, mas reteriam as receitas. Os países ricos poderiam, assim, transferir as tecnologias que permitem a redução das emissões por um preço subvencionado. A tributação nos países menos ricos seria, obviamente, inferior e não teria qualquer expressão nos países mais pobres.

Mas quais os benefícios desta abordagem? Primeiro, permite conhecer o custo marginal do carbono, torna-o previsível e relativamente uniforme em todo o mundo, ao invés de volátil como tem acontecido neste “consulado” de venda de licenças. Segundo, não seria necessário estabelecer bases de cálculo. Terceiro, poder-se-ia reduzir as transferências monetárias politicamente impopulares. Quarto, o imposto sobre o carbono permitiria reduzir a carga fiscal noutros países. Quinto, o imposto – ao contrário das licenças – reduziria a corrupção em larga escala. Sexto e último, os impostos sobre o petróleo também seriam tidos em consideração.

O grande contra, dizem, seria os impostos não respeitarem, necessariamente, as metas fixadas para as emissões. Esta é uma diferença fundamental no discurso de ambientalistas e economistas, pelo que se impõe uma análise rigorosa dos custos-benefícios passível de gerar consensos e que garanta que a luta contra o aquecimento global não vai sobrepor-se a tudo o mais, em particular ao desenvolvimento.

É sensato, porém, aplicar uma taxa social baixa com elevados benefícios na redução dos riscos provocados por situações extremas. Neste contexto, assistiríamos muito provavelmente a uma subida nos preços do carbono que, por sua vez, se traduziria num estímulo acrescido à redução de emissões. Para o prof. Nordhaus, o imposto deveria rondar os 16 dólares (13 euros) por tonelada de carbono, sujeito a aumentos progressivos. William Cline, do Institute for International Economics, com sede em Washington, defende 170 dólares por tonelada – valor que aumentaria para 600 dólares em 2100. Um imposto de 170 dólares arrecadaria globalmente 1.200 mil milhões de dólares, isto é, 3% do PIB mundial.

Mas qual é o ponto da situação? Pois bem, à laia de resumo, diga-se que vivemos num mundo onde a procura de recursos energéticos não pára de aumentar, onde a adaptação e a redução das fontes poluentes são onerosas e, acima de tudo, onde não existe uma estratégia eficiente. O Protocolo de Quioto é um gesto, não é uma política. Daí a importância de desenvolver novas tecnologias e de acordar um imposto comum. Mas conseguiremos dar este primeiro passo? Duvido.



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O número dos funcionários

Rui Ramos
Existe em Portugal uma associação cujo número exacto de membros é desconhecido, e que não se sabe se está a crescer ou a diminuir. Não é uma sociedade secreta. É o Estado português. A semana passada, o ministro das Finanças, falando no Parlamento durante o debate sobre a chamada "lei da mobilidade", revelou ao mundo profano que só a administração central empregaria o número muito detalhado de 580.291 pessoas. Falta saber quantos mais povoam os outros serviços do Estado. A publicação desses números complementares ficou prometido para esta semana. Saberemos finalmente quantos são, de facto, os empregados nas "administrações públicas"? É duvidoso. Porque, no momento em que nos era anunciado o primeiro resultado parcial da contagem de cabeças estatais, discutia-se já o resultado líquido dos movimentos de entradas e saídas de funcionários durante os primeiros seis meses deste ano, sem que ninguém concordasse acerca dos números. Segundo o Diário Económico, o número de funcionários ter-se-ia acrescentado em 10.166 entre Janeiro e Junho de 2006. O secretário de Estado da Administração Pública protestou logo. Invocou uma diminuição de 1,2 por cento da massa salarial, como "sinal de que o volume de trabalhadores está a diminuir". Esta discordância estatística mostra a dificuldade de delimitar o Estado em Portugal. Ninguém sabe, com certeza, onde começa e acaba, e se está a expandir-se ou a encolher. E basta este facto para revelar a vacuidade da política em Portugal. Sendo a redução do célebre "peso do Estado" uma das tais bandeiras que os grandes partidos do regime regularmente roubam um ao outro, conclui-se que os governos têm andado a "emagrecer" uma entidade cujo "peso", no que diz respeito ao número de funcionários, é incerto. Está assim garantida a impossibilidade de alguma vez, por esta via, avaliar com precisão a actividade reformadora deste e de qualquer governo.
O número de funcionários tem sido, no actual regime, um dos grandes temas do debate político. O mesmo já tinha acontecido durante a monarquia constitucional, na segunda metade do século XIX. A única diferença é que, há cem anos, era a esquerda quem exigia a redução dos funcionários, e a direita quem se mostrava mais benevolente para com o crescimento do Estado. A esquerda liberal e republicana do princípio do século XX ainda acreditava, em geral, na revolução por via de um "povo" autónomo e livre. Por isso, encarava o Estado, os seus funcionários e o seu exército, como um enleio a essa acção cívica e popular. A conversão da esquerda à burocracia mostra como, a pouco e pouco, o Estado foi absorvendo as esperanças de quase todos os políticos: entre os conservadores, foi sempre visto como o pilar de uma ordem que passou a contar cada vez mais com a polícia; entre os revolucionários, o Estado começou a ser imaginado como o instrumento de transformações sociais para que as quais se deixou de contar com a vontade do "povo".
Entretanto, os políticos encontraram outra utilidade para o Estado: o de gerar, enquanto empregador, a base de apoio que os líderes de vários regimes desistiram de procurar em movimentos "espontâneos" da chamada "sociedade civil". É o que sugerem os momentos em que houve maior aumento de funcionários. Entre 1919 e 1926, depois da má experiência da I Guerra Mundial (1914-1918), os republicanos tentaram consolidar o seu regime, promovendo a primeira duplicação do número de funcionários da administração central no século XX: de cerca de 16 mil para cerca de 30 mil, enquanto o número de direcções-gerais dos ministérios pulava de 22 para 39. Outra duplicação do mesmo género, num período curto, aconteceu outra vez no século XX. Foi entre 1976 e 1983, para criar bases de apoio à actual democracia: os serviços da administração central de 223 mil para 442 mil. O "número dos funcionários" não traduz apenas a expansão dos serviços públicos, mas a necessidade de criar, a partir de cima e rapidamente, as classes sociais pressupostas pelos projectos políticos de quem dominava o Estado.
Não é surpreendente que, tendo crescido assim, o Estado tenha em si próprio o objectivo da sua actividade. É o que se pode deduzir da importância das despesas com os funcionários e do tipo de trabalho desses funcionários. Segundo Medina Carreira, o Estado português é, na Europa, aquele em que os vencimentos do funcionalismo absorvem maior percentagem dos impostos (45 por cento) e o único que gasta mais em vencimentos do que em transferências sociais. Os funcionários não só consomem uma grande parte dos recursos, mas trabalham sobretudo para si próprios. Em 2004, o Conselho Coordenador do Sistema de Controlo Interno da Administração Financeira do Estado revelou que apenas 40 por cento da actividade dos funcionários consiste em serviços e assistência directa aos cidadãos e às empresas. Sessenta por cento da actividade dos funcionários não tem esses fins de utilidade social: 51 por cento é consumida em burocracia interna e 9 por cento é simplesmente supérflua. É este o segredo do Estado português. Não existe para servir a sociedade, mas constitui, em si mesmo, uma sociedade que os restantes portugueses estão obrigados a servir através dos impostos.
Aquilo a que o presente Governo tem chamado "reformas" consiste numa espécie de ovo de Colombo político. Outros governos obtiveram boas vontades expandindo o emprego público. O presente Governo aproveita o ressentimento geral contra o funcionalismo e as suas "regalias" para submeter e empobrecer os funcionários, oferecendo-lhes a manutenção dos seus postos de trabalho como contrapartida. Ganha pelos dois lados: multiplica os funcionários, ao mesmo tempo que dá ao resto do povo o gosto de assistir ao seu rebaixamento. É a receita mais esperta para manter tudo como está. Resta saber se é desta esperteza que o país precisa. Historiador


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Estamos mais europeus?

Agora, ser “chato” é bem visto. Demonstra uma consciência social apurada, uma preocupação com o bem-estar colectivo, coisas desse tipo.


Numa recente festa de 18 anos de uma sobrinha minha, e apesar dos avisos e dos pedidos de autorização à vizinhança para que fosse possível a música tocar durante a noite, pouco depois da meia noite apareceu um representante da comunidade local que explicou, sem hesitações, que era “proibido fazer barulho depois dessa hora”. Apesar dos protestos, das tentativas de sedução, dos apelos à compreensão, a representante foi irredutível e impôs o seu ultimato: “ou o fim imediato da música, ou a chegada imediata da polícia”. Perante tal cenário, a organização da festa apresentou a rendição, e calou a alta fidelidade. A festança prosseguiu sem danças, em voz baixa, para não perturbar o soninho dos vizinhos.

Esta história passou-se na Suíça, há apenas dois meses, e quando soube dela senti uma espécie de superioridade antropológica. Para mim, histórias assim eram uma confirmação do que há muito tempo pressentia: os suíços eram uma cambada de chatos. São muito organizados, o país é muito limpinho, tudo é posto em sossego, mas a verdade é que são insuportáveis de tanta ordem. Não há na Suíça aquela anarquia saudável, aquela desorganização bem disposta que existe em Portugal. Por cá, pensava eu, ninguém se lembraria de afundar uma festa de 18 anos de uma rapariga bonita. Por cá, pensava eu, as pessoas eram tolerantes. Caramba, era apenas um festa, não era uma discoteca permanente! Um dia não são dias, uma noite mal dormida não mata ninguém. Para mais, os vizinhos tinham sido convidados para aparecer, se quisessem também podiam dançar até às tantas. No entanto, suíços são suíços, e não se pode mudar a natureza dos povos, não é?

Bem, na verdade não é bem assim. Num dos últimos fins de semana, estive numa festa em Cascais. Estava tudo preparado para uma grande noitada: havia ‘dj’, colunas de som potentes, boa disposição para dar e vender. Estava uma noite quente de Julho, daquelas que apetece ficar acordado até de manhã. Porém, por volta da uma da manhã, começaram os problemas. Um vizinho mais irritadiço queixou-se, um estabelecimento local protestou, e por volta das duas da manhã apareceu mesmo a polícia local, impondo o fim imediato da música e da barulheira. Eu nem queria acreditar. Mas, pensava eu, na Suíça é que são chatos! Nós estamos em Portugal, aqui a malta gosta de divertir-se, é tolerante, não é verdade? Não somos tão boémios como os italianos, nem tão trepidantes como os brasileiros, mas caramba, não somos suíços, pois não?

Infelizmente, as coisas estão a mudar. Devagar, pé ante pé, Portugal “civiliza-se”. Os portugueses começam a querer ser mais “europeus”. Isto, é óbvio, tem coisas boas e coisas más. As pessoas andam com mais “consciência ecológica”, seja lá o que isso quer dizer. Andam também um pouco mais devagar nos carros, desde há uns tempos para cá o número de acidentes começou a baixar; as pessoas reciclam; as pessoas cospem menos para o chão; e há uma quantidade de coisas assim, velhos hábitos lusos, que vão desaparecendo para dar lugar a um país mais “europeu”, e portanto, mais “civilizado”.

Contudo, há coisas boas que se perdem. Há vinte anos atrás, ninguém parava uma festa às duas da manhã em Cascais. Simplesmente não era possível. Ninguém queria ficar mal visto, ser o “chato” de serviço. Foi isso que mudou. Agora, ser “chato” é bem visto. Demonstra uma consciência social apurada, uma preocupação com o bem-estar colectivo, coisas desse tipo. As pessoas adquiriram preocupações novas, muito “politicamente correctas”, e querem dar exemplos de “cidadania”. Isto representa uma grande mudança social, mas duvido que seja para melhor. É por essas e por outras que eu prefiro os italianos. Ao menos eles orgulham-se da desordem e em momento nenhum querem transformar-se em suíços.
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The beach-head’
Qual é o general que ao fazer um desembarque (Normandia, Yukon na guerra da Coreia, etc.) espalha as suas forças por kms e kms? Nenhum.

Jorge A. Vasconcellos e Sá

O ponto de entrada, é um conceito importante no lançamento de um produto, ou entrada numa nova área geográfica.

Na sua essência é um triplo foco: 1) de segmento/nicho; 2) de canal de distribuição; e 3) de canal de promoção. Ou seja: concentração em poucos, ou apenas um de cada um dos três.

Segmento/nicho: ao lançar-se um novo produto, p.e., para o mercado de conveniência, dever-se-á primeiro, de início, optar por um ou poucos segmentos: congelados? ou refrigerados? ou enlatados? ou em pó? ou temperatura ambiente?

Poder-se-ia aliás ir mais longe, segmentando o segmento, isto é focando num nicho: dentro dos congelados: refeições prontas ou componentes (rissóis, croquetes, etc.) ou vegetais? ou...?; dentro dos refrigerados, sanduíches, ou sopas, ou saladas, ou pastas ou sobremesas?

Há depois a concentração do canal de distribuição: institucionais (cantinas e empresas de catering) ou discounters (’hard’ ou/e ‘soft’), ou ‘supers’, ou hipers, ou gasolineiras, ou outra distribuição moderna, ou cafetarias, ou venda directa à restauração ou...?

Finalmente há o foco em termos do canal de promoção: que programas de TV? e quais na rádio? ou que revistas? ou que jornais? ou outdoors? e assim sucessivamente.

As vantagens do triplo foco são seis: primeiro, podemos penetrar onde a concorrência (directa ou semelhante não está). Segundo, dado que no início se tem menos dinheiro (depois já há ‘cashflow’), urge optimizá-lo através da concentração. A qual também é importante para ultrapassar outras quatro desvantagens: a inexistência de word of mouth; o facto da maioria dos consumidores ser aversa ao risco (a % de inovadores logo de início é pequena); mesmo os que experimentam o novo, muitas vezes “racionalizam” e regressam às compras tradicionais do passado; e ainda por vezes as novas marcas defrontam-se com outras no mercado tão enraizadas na mente do consumidor que este confunde marca com produto: Kleenex, Gillette, Aspirina, Black & Decker, etc.

É por estas razões que mesmo que se tenha muito dinheiro (o que nem sempre é o caso) é melhor concentrar num ponto de entrada, como fez a Perrier ao entrar nos EUA ficando no 1) segmento classe A; 2) com a distribuição focando exclusivamente nos restaurantes de luxo; e 3) a promoção sendo feita apenas pelos vendedores.

Os molhos Newman? Entraram no mercado pelo 1) segmento de senhoras classes A e B com gosto pela cozinha; 2) promoção nas revistas de culinária; e 3) ‘direct mail’ como distribuição (por debaixo de cada anúncio havia um coupon picotado).

Os cosméticos para homem (anti-rugas, amaciadores de pele, etc.)? Entraram como? Primeiro: classe A. Segundo: promoção através de revistas de homem (Playboy, etc.). Terceiro: distribuição directa e através dos cabeleireiros de homem.

Em síntese: qual é o general que ao fazer um desembarque (Normandia, Yukon na guerra da Coreia, etc.) espalha as suas forças por kms e kms? Nenhum. Escolhem o melhor local (mais fraco do inimigo) e concentram tudo aí.

Os gestores? Fazem frequentemente dezenas de mini-desembarques em locais (segmentos, distribuição, promoção) diversos. Donde atacam fraco onde a oposição é forte. Resultado? Colhem o que semearam: (no mínimo), sub-resultados; (frequentemente), o fracasso.


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Concorrência bancária

As comissões bancárias em Portugal são das mais altas na Europa e muitos interpretaram este facto como falta de concorrência entre os bancos.

Ricardo Reis

As comissões bancárias em Portugal têm estado sob escrutínio. Um estudo recente descobriu que estas comissões são das mais altas na Europa e muitos interpretaram este facto como indício de falta de concorrência entre os bancos em Portugal.

Os economistas preocupam-se com a falta de concorrência por várias razões. Em primeiro lugar, se os bancos estão organizados num cartel, eles vão manter os preços pelos seus serviços acima do que custa produzi-los.

Os consumidores que compram estes serviços perdem em riqueza exactamente aquilo que os bancos ganham em receitas adicionais. Esta redistribuição de riqueza dos consumidores para os bancos tem efeitos na desigualdade no país.

Em segundo lugar, com preços mais altos, menos serviços bancários são comprados. Os clientes existentes usam menos os bancos e outras pessoas deixam de ser clientes. Estes custos representam um desperdício para a sociedade; estas pessoas estariam dispostas a usar serviços bancários tendo em conta quanto custa produzi-los, mas não o fazem. Por causa das altas comissões, passam a existir pessoas que guardam o dinheiro debaixo do colchão, que trazem centenas de euros na carteira para pagar as compras e que perdem tempo e dinheiro na fila dos correios para pagar a conta da electricidade.

Os economistas referem-se a estes custos como custos de eficiência, porque eles não são uma redistribuição de alguns para outros, mas antes uma perda para toda a sociedade.

Os outros clientes dos bancos são as pessoas e empresas que recebem empréstimos. Se os bancos têm menos dinheiro nos cofres para emprestar porque exigem comissões muito altas nos depósitos, ou se cobram um preço pelos seus empréstimos em taxas de juro e comissões que é demasiado alto, há menos crédito na economia do que seria eficiente. Até ao final dos anos 70, as leis bancárias nos Estados Unidos restringiam a concorrência entre os bancos. Para além de tectos nas taxas de juro, a lei obrigava os bancos a operarem apenas num estado. Não era permitido a um banco abrir agências noutro estado, fundir-se com um banco noutro estado, ou fazer parte de uma ‘holding’ juntamente com bancos de outros estados.

Durante a década de 80 e início de 90, quase todas estas restrições foram levantadas. Um estudo descobriu que o correspondente aumento na concorrência permitiu o acesso ao crédito por parte de muitos mais empresários. O número de novas empresas aumentou em quase 12%. Alguns argumentam que este foi um dos factores importantes que permitiu o boom das novas tecnologias nos anos 90.

Uma outra consequência da falta de concorrência é que permite aos bancos distraírem-se com objectivos que não a satisfação dos seus clientes.

O corredor dos 100 metros que quer ganhar a corrida está completamente concentrado em correr o mais depressa possível; os corredores de fim-de-semana à frente da praia podem-se distrair a olhar para o mar, a falar ao telemóvel, ou a atirar lixo para o chão.

Num mercado competitivo, não há espaço para discriminar na contratação dos trabalhadores em função da sua raça ou género; não há espaço para luxos de executivos; não há espaço para salários muito acima da produtividade das pessoas.

Quem não servir o consumidor da melhor forma possível, não sobrevive num mercado competitivo.

Os economistas Sandra Black e Philip Strahan estudaram o efeito da desregulamentação do mercado bancário nos EUA nos salários dos bancários. Descobriram que os salários caíram em 6% como resultado da desregulamentação. Por sua vez, a perda para os accionistas foi cerca de 3 vezes maior.

A falta de concorrência permitia aos bancos americanos terem rendimentos excessivos, 1/4 dos quais capturados pelos trabalhadores e 3/4 pelos accionistas. Mais interessante, eles descobriram que os salários dos homens caíram 12%, enquanto os das mulheres apenas 3%. Ao mesmo tempo, a proporção das mulheres em cargos de gestão aumentou em cerca de 4%.

Num mercado competitivo, deixou de haver espaço para discriminar as mulheres pagando-lhes menos ou excluindo-as das posições de chefia.

Se em Portugal há falta de concorrência entre os bancos, não sei. Mas não tenho dúvidas que vale a pena descobrir, que vale a pena liberalizar o sector bancário, e que vale a pena fiscalizá-lo e vigiá-lo. A concorrência tem muitos benefícios.
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O profissionalismo

O trabalho é um aborrecimento, que não se deve levar muito a peito, porque tanto faz. Ora se tanto faz, faz de conta. Este é o resultado de 30 anos de social-laxismo.



O eng. Guterres iniciou funções prometendo mudar Portugal. Abandonou-as acusando os portugueses de serem pouco profissionais. Tem razão. Relativamente a alguns. Por 3 razões.

Primeiro, a tradicional atitude de alguns portugueses face ao trabalho: pouco, devagar e mal.

O trabalho é um aborrecimento, que não se deve levar muito a peito, porque tanto faz. Ora se tanto faz, faz de conta. Este é o resultado de trinta anos de social-laxismo.

Contudo, para onde os portugueses emigram (Suíça, Canadá, etc.), a atitude é a oposta. O trabalho é assunto sério, que permite proteger as nossas famílias e realizar-nos pessoalmente.

O trabalho nesses países requer quantidade (capacidade), qualidade (rigor) e pragmatismo, sendo o tempo o grande recurso escasso da vida, já que esta é uma história que no fim acaba sempre mal... Donde: procurar a solução e não o problema; criar facilidades e não levantar dificuldades. Simplificar e não complicar. Problemas, dificuldades, complicações? Até uma criança de seis anos faz. Soluções? Este é o sinal do profissionalismo. Contudo, em Portugal, muitas pessoas se reúnem contra e não com outros.

Segundo: o misturar das questões pessoais com profissionais. Advogados que por não gostarem do cliente, aceitam o seu dinheiro, mas não o defendem convenientemente. Gestores que só se esmeram com “tipos simpáticos”. Comentadores que opinam em função das suas embirrações pessoais. Ora o profissional é aquele que não deixa questões pessoais intrometerem-se na sua profissão.

Simpatias com XPTO? Fim-de-semana com ele. No trabalho, o meu amigo é o bom defesa direito e não o simpático defesa esquerdo que fez com que perdêssemos o jogo. Protegê-lo é uma desonestidade perante toda a equipa e uma desnecessidade perante ele, já que a sua vocação está noutra posição, noutra equipa ou noutro jogo. Onde seja parte da solução e não do problema.

Terceiro: o ‘lobbi’. Nos EUA tem objectivos externos (contra o aborto, as armas pessoais, etc.), os seus membros são públicos e a sede está aberta.

Em Portugal? O objectivo é interno (autopromoção). A filiação sub-reptícia. E a sede é o tráfego de influências. Há os ‘lobbis’ políticos e os outros. Mas o resultado é sempre o mesmo: sectarismo e facciosismo.

Resultado? O mercado não funciona. Falta a concorrência com base no mérito (preço e qualidade) que é preterida por “razões que a razão desconhece”. Donde, a economia de mercado é substituída pela economia de ‘lobbi’.

Resultado destes três factores em conjunto (desleixo, pessoalização e ‘lobbi’)? A meritocracia é substituída pela mediocridade. E não há plano tecnológico. Não há fundos de Bruxelas. Não há nada, que compense isto. Porque a semente só brota quando o terreno é fértil.

O amadorismo? É não só negativo perante a sociedade como uma injustiça perante Deus, já que se as nossas qualidades são prenda de Deus a nós, o que fazemos com elas, é a nossa prenda a Deus.

Até quando? Até a guerra cultural entre profissionais e amadores for vencida por aqueles. Só então Portugal progredirá. Como? Criando os incentivos (liberalização) adequados. Porquê? Porque “aquilo que se incentiva, é aquilo que se obtém” (J. Welch).


publicado por psylva às 09:25
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O que todos sabem e alguns fingem ignorar



João César das Neves
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário



Há meses que o Partido Comunista vem enchendo o País com a frase: "Público é de todos; privado é de alguns." Trata-se, sem dúvida, de um slogan elegante, apelativo e contundente. Mas que quererá significar? Considerada em si, a afirmação é claramente falsa. Será que só alguns têm acesso a comida, vestuário e habitação, cujo fornecimento é privado? E será que o Teatro Nacional de São Carlos, o Instituto Diplomático e o ensino superior público são para todos?

É possível que a frase se refira antes ao facto de, sendo os serviços do Estado mais baratos que as empresas do sector, tal permitir o acesso a todos, e não só a alguns. Mas serão mesmo mais baratos? Toda a gente sabe que a verdadeira diferença entre os organismos públicos e privados é que estes se pagam no acto da compra, enquanto os primeiros são financiadas por impostos. Assim, esses serviços são de todos, não por serem mais baratos, mas porque todos, queiram ou não, são obrigados a pagá-los.

Só que toda a gente sabe que entre nós tal não significa que sejam mesmo de todos, porque nem todos pagam impostos. Devido à forte evasão fiscal, a carga tributária descai para cima dos trabalhadores por conta de outrem. Assim, o que se deve dizer é que os serviços privados são pagos pelos clientes, enquanto os públicos são pagos pelos pobres. Em ambos os casos só alguns estão envolvidos.

Talvez a frase tenha a ver, não com esta abordagem economicista, mas antes com o propósito último das instituições. Afinal, as empresas privadas têm fins lucrativos, mas os serviços do Estado existem para servir o cidadão. Então, o que se quereria pôr em destaque seria o contraste entre a visão egoísta do mercado e solidária das repartições públicas.

Mais uma vez, porém, uma inspecção cuidadosa lança dúvidas nessa interpretação. Uma empresa, qualquer empresa, só tem sucesso e influência enquanto satisfizer os seus clientes.

Fala-se muito sobre o poder económico, sobretudo das grandes firmas, mas toda a sua autoridade vem apenas de conseguir vender. No dia em que a empresa perca essa popularidade junto dos fregueses, nesse dia deixa de existir, por muito poderosa que fosse.

Até Coca-Cola, Microsoft, Shell e outros gigantes jogam todos os dias a sua sobrevivência no mercado. Já vimos grandes potentados ruir em semanas por causa da obsolescência dos produtos ou erros de gestão.

Nenhuma empresa, por muito poderosa que julgue ser, consegue hoje existir vendendo telexes, réguas de cálculo ou iluminação a gás, que já foram bem populares. Os ministros são eleitos de quatro em quatro anos e os funcionários públicos têm empregos para a vida, mas as empresas estão diariamente sujeitas à catástrofe.

Isso tem um efeito dramático sobre a tal frase. É que as empresas privadas funcionam para servir os clientes, não por altruísmo ou simpatia, mas por regra elementar de mercado. Pelo contrário, os serviços públicos não apostam aí a sua acção. Um organismo do Estado tem êxito se mantiver alegre, não o cidadão e utente, mas o chefe de repartição, o director--geral e o ministro. A medida do seu sucesso não está na satisfação do público mas, quando muito, em regras de procedimento e índices de produtividade.

Aliás, mesmo no que toca ao egoísmo dos fins lucrativos, serão os serviços públicos assim tão desinteressados? Vendo os telejornais, temos de dizer que a principal diferença é que, enquanto a cobiça das empresas é disfarçada, a dos funcionários vem apregoada nas manifestações por mais salários e reivindicações públicas de regalias. O desprendimento anda muito omisso.

Para testar este ponto, basta fazer algumas perguntas elementares. Se o leitor fosse escriturário, professor ou motorista, onde é que preferiria trabalhar, no sector privado ou no público? Se, por outro lado, for aluno, passageiro ou doente, onde preferia ser atendido, no privado ou no público? Isto, aliás, recoloca a questão inicial. Qual é mais barato, o serviço privado, que presta contas ao fim do mês, ou o do Estado, dominado pela corporação particular? O que se assistiu em Portugal foi precisamente ao empolamento dos custos públicos, paralelo à crescente irritação dos utilizadores.

Será então que a frase não tem sentido? Não, ela diz algo muito importante.

Significa que o PCP deixou de ser um partido de utentes, que sabem bem que o público não é de todos, para passar a ser dominado pelos interesses das corporações que vivem de manter essa ilusão.


publicado por psylva às 09:25
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...
O advogado recém-formado chega contente para o pai:
- Papai, resolvi aquele caso que o senhor está tentando há mais de dez anos!
O pai dá-lhe um violento tapa e grita:
- Seu burro! É aquele caso que tem nos sustentado nos últimos dez anos!


publicado por psylva às 09:24
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