Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005
Artigo de João Cardoso Rosas
"Aqui há alguns anos, quando vivia em Itália, um colega economista chegou à universidade algo espavorido. Disse-me que tinha visto escrita numa parede, junto à estação de caminho de ferro, a seguinte frase: “MORTE AOS ECONOMISTAS”. Talvez por não ser economista, senti-me bem menos afectado do que o meu colega. Mas não deixei de lhe dizer que continuasse a fazer a sua econometria em paz e sossego, apesar do iminente risco de vida.

A zanga dos cidadãos com os economistas é recorrente. Pese embora ter sido a pátria dos primeiros economistas (os fisiocratas), a França é um dos países que mais alimenta este ódio de estimação. Ainda me recordo de um livro francês, entretanto mergulhado no mais profundo e justo esquecimento, que fazia o processo dos economistas como culpados dessa outra catástrofe que é a globalização neoliberal. Este tipo de teoria da conspiração tem ainda alguma influência.. Mas o modo mais corrente de atacar os economistas é, pura e simplesmente, o de acusá-los de economicismo.

O economicismo, fonte de todos os males, consiste em dar excessiva relevância aos factores económicos. Assim, os anti-economicistas pátrios insistem em afirmar que “há mais vida para além do orçamento”; ou, num avatar mais recente, consideram que “o economicismo pode acabar com o Estado social”. A verdade é um pouco ao contrário da mensagem que estas asserções transmitem: é precisamente porque há mais vida para além do orçamento que é preciso equilibrá-lo; e é por falta de racionalidade económica que se pode acabar com o Estado social, não por economicismo.

Devo admitir que há um aspecto no qual os anti-economicistas marcam pontos. Muitas vezes, os economistas têm uma ideologia ‘naïf’ que consiste em pensar que as questões ideológicas nada importam e que a única coisa necessária é “fazer bem as contas”.

Esta ideologia anti-ideológica é ingénua porque esquece o próprio enquadramento ideológico ou valorativo em que opera.

As sociedades em que vivemos e as instituições de enquadramento dessas sociedades – desde a Constituição à segurança social, desde o sistema de saúde ao sistema educativo e por aí adiante – estão saturadas de ideologia. As nossas sociedades e as instituições de enquadramento que definem os direitos e deveres dos cidadãos não são nem podem ser ideologicamente neutras. E é precisamente neste enquadramento que os economistas têm de trabalhar.

Quando se faz um orçamento, quando se legisla sobre questões fundamentais, não se trata apenas de “fazer contas” nem se pode simplesmente aplicar os instrumentos habituais da análise custo-benefício. Estes são indispensáveis, mas não bastam para decidir sobre aquilo que queremos fazer com o legado institucional que a história do nosso país – ou de qualquer outro – deixou. Em última instância, as instituições políticas, económicas e sociais são doutrinas normativas materializadas. Trata-se – por muito que alguns o queiram minimizar – de optar entre uma série de possibilidades que definem as instituições fundamentais e, assim também, os benefícios e encargos que resultam, para todos e cada um dos indivíduos, da vida em sociedade.

Dito isto, as habituais acusações de economicismo parecem-me profundamente injustas. Sejam quais forem as opções políticas e ideológicas, há formas racionais e formas menos racionais de as implementar. E é também necessário calcular os custos relativos implicados nas diferentes opções. Não vivemos na sociedade da abundância absoluta na qual tudo o que precisaríamos consistiria num maná caído do céu e facilmente acessível a todos. Os recursos são sempre escassos e o desperdício é sempre condenável.

Se é verdade que não basta “fazer contas”, é absolutamente essencial fazê-las. "


publicado por psylva às 17:59
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