Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Empresas só mudam preços uma vez por ano

Amaior parte das empresas não revê ou aumenta os preços mais do que uma vez por ano e metade procede à revisão do "preçário" independentemente das "condições económicas prevalecentes". Na fixação dos preços, os empresários e gestores parecem ser influenciados pelos chamados "contratos implícitos" entre as suas empresas e os clientes e, em regra, demoram algum tempo a reagir a "choques da procura". Estas são as conclusões de um estudo sobre o comportamento das empresas na determinação dos preços, conduzido pelo Banco de Portugal, junto de 1370 empresas, no final de 2004. Os resultados, analisados pelo economista Fernando Martins, do departamento de estudos do banco central, são surpreendentes.

A radiografia à típica empresa a laborar em Portugal indica que o principal produto produzido ou vendido representa, em média, 80% do volume total das transacções e, para 75% das empresas, o mercado nacional é o principal destino dos seus produtos. O grosso das vendas, cerca de 84%, destina-se a outras empresas e apenas 13% do negócio é vendido directamente aos consumidores.

O "envolvimento" e o "peso" dos clientes, principalmente os "mais antigos", nos negócios das empresas, é notório: cerca de 83% das empresas nacionais apresentam uma relação de longo prazo com os seus clientes, podendo mesmo interferir com as estratégias de preços. É que este tipo de clientes absorve, em média, 75% das vendas totais das empresas. Na indústria transformadora, a classe dos "clientes antigos" chega a ser responsável por 84% das vendas.

Nas empresas em que se verifica uma relação mais duradoura com os clientes, as revisões dos preços - e eventual aumento das tabelas - são menos frequentes. De facto, a existência de "clientes antigos" parece funcionar, afirma o estudo, como uma espécie de "contrato implícito". As empresas, reagindo aos custos de prospecção de mercado, parecem procurar a lealdade dos clientes. O resultado deste "acordo informal" entre as firmas e os clientes leva a uma menor flutuação dos preços dos produtos.

O grau de concorrência é um factor que influencia a estratégia de preços das sociedades. Isto faz parte do mercado e vem nos livros escolares. No âmbito do estudo do banco central, um inquérito realizado às firmas "aponta para um grau de concorrência elevado". De facto, 56% das empresas presentes em território nacional lidam com mais de 20 concorrentes e 53% possuem uma quota de mercado inferior a 5%.

Existem mais provas de que o mercado é concorrencial. De acordo com o inquérito, a maioria dos empresários e gestores (67%) afirma que, se os preços do seu principal produto aumentassem 10%, então as quantidades vendidas diminuiriam em mais de 10%. "No entanto", conclui o economista Fernando Martins, "apesar do forte grau de concorrência, a maioria das empresas parece conservar alguma autonomia na definição do respectivo preço".

Os resultados do estudo também mostram que "em condições normais" mais de metade das firmas (55%) em Portugal revêem os preços com base em "regras temporais". Ou seja, a revisão dos preços "não depende das condições económicas existentes", mas de datas previamente fixadas.

Embora 19% destas empresas admitam passar a adoptar preços de mercado, caso as condições se "alterem significativamente", na Europa do euro, apenas 33% das empresas admitem seguir "regras temporais". O estudo conclui que o comportamento das empresas portuguesas é influenciado pelos custos "não negligenciáveis" que as firmas têm na revisão dos preços. De qualquer modo, as "condições específicas dos mercados" parecem influenciar mais a mudança de preços na indústria do que no sector dos serviços.

Mais de metade das empresas procedem à revisão dos preços com base em "regras temporais". Destas, cerca de 47% procedem à revisão da tabela de preços "no máximo uma vez por ano". Apenas 5,1% das empresas "revêem os preços mais de uma vez por mês".

Cerca de 80% das firmas afirmam que é indiferente o mês em que se processa a alteração dos preços. Mas a verdade é que 45% das empresas alteram os preços em Janeiro, quando já é perceptível a amplitude nos aumentos dos salários. O estudo, conduzido pelo economista Fernando Martins, realça que o grau de sincronização entre aumentos dos preços e dos salários parece ser alto. Em Março, tradicional na decisão de alterações salariais, é também época de aumentos nos preços. C






publicado por psylva às 09:24
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Medina Carreira é um optimista?
Rara é a semana em que não aparecem notícias que demonstram o que para mim é óbvio há muito tempo: vivemos em Portugal na ilusão - que deixou de ser doce - de que o mundo não mudou e que, por isso, podemos continuar "na maior", a viver como sempre, convictos de que recebemos uma promessa de vida eterna para os privilégios e sinecuras que obtivemos em anos em que a ilusão ainda poderia fazer algum sentido.
O relatório de Primavera do Banco de Portugal é mais um balde de água fria nessas ilusões. Continuamos a divergir da União Europeia (e por isso em cada ano ficamos mais longe de nos aproximarmos das médias comunitárias), estamos a ser ultrapassados em PIB per capita pelos países que no Leste aderiram à União Europeia, o Estado continua a contratar pessoal (e além do Estado central, veja-se o caso espantoso da Câmara de Lisboa que vai aumentar os quadros em 1600 pessoas com os votos do PS!), a situação orçamental deteriorou-se apesar da factura dos impostos que continua a aumentar, as nossas exportações perderam quota de mercado em todos os principais países para onde vendemos, o investimento produtivo continua a cair, o défice externo a subir.
Para ajudar à missa, o relatório da OCDE vai no mesmo sentido: temos o pior registo de crescimento dos países industrializados, o segundo mais alto défice orçamental dos países do FMI e o nosso défice corrente é o segundo pior dos países da OCDE.
Perante este quadro negro, como os jornais muito bem escreveram, o Banco de Portugal propõe ideias simpáticas, paliativos ou pias intenções: moderação do consumo, aumento da poupança, aumento da produtividade, controlo das finanças públicas, políticas de mobilidade e de concorrência. E o primeiro-ministro e o ministro das Finanças sacodem a água do capote e dizem que a culpa é do crude e da conjuntura internacional, apesar de a economia internacional estar a crescer a ritmo muito forte.
As sugestões do Banco de Portugal são realmente simpáticas, sensatas, adequadas, prudentes, bem intencionadas e até correctas. E podem mesmo ser compreensíveis as palavras dos governantes. Mas é contraproducente ajudar à nossa desculpabilização e as bonitas palavras são inúteis se não formos capazes de fazer as reformas e as mudanças que outros fizeram e que nós podíamos ter feito em tempos de vacas menos magras. A única e óbvia constatação é a de que não podemos continuar a viver como até aqui, que tudo mudou, porque a concorrência internacional é cada dia mais feroz. Acabaram os tempos dos empregos para a vida, do Estado-providência, do 13.º mês, do subsídio de férias, da reforma aos 55 anos, do absentismo laboral, da baixa por doença sempre que dá jeito, do faz de conta que estou a trabalhar. Também acabou o tempo do ir de carro próprio para o emprego, das pontes permanentes e por dá cá aquela palha, dos juros baixos e do sobreendividamento individual.
Espero que entendam o que estou a escrever, para que não seja mal citado. Sou pessoalmente favorável à maior parte destas aquisições sociais e estilos comportamentais, que melhoraram a qualidade de vida dos portugueses da minha geração. Não creio que vão acabar de um dia para o outro ou que tenham de acabar completamente. O modelo social europeu tem virtualidades que não devem ser esquecidas e o modelo alternativo que aí vem é por mim considerado muito pior e causador de problemas sociais graves a que (também) não estamos habituados.
Mas as coisas são o que são. No tempo das novas tecnologias, dos desarmamentos pautais, da globalização das linguagens, das viagens de avião e dos transportes marítimos rápidos, num tempo em que é possível produzir em Angola, facturar em Cabo Verde, fazer a contabilidade em Moçambique e vender na Europa, o benchmark para os custos de produção no vale do Ave já não são os custos de países europeus mais evoluídos, mas os de países muito menos evoluídos do que Portugal. Por isso é inevitável o violento processo de reestruturação económico-social que estamos a viver e lutar contra isso com paliativos só serve para dificultar mais e por isso tornar mais dura a mudança.
Temos de trabalhar mais e por menos dinheiro, temos de nos reformar mais tarde e com menos vantagens, temos de mudar mais de emprego e muitas vezes para pior, temos de melhorar a nossa qualidade com formação à nossa custa. E é sobretudo no Estado onde terão de acontecer os maiores sacrifícios. É duro ouvir isto e por isso é muito desagradável escrevê-lo, sobretudo para mim que - com sorte, muito esforço e talvez ainda algum mérito - faço parte dos mais favorecidos em Portugal e sempre sofrerei com o que aí vem menos do que outros.
Mas a nossa geração tem de ser capaz de entender que os sacrifícios são indispensáveis e que vão continuar a até aumentar. Para isso, o poder político tem de falar a linguagem da verdade e não tentar amaciar o que custa ouvir. E a oposição - sobretudo à direita - tem de evitar a esquizofrenia de criticar as medidas impopulares do Governo e, ao mesmo tempo, censurá-lo pelo estado em que estamos. Sobretudo porque têm tanta responsabilidade como os outros: depois do regabofe do guterrismo, faltou ao PSD e ao CDS a coragem de enfrentar os privilégios incomportáveis do funcionalismo público, que Sócrates - honra lhe seja - está a tentar reduzir para limites mais admissíveis.
Não temos alternativa: ou então chegaremos em breve à conclusão de que o meu admirado amigo Medina Carreira é afinal um optimista, que o futuro se revelará ainda pior do que ele há anos vem corajosamente afirmando para nos fazer mudar de vida.


publicado por psylva às 09:22
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A balança de pagamentos existe

As necessidades líquidas de financiamento externo da economia portuguesa (défice da balança corrente e de capitais), voltaram a aumentar em 2005.
Eram 4,0% do PIB em 2003 e passaram para 5,7 % em 2004 e 8,1% em 2005. Desde 1996, ano que parece marcar o arranque imparável para os valores actuais, que este défice foi multiplicado por 5. Caminhamos claramente para o valor simbólico de 10%.

Nas omnipresentes questões de conjuntura, os problemas relativos à balança de pagamentos são praticamente omitidos. Tirando alguns teimosos, à direita do governo, que a medo vão chamando a atenção para o assunto, este não atrai grande interesse.

Ainda recentemente, aquando da divulgação do último relatório do Banco de Portugal, apesar dos números desastrosos que se evidenciaram sobre a Balança de Pagamentos, aqueles foram tomados como se fossem elementos irrelevantes.

É como se o próprio conceito de balança de pagamentos tivesse deixado de existir.

Porém, a balança de pagamentos ainda existe, nas estatísticas do Eurostat e do Banco de Portugal, mas, sobretudo, na incontornável realidade económica.

O argumento para desvalorizar a importância do agregado é este: numa zona monetária, como a zona do euro, o significado da balança de pagamentos de Portugal é o mesmo que a «balança de pagamentos» do Alentejo tinha no tempo do escudo.

Esta concepção (1) está muito arreigada entre nós e é causa de muitos dos nossos problemas. De facto, foi com esta ideia que muitos aceitaram os apertos do período imediatamente anterior à entrada em funcionamento do euro. Os sacrifícios eram suportados com a ideia de que, a seguir, tudo nos seria permitido, uma vez desaparecidos os constrangimentos monetários externos. E, na verdade, foi assim que o país se comportou. A balança corrente e de capitais abalou, imparável, rumo aos 10% do PIB.

É certo que se concede, por vezes, que existe alguma preocupação, dado que o défice da balança de pagamentos representa um vaga falta de competitividade, sobre a qual pouco ou nada se poderá fazer a curto prazo.

Não tendo o país obrigações externas de cumprimento de objectivos relativos à balança de pagamentos, a sua irresponsável tranquilidade deriva do facto de se ter a certeza de que ninguém nos virá meter na ordem - como em tempos ocorreu com o FMI – e como está a ocorrer agora relativamente ao défice público. Cumpre-se assim o nosso destino: só efectuamos reformas quando obrigados do exterior; não conseguimos enxergar os nossos interesses, se estes não coincidirem com os de alguém do exterior que se encarregue de nos pressionar num determinado sentido.

O problema da balança de pagamentos assume significados diferentes, consoante o contexto monetário em que se insere. No caso actual da situação portuguesa, inserida numa zona monetária, o problema do défice da nossa balança só a nós diz respeito.

O funcionamento da economia encarrega-se de encontrar remédio para o défice da balança corrente e de capitais. Este, indica que se gasta mais do que se produz. Ora, isto só é possível através da acumulação de dívidas ou da venda de activos nacionais ao estrangeiro, registados na balança financeira. Dito de outro modo, o défice da balança corrente e de capitais é a expressão da acumulação de dívidas face ao exterior e/ou de perda de propriedades para o estrangeiro.

O défice da balança corrente e de capitais poderia ser virtuoso, se tivesse como contrapartida na balança financeira uma grande parcela de investimento directo externo. Não é esse o caso, como se sabe, estando o IDE estagnado e representando parte diminuta da balança financeira do país.

Mas este défice revela apenas uma parte da gravidade da situação. A acumulação de dívidas e a transferência de propriedade para o exterior representará, no futuro, um novo agravamento da balança corrente e de capital, através do pagamento de juros, dividendos e outros rendimentos da propriedade perdida. De início, esta situação é pouco perceptível. Mas, no futuro, os rendimentos saídos engrossarão e levarão a um verdadeiro «crowding out» das importações de bens e serviços e à real redução do consumo.

A balança de Pagamentos existe e, no final, nenhuma União Monetária nos livrará dos credores.

(1) A raiz desta concepção deriva da crença na Teoria da Zonas Monetárias Óptimas que nos levou à ideia absurda de que os benefícios da concorrência só se verificam nos mercados de bens e serviços e não existiriam na esfera monetária. Nesta, o euro permitiria realizar o esplendor do monopólio à escala europeia. Ficamos assim, paralisados com a ideia da bondade do União Monetária. Hoje sabemos que há uma a história mal contada na Teoria das Zonas Monetárias Óptimas. A concretização deste modelo, nestes últimos sete anos de União Monetária Europeia, já permitiu verificar que várias das supostas vantagens do euro são pura ilusão, embora nos custe ainda acostumarmo-nos à ideia. O próprio pai da teoria das Zonas Monetárias Óptimas, Robert Mundell, já reviu as ideias antigas.



publicado por psylva às 09:20
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O grande esquema


Entre as greves recorrentes e as faltas constantes de muitos professores, os alunos mal notam menos um dia de aulas.

No livro ”The Scheme for Full Employment” (Picador: 2003), o escritor Magnus Mills conta a história de um brilhante esquema para pôr fim ao desemprego.

O primeiro passo consiste em criar carrinhas compactas para transporte de mercadorias. Elas devem ser facilmente reconhecíveis e desmontáveis em várias peças de pequena dimensão. De seguida, constroem-se instalações espalhadas por diferentes regiões, separadas por menos de duas horas de condução. Em cada uma destas bases, existe uma oficina, um armazém, uma garagem, assim como espaço para escritórios e cantinas. O último passo é contratar os trabalhadores: mecânicos especializados na manutenção dos veículos e na sua montagem e desmontagem; armazenistas que descarregam as cargas e gerem o ‘stock’; condutores para dirigir as carrinhas; supervisores que gerem as operações; e outros como cozinheiros, pessoal de limpeza, quem vigie o portão, etc.

O esquema está montado. O trabalho consiste em carregar mercadorias de uma base para outra, de forma a garantir que todas têm sempre os ‘stocks’ a um nível adequado. E o que são estas mercadorias? São caixas com peças sobresselentes das próprias carrinhas. O esquema é brilhante porque é auto-suficiente: quanto mais as peças são movidas entre bases, maior a probabilidade de avarias, que por sua vez justificam mais viagens para buscar peças. Para além disso, o esquema pode acolher quase qualquer pessoa que procure emprego.

Claro que há o pormenor incómodo de como pagar salários quando não há receitas. Mas afinal para isso é que servem os contribuintes e os impostos! O esquema é um grande desígnio nacional, uma instituição nobre de que o país se pode orgulhar. O papel dos supervisores é garantir esta boa imagem do esquema. Trabalha-se, como noutras profissões, das 9 às 5, e os condutores não devem ter pressa de forma a que se comportem de forma cortês na estrada. As carrinhas reconhecíveis e os seus condutores afáveis e sempre atarefados de um lado para o outro tornam-se rapidamente respeitados por todos.

Na novela de Mills, depois de anos de operação, surgem problemas no esquema. Alguns trabalhadores gostam de sair mais cedo e há supervisores permissivos. Outro grupo, os puristas, receia que estas saídas exponham a inutilidade do esquema e comprometam a credibilidade dos seus trabalhadores. O conflito entre os dois grupos vai escalando até ao ponto em que um dos lados declara greve. Depois de três semanas de paralisação, os dois grupos acabam por negociar uma solução de compromisso. Todos terão o direito a sair 10 ou 15 minutos mais cedo, e por vezes (mas só raramente) poderão sair uma ou duas horas antes das 5.

Por esta altura, no entanto, os danos para o esquema são irreparáveis. Enquanto as operações estiveram paradas, os outros cidadãos notaram que não se sentiu falta de nada. Os trabalhadores do esquema começaram a ser vistos como preguiçosos e egoístas. A atenção da imprensa expôs o custo do esquema para cada contribuinte. Uma inspecção de rotina é escrutinada pela opinião pública e descobre falhas graves. Pouco tempo depois, o esquema é encerrado.

Os protestos do último ano na função pública em Portugal fizeram-me recordar este livro. No sector da justiça, entre magistrados, pessoal dos tribunais, e funcionários do Ministério da Justiça, estão muitas pessoas que passam grande parte do seu tempo a trocar processos, recursos, e outros papéis entre si. Apesar do prestígio social de que gozam e dos confortáveis salários e horários, alguns destes trabalhadores fizeram greve no seguimento de uma disputa sobre o direito a trabalhar menos. Essa greve praticamente não fez mossa no dia-a-dia de ninguém – poucos repararam que os seus processos judiciais vão demorar uma década mais alguns dias em vez de apenas uma década.

Agora, é vez dos professores. Estes convocaram uma greve estrategicamente colocada para lhes permitir uma ”ponte”. Entre as greves recorrentes e as faltas constantes de muitos professores, os alunos mal notam menos um dia de aulas. Para além disso, vários professores afirmaram publicamente que os pais sao incapazes de perceber o seu brilhante esquema e de os avaliar.

Felizmente que o livro de Mills é de ficção. Na vida real, esquemas tão brilhantes como o de Mills certamente nunca terão um fim. ____



publicado por psylva às 09:19
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Banca, finalmente




O sector bancário tem permanecido à margem do movimento de reforço da regulação comercial. O Banco de Portugal tem-se resguardado numa leitura altamente conservadora da lei para nada fazer

Arredondamentos abusivos de taxas de juro, diferentes formas de cálculo aplicadas a depósitos e a empréstimos, cobrança de novas comissões bancárias sem pré-aviso dos clientes, preços demasiado elevados nalguns serviços, entraves financeiros e legais que impedem os clientes de trocar de banco e limitam a concorrência. São muitas, demasiadas, as queixas que são feitas às práticas comerciais dos bancos.
Em comum, duas características: todas contribuem para aumentar as receitas e a rentabilidade das instituições e têm sido olhadas com absoluta indiferença por governos e pelo Banco de Portugal.
O país deu um enorme salto na última década na área da regulação independente, ganhando uma série de entidades sectoriais que, com maior ou menor eficácia e desassombro, tentam fazer o equilíbrio entre os interesses dos accionistas das empresas e os direitos dos consumidores. É assim na energia e nas telecomunicações, no mercado de capitais e no sector imobiliário, na saúde e na comunicação social.
Mas os bancos sempre permaneceram à margem deste movimento. O Banco de Portugal resguarda-se numa leitura altamente conservadora da lei para nada fazer. Sempre muito preocupados com a saúde financeira dos bancos, Vítor Constâncio e os seus colegas da administração do banco central mostram horror a tudo aquilo que possa beliscar a imagem do sector financeiro, independentemente das práticas abusivas que este possa exercer.
Nesse sentido, o Banco de Portugal comporta-se como o líder dos bancos comerciais, o primeiro entre iguais de um sector que gosta de ser olhado como sendo diferente. Confunde-se, por isso, com a própria Associação Portuguesa de Bancos. Não se conhece, por exemplo, o resultado de qualquer decisão que o banco central tenha tomado a favor de um cliente e contra um banco - será que os bancos nunca pecam? E nem as boas práticas de alguns países europeus parecem inspirar a entidade de supervisão. Dois exemplos: aqui ao lado, em Espanha, é o próprio banco central que, no seu site na Internet, permite a comparação directa das comissões e taxas cobradas por todos os bancos. É fácil perceber como isso ajuda os clientes a escolher ou mudar de banco e como pode ser um factor potenciador da concorrência.
E em Inglaterra, a entidade supervisora do sistema financeiro publica todas as penalizações impostas às entidades bancárias: nome, ilegalidade cometida e montante da multa são tornados públicos, numa saudável atitude de transparência e de dissuasão de novas práticas.
Esta é uma área onde Portugal ficou na Idade Média, contrastando com o nível de desenvolvimento comercial e tecnológico dos próprios bancos comerciais e com uma rede Multibanco que é das mais evoluídas do mundo.
Só podem saudar-se, por isso, as iniciativas do Governo no sentido de regular o arredondamento das taxas de juro e de, eventualmente, vir a obrigar o Banco de Portugal a divulgar a identidade das instituições alvo de penalizações.
Lamenta-se que não tenha sido o próprio banco central a avançar, sendo agora obrigado a responder a imposições externas. Mas é preciso não perder de vista que estes são passos ainda tímidos e iniciais em relação a sector que presta serviços que são tão básicos e essenciais como a água, a luz, a saúde ou a educação. A transparência e as boas práticas têm que ser compatíveis com esse estatuto.



publicado por psylva às 09:19
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Sombras chinesas

Uma notícia publicada há dias pelo “New York Times” veio pôr em evidência alguns aspectos menos conhecidos do panorama económico e social da China – país para onde voam, todos os dias, capitais e tecnologia .

Perante uma conflitualidade laboral latente –300.000 conflitos em 2005 – , as autoridades chinesas resolveram publicar, há meses, um anteprojecto de lei que visa introduzir algumas modificações favoráveis aos trabalhadores. Segundo informava o jornal, essa iniciativa despertou enérgicas reacções de protesto por parte de grandes empresas americanas instaladas naquele país, que procuram exercer forte pressão no sentido do abandono da iniciativa.

Na barragem argumentativa erguida pelas organizações que representam essas empresas na China, contra o andamento da reforma projectada, não deixam de figurar ameaças de destruição de postos de trabalho – e de deslocalização das empresas...

É difícil resistir à curiosidade de examinar mais de perto o detalhes deste episódio – de procurar perceber, em suma, o que está em causa.

Eis algumas das mais gravosas alterações que o anteprojecto de lei do trabalho pretenderia (já usamos o condicional) introduzir:

a) Nas relações de trabalho ditas “de facto” (em que há trabalho sob as ordens de outrem, mas sem contrato escrito) não se aplicam os direitos reconhecidos pela lei, domina totalmente a vontade do empregador. Pois a futura lei considera que, nesses casos, também há contrato e, portanto, sujeição ao regime legal.

b) É prevista a negociação colectiva das condições de trabalho (com sindicatos ou representantes internos dos trabalhadores da empresa), que se sobreporá à regulamentação das empresas e às decisões unilaterais dos empregadores.

c) É maciço o recurso a contratos a prazo. A nova lei impõe o pagamento de uma compensação ao trabalhador que perde o emprego no termo do prazo.

As reacções a cujo conteúdo tivemos acesso - pela Internet – provêem da Câmara de Comércio Americana em Shanghai e do “US-China Business Council”. São muitas páginas de prosa floreada, mas o grosso da argumentação cabe nestas frases-chave: “a lei conflitua com os conceitos internacionalmente aceites de gestão de recursos humanos”; “ela reduzirá de modo significativo a competitividade das empresas chinesas, trará consequências negativas para a economia nacional, reduzirá oportunidades de emprego, e, a final, lesará os interesses fundamentais dos trabalhadores”.

Vale a pena ler esta documentação – até porque nela se encontram fartos motivos para sorrir. Não há má disposição que resista quando se vê a Câmara de Comércio Americana proclamar com ênfase “as necessidades urgentes do desenvolvimento das causas do Partido Comunista e nacionais” – ou “o cumprimento das tarefas de desenvolvimento económico e social do décimo primeiro plano quinquenal”!

Mas, para além do sorriso, o episódio dá que pensar. De acordo com dados do próprio US Bureau of Labor Statistics, o salário horário médio na indústria era, em 2002, na China, cerca de 3% (três por cento) do norte-americano. Segundo Stephen Roach, economista-chefe da Morgan Stanley, essa relação tem persistido até hoje – embora, no mesmo sector da economia chinesa, a produtividade venha crescendo cerca de 20% (vinte por cento) ao ano!

É neste quadro que a polémica em torno de uma nova lei do trabalho chinesa adquire contornos perturbadores. Está em causa a hipótese grave de elevação daquela relação entre salários/hora - talvez para uns insuportáveis 5%!

Mas há outro lado na questão. O salário horário médio industrial é, na China, 25% do mexicano ou do brasileiro, 10% dos de Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura, e 3% dos do Japão e da Europa mais desenvolvida. A chamada “arbitragem laboral global” (Roach) continuará a ser feita pela China durante décadas. Pairam sombras no futuro da economia “global” – e ganha maior evidência o carácter suicidário da competição pelo custo do trabalho.





publicado por psylva às 09:18
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Está feliz!


Encontrei um amigo de infância que estava feliz. Coisa rara nos dias que correm. Contou-me as razões.



Encontrei um amigo de infância que estava feliz. Coisa rara nos dias que correm. Contou-me as razões.
Entusiasmado com a subida do petróleo e com a ideia de que as petrolíferas ganham com elas, mas mais entusiasmado ainda com uma palestra minha sobre privatizações e ganhos em ofertas públicas de venda de acções ou com os efeitos das entradas das empresas nos índices de acções, o meu amigo resolveu ir à privatização da GALP.
Eu tinha-lhe dito que, de um estudo em que participei sobre o assunto, se concluiu que a média histórica dos ganhos em OPV’s em Portugal, era de 10,55% quando as acções eram subscritas na Oferta Pública Inicial e vendidas no final do primeiro dia de negociação. Também lhe tinha dito que de outro estudo que fiz sobre o efeito da entrada de uma acção no índice PSI20, se concluiu que o ganho médio era de 3,33% entre o dia do anúncio e a véspera da entrada do título no índice.
Ora a OPV da GALP ocorreu na segunda-feira, 23 de Outubro, podendo as acções negociar-se em bolsa logo no dia 24. Também foi anunciado que o título GALP iria ser integrado no PSI20 no dia 30 de Outubro, segunda-feira da semana seguinte.
Com base em todas estas informações o meu amigo foi à subscrição.
Quando chegou ao seu banco para subscrever as acções disseram-lhe que, dado o elevado número de ordens de subscrição seria melhor ele atrever-se a subscrever o máximo permitido que, no caso dele que apenas tinha interesse em aproveitar das minhas palavras, seria o lote reservado ao público em geral. A medo subscreveu o máximo.
Na terça-feira dia 24 de Outubro recebeu uma chamada do seu gestor de conta informando-o de que estaria com sorte porque lhe tinham sido atribuídas 170 acções! Ficou feliz!
Chegou-se a mim e disse-me radiante que iria explorar os dois efeitos: o da OPV e o da entrada no índice.
Avisei-o de que rendimentos passados não são sinónimos de rendimentos futuros e que por isso quando se tratam de títulos de rendimento variável, nunca se sabe.
Na sexta-feira dia 27 de Outubro deu ordem de venda das acções. Fechou o negócio vendendo a 6,05, no final da sessão desse dia.
Telefonou-me no dia seguinte feliz: “– É pá quando é a próxima? Eh eh! Foi limpinho! Ganhei 39 euros sem saber ler nem escrever no espaço de quatro dias!”
Acalmei-o e perguntei-lhe: “– Entraste em linha de conta com os custos de transacção e com os impostos?” Resposta: “– O quê?” “– Então vê lá isso e depois diz-me qualquer coisa.”
Dois dias depois liga-me e informa-me que lhe cobraram €7,32 na compra, mais €7,28 na venda e ainda lhe vão cobrar €10,29 de custódia de títulos no final do trimestre. Ainda me lembrou que vai pagar IRS sobre os ganhos obtidos em bolsa pelo que estima que o líquido se fique pelos €8,35. Isto é, dada a pequenez do lote que lhe foi atribuído, 80% da mais-valia conseguida foi absorvida pelos intermediários, bolsa, central de liquidação e Estado através dos impostos.
Está feliz!


publicado por psylva às 09:17
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Semelhanças entre Annan e Madonna


Tudo muda, tudo muda, excepto... a natureza humana. E já se sabe como é, nestas coisas da natureza humana, uns são mais humanos que outros.

Jorge A. Vasconcelos e Sá

Buda, Heraclito, o nosso Camões, todos apontaram que não há nada permanente excepto a mudança.

De facto, tudo muda, tudo muda, excepto... a natureza humana. E já se sabe como é, estas coisas da natureza humana, uns são mais humanos que outros.

Kofi Annan, líder da ONU, tem procurado posicionar-se como apoiante dos desfavorecidos e defensor dos direitos humanos. Palavras bonitas. E os actos?

Vejamos a mais recente oportunidade: Darfur. Que faz K. Annan?: convoca uma conferência de imprensa (onde sem qualquer indignação e com o ar mais natural deste mundo) diz que: 1) os EUA não vão intervir fora de um mandato daONU; e 2) a ONU não vai intervir porque o governo sudanês não quer: “Se quiserem outro Iraque venham”, disse o presidente sudanês. E por isso, segundo K. Annan, não há nada a fazer. Ponto final parágrafo. Não ameaça demitir-se. Nem se queixa. Fala tranquilamente como se comentasse uma mudança no serviço de catering da ONU. Até ao momento? 200 mil mortos e cerca de um milhão de refugiados.

A passividade de K. Annan sugere que, excepto quando os americanos dão o corpo ao manifesto, não há (na prática) valores (os direitos humanos), mais importantes que a soberania nacional; a razão e justiça (Nuremberga), não deve prevalecer sobre os governos; e o direito à vida (dos outros), não é mais importante que o risco de morte (nosso).

E o resto dos países? Aparentemente para K. Annan não contam. Não critica a Rússia. Nem a China. E a Europa nada faz. Será que é por a sua opinião pública pensar que não pode influenciar a política externa? Ou por esta não contar para o eleitorado? Ou por ambos? Seja como for, a ONU não confronta o mal no mundo. E K. Annan lava diplomaticamente as mãos. É a vida...Quem também dizia isto?

Razão tinha Dante, quando reservou o lugar mais quente do Inferno, para os que, em tempos de crise, lavam as mãos. E aparentemente razão têm também muitos americanos quando acusam a ONU de inútil. Tal como Chris Patten nas suas memórias. À Europa falta de força (e logo de credibilidade internacional). Porque diplomacia sem mais, é um placebo. Há que ‘talk softly but carry a big stick’.

Voltando a página de Annane da ONU, aparece-nos depois Madonna anunciando que nos seus espectáculos em Novembro e Dezembro, irá aparecer “crucificada” com uma “coroa de espinhos”, tal como Jesus Cristo.

Grande publicidade. Vários orgãos de informação publicaram a notícia, sketchs, etc. Os mesmos (NBC, NYT, etc.) que não quiseram publicar os cartoons dinamarqueses, críticos de Maomé, por... “respeito para com os muçulmanos”... Mas, e os cristãos? Onde está o respeito para com eles?

No fundo, caro leitor, aparentemente, Annan e Madonna nada têm de comum. Ou será que têm? Qual a semelhança por detrás das diferenças?





publicado por psylva às 09:17
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A dimensão do erro


O nacionalismo económico é uma velha causa da esquerda norte-americana. Nesta eleição o tema reganhou relevância eleitoral.


A vitória eleitoral dos Democratas nas eleições da passada semana foi recebida como uma transformação positiva, por significar o início de uma nova era na política interna norte-americana e, essencialmente, por implicar uma mudança na postura internacional dos EUA (leia-se, por obrigar a uma alteração na política para o Iraque). Mas será mesmo assim?

Há um conjunto de sinais que apontam para um cenário mais pessimista.

Antes de mais, a agenda interna. Ao contrário do que aconteceu com a “revolução conservadora”, ou antes com os ‘new democrats’ de Bill Clinton, a actual vitória Democrata não assenta numa nova “grelha” política. Como lembrava George Lakoff, no ainda actual ‘Don’t think of an elephant!’, o Partido Democrata está preso numa leitura da realidade em que os termos de análise têm sido formatados pelo Partido Republicano. A consequência é que muitas das vitórias democratas assentaram numa agenda que mistura conservadorismo social com proteccionismo económico. Uma agenda que mistura o pior de dois mundos.

Talvez os exemplos mais flagrantes disso mesmo sejam a oposição ao comércio livre e o combate à imigração que estiveram no topo das prioridades de muitos dos candidatos democratas que conquistaram lugares a republicanos.

O nacionalismo económico é uma velha causa da esquerda norte-americana. Nesta eleição o tema reganhou relevância eleitoral. Com Clinton, em larga medida por força da acção do seu Secretário de Estado do Trabalho, Robert Reich, o Partido Democrata defendia que a resposta à abertura das economias e à exposição dos EUA à liberalização do comércio passava, e bem, por um investimento no capital humano. Hoje, para muitos dos representantes democratas, o que há que fazer é defender os empregos norte-americanos, combatendo os acordos comerciais com a China e com o México, com a argumento de que estão a ser deslocalizados muitos postos de trabalho. Curiosamente, não é questionada a razão por que há postos de trabalho que são “deslocados” para economias que se tornaram mais competitivas pela aposta na qualificação dos seus activos.

Muitos candidatos democratas combinaram o discurso do nacionalismo económico com promessas de intensificar o combate à imigração. Em última análise, não é só a deslocalização de empresas para o México que está a roubar postos de trabalho aos norte-americanos, o problema são também os mexicanos que vêm ocupar postos de trabalho que “pertencem” aos norte-americanos. Onde é que já ouvimos este argumento?

Claro que há elementos muito positivos na vitória dos Democratas. Antes de mais, a derrota do neoconservadorismo que começará a libertar os EUA da agenda messiânica; depois, os sinais de que os temas ambientais adquiriram relevância política; e, finalmente, os resultados dos vários referendos sobre costumes (do aborto ao casamento de homossexuais) que revelaram que, nestes aspectos, a sociedade norte-americana tem evoluído positivamente. A eleição de Nancy Pelosi para ‘Speaker of the House’ é, porventura, a corporização do lado positivo desta vitória.

E isto leva-nos ao Iraque, tema que marcou indelevelmente as eleições. Como tem sido assinalado, pese embora a retórica, a vitória democrata não alterará a situação no território. Até porque só há uma de três hipóteses: ou continua tudo como até agora, num equilíbrio instável, com mortes diárias de soldados norte-americanos e massacres de iraquianos; ou há uma retirada parcial do contingente militar, o que só servirá para expor ainda mais os militares que ficam no terreno; ou, finalmente, uma retirada total, que, depois do erro colossal que foi a destruição do aparelho de Estado iraquiano, significaria deixar o país próximo do “estado de natureza” hobbesiano.

Perante estes três cenários, os mesmos que foram ferozes defensores da intervenção norte-americana têm-se regozijado com mais esta prova de que não havia alternativa à política seguida pela administração Bush. Nada de mais errado. A situação a que chegámos só serve para provar a dimensão do erro cometido e a encruzilhada para a qual a administração norte-americana empurrou o mundo. É por isso que, pese embora os aspectos preocupantes da vitória dos Democratas, o facto de esta pôr fim ao messianismo político neoconservador e (espera-se) fazer regressar o realismo à política internacional norte-americana é, por si só, uma importante mudança. Ainda que com pouco significado para o Iraque.
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publicado por psylva às 09:15
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liga dos bastonários


Os bastonários das ordens profissionais do sector da saúde (médicos, dentistas, farmacêuticos e enfermeiros) publicaram uma arrebatada "carta aberta" num semanário, denunciando uma alegada ofensiva mercantilista no sector, estando em curso uma "diabolização das ordens" e um "ataque às profissões da saúde". A carta é, porém, despropositada, e a mensagem, errada.
Na origem desta inédita iniciativa conjunta dos bastonários estão claramente as posições da Autoridade da Concorrência, tanto em relação à liberalização das farmácias e do comércio de medicamentos, como, especialmente, em relação à aplicação de pesadas sanções pecuniárias às ordens dos médicos e dos dentistas, por causa da fixação de preços das consultas e dos tratamentos na medicina liberal. Os bastonários vêem nessas posições evidentes sintomas de uma concepção dos cuidados de saúde como "uma mera actividade económica, apenas sujeita às regras do mercado" e de um movimento tendente à desregulação das respectivas profissões.
Há aqui uma distorção inaceitável e uma ilação deslocada. Para começar, é evidente que, quando a Autoridade da Concorrência sanciona a fixação de remunerações e outras práticas lesivas da concorrência na prestação de serviços, ela limita-se a negar às ordens profissionais o exercício de funções de regulação económica, sem todavia pôr em causa as demais funções de regulação profissional e deontológica que caracterizam tradicionalmente as ordens. Por isso mesmo, a condenação de tais restrições à concorrência não põe em causa o papel das ordens nem significa nenhum ataque às profissões em si mesmas.
Ao defender a concorrência nas profissões liberais, a Autoridade da Concorrência limita-se a aplicar o Tratado da Comunidade Europeia, a jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu e a lei nacional da concorrência. Desde há muito que se entende que as regras da concorrência não se aplicam somente ao sector dos bens, mas também à prestação dos serviços, incluindo os serviços profissionais. As práticas restritivas tanto podem decorrer de acordos entre agentes económicos, como de decisões das suas associações. Ora, as ordens profissionais são indubitavelmente associações de prestadores de serviços, que incorrem em violação das leis da concorrência quando decidem, por exemplo, determinar ou limitar a formação dos respectivos preços.
Sucede, aliás, que os estatutos legais das ordens profissionais não lhes conferem poderes em matéria de regulação dos preços. Ora, tratando-se de organismos públicos, as ordens só têm as atribuições que lhes forem confiadas por lei. Na falta desta, como é o caso, as restrições à liberdade negocial em matéria de preços estão desprovidas de fundamento legal, sendo portanto ilegais, mesmo que não estivesse em causa a violação das leis da concorrência. Os cuidados de saúde em regime liberal podem não ser somente mercadorias, mas são também serviços disponibilizados no mercado, aliás bem caros entre nós, quando comparados com outros países mais ricos. Se fizesse falta uma prova, ela está hoje na crescente percentagem de clínicos e outros profissionais de saúde que adoptam a forma de sociedade comercial, muitas vezes uninominal, por razões puramente argentárias, como as vantagens fiscais, ou outras ainda menos desinteressadas.
O perigo para o conceito e o prestígio das profissões da saúde e para as respectivas ordens profissionais não advém, portanto, da alegada perspectiva mercantilista e "neoliberal" da Autoridade da Concorrência, mas sim da tendência atávica das ordens para preferirem arrogar-se tarefas que não lhes devem pertencer (concretamente, a regulação económica), em prejuízo das missões legais para que foram criadas, nomeadamente a observância dos deveres deontológicos e profissionais.
Há uma tensão inata nas ordens profissionais entre, por um lado, as suas funções públicas - que devem ser pautadas pelo interesse público e pelos direitos dos utentes - e, por outro lado, as suas funções de representação e de defesa dos interesses privativos dos seus membros. Muitas vezes prevalecem as segundas sobre as primeiras, passando as ordens a ser não mais do que sindicatos oficiais, com os privilégios do poder público, de que as demais profissões não beneficiam.
Existem três desvios típicos das ordens profissionais quanto às suas funções. Primeiro, há uma tendência larvar para a defesa de posições malthusianas no acesso à profissão, que consiste no racionamento na entrada de novos profissionais. O que sucedeu em Portugal durante muitos anos, com as limitações à entrada nos cursos de Medicina, de resto ainda bem activas, há-de ficar na história como um "exemplo de escola". A segunda tendência é a ampliação desmesurada dos chamados "actos próprios" da profissão, de modo a expandir o exclusivo profissional, muitas vezes à custa das profissões confinantes. A terceira tendência consiste nas já referidas restrições à concorrência, que aliás não se limitam à fixação de preços ou medidas afins.
O zelo das ordens na promoção dos interesses profissionais colectivos só tem paralelo no desmazelo ou desinteresse com que várias delas encaram as missões públicas de que estão encarregadas pelo Estado, nomeadamente o respeito pelos deveres deontológicos e das legis artis por parte dos seus membros. Custa a aceitar, por exemplo, a leniência com que desde há muito a Ordem dos Médicos encara a emissão generalizada de atestados médicos de favor ou as equívocas relações de muitos médicos com os laboratórios farmacêuticos (de que o "turismo médico" constitui a face menos nociva...). A escassez de processos e de sanções disciplinares em várias ordens profissionais são um dos elementos que revelam o défice no desempenho da sua função supervisora.
As ordens profissionais não são uma solução universal para a regulação dos serviços profissionais, nem sequer para a sua auto-regulação, sendo por exemplo desconhecidas no mundo anglo-saxónico. A transacção em que assentam supõe que elas não sacrificam excessivamente o interesse público aos interesses corporativos. E para serem organismos públicos não podem adoptar posições de tipo "sindical" ou mais próprias de grupos de interesse privados.
Em vez de se colocarem na descabida situação de incompreendidas e perseguidas como supostos "bodes expiatórios", as ordens profissionais, tanto as da saúde como as demais, deveriam reflectir seriamente sobre a sua serventia na actualidade, não para tentar impedir a criação de um mercado de serviços profissionais, que a UE incentiva, mas sim para desempenhar com renovada exigência e responsabilidade as suas funções próprias de superintendência e de disciplina profissional, nesse novo contexto de massificação e de concorrência. Se o não fizerem, só têm de se queixar de si mesmas.



publicado por psylva às 09:15
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