Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2006
Produtividade e moralidade


Vítor Bento



A produtividade depende de um factor muito importante, que é responsabilidade de todos: a atitude.

Uma interrogação recorrente, de cada vez que se fala da relativa baixa produtividade da nossa economia, é a que procura saber por que razão a produtividade dos trabalhadores portugueses é elevada “lá fora” e é baixa “cá dentro”. O Luxemburgo – país com uma elevada produtividade média e onde uma grande parte da população laboral é portuguesa – é frequentemente citado como exemplo do “lá fora”. A interrogação tem implícita a ilação de que se os trabalhadores são os mesmos (ou são “da mesma cepa”), o problema das diferenças de produtividade não pode ser deles. Será assim?

Em parte é assim, mas, em termos gerais, o problema – i.e. a responsabilidade – é de todos: trabalhadores, gestores (assumindo uma distinção meramente funcional), empresários, governantes e cidadãos.

Ao nível das empresas, a produtividade do trabalho depende naturalmente da qualidade (’skills’) dos recursos humanos, mas depende também da tecnologia disponível e da organização do trabalho, que são da responsabilidade dos gestores e dos empresários. A organização do trabalho é muito importante para a produtividade e pode explicar uma boa parte das diferenças encontradas.

Mas a produtividade depende também de um factor muito importante, que é responsabilidade de todos, mas sobretudo dos trabalhadores: a atitude. Este factor depende muito da envolvente cultural da sociedade, bem como da sua moralidade (conjunto de valores e comportamentos que a sociedade reconhece como bons, maus, aceitáveis ou inaceitáveis e que encoraja, tolera ou censura). E explica uma parte significativa da razão por que os mesmos trabalhadores podem ter diferentes níveis de produtividade no Pais e fora dele, mesmo que trabalhando nas mesmas condições tecnológicas e de organização do trabalho.

Mas as comparações normalmente efectuadas referem-se à produtividade média dos vários países e não à produtividade ou eficiência relativa das empresas. E as diferenças podem ser significativas porque, mesmo que disponha de empresas (potencialmente) muito eficientes, um país pode apresentar baixos níveis de produtividade média, devido a um outro factor que é da responsabilidade de todos nós, cidadãos (e eleitores) e (mais particularmente) governantes. É que as empresas não funcionam no vácuo, mas num dado contexto sócio-político onde têm que enfrentar dificuldades que podem ser descritas pela expressão, cunhada pela API, de “custos de contexto”: burocracia do Estado (incluindo todos os sistema de licenças, autorizações, regulamentações, etc.), sistema fiscal, sistema de Justiça, infra-estruturas, etc.

O funcionamento, a eficácia e a eficiência desses sistemas, para além de intrínsecas condições relacionadas com a sua organização, são muito marcados pelas atitudes dos seus agentes e pelas idiossincrasias políticas consubstanciadas na sua origem e na sua evolução.

Mas as empresas vivem também em interacção com outras empresas e outras entidades: clientes, fornecedores, consultores, media, etc. E toda essa interacção é, mais uma vez, marcada pelas atitudes dominantes da sociedade.

Por conseguinte, as atitudes e os comportamentos (e, sobretudo, a moralidade que os induz) que formam a cultura de cada sociedade, têm um papel determinante na explicação das diferenças de produtividade média entre os vários países, mesmo quando os trabalhadores e as empresas têm semelhantes ‘skills’ e eficiências potenciais.

Assim, para elevar a produtividade média do País é necessário, para além da formação dos recursos humanos e de uma eficiente organização do trabalho, estimular comportamentos favoráveis e penalizar os desfavoráveis, ou seja, modificar a moralidade social. Deixar de tolerar incumprimentos de horários, de compromissos e das normas em geral; deixar de ser complacente com a mediocridade e a indolência (muitas vezes protegida por uma falsa ideia de caridade); promover o mérito, o desempenho e a responsabilidade; são exemplos de modificações que necessitamos de introduzir na nossa moralidade social se quisermos ser mais produtivos e, afinal de contas, melhorar o nosso nível de vida. Tal pode ser feito por via das famílias, do sistema educativo (embora a ideologia que o domina não seja encorajante), dos incentivos e da autoridade do Estado. Mas é uma responsabilidade de todos.


publicado por psylva às 09:13
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