Sábado, 20 de Agosto de 2005
Quanto custa despedir

A história é mesmo boa e vale a pena contá-la de novo, agora que já são públicos os últimos números do desemprego em Portugal: quase 400 mil pessoas vivem nessa situação dramática, das quais mais de metade procura emprego há mais de um ano.

A história, contada pela primeira vez na revista brasileira “Veja”, começa na sala de aulas de uma das grandes universidades americanas. O que aqui se conta é assumidamente uma adaptação.

Durante uma aula do Masters in Business Admnistration (MBA), o professor catedrático coloca na mesa um caso prático para os alunos resolverem: a economia do país atravessa um mau período, a recessão vai agravar-se ainda mais no próximo ano, o que deverá fazer o presidente-executivo de uma multinacional de automóveis (o exemplo é meu) para reduzir o embate da travagem económica?
Os alunos reflectem durante alguns minutos. São alunos experimentados, todos eles já passaram por várias empresas, sabem que o caso não é assim tão raro acontecer – pelo contrário, nos últimos anos, com o aumento da concorrência e com o galopar dos preços do petróleo, é um cenário comum, um cenário que qualquer gestor tem obrigatoriamente de manter na agenda de trabalhos, mesmo quando a vida parece correr melhor do que o esperado.

Depois de reflectirem e estudarem os números colocados na mesa, os alunos começam a sugerir as suas estratégias para fintar a crise. O primeiro sugere cortes temporários nos investimentos de marketing e publicidade. Outro prefere centrar a empresa no seu ‘core-business’ e opta por vender grande parte dos negócios paralelos da empresa. Outro aluno, ainda mais radical – ou prudente –, junta às duas políticas anteriores uma terceira: congelamento de salários e corte nos prémios de produtividade. O que importa é reagir depressa e em força.

O professor escuta as propostas sem reagir, até que finalmente um dos alunos levanta a mão e avança a matar: “Para começar, eu despedia 2500 dos 10 mil empregados...” A partir daqui não consegue explicar mais nada. O professor interrompe-o, não o deixa falar mais, ordena-lhe que abandone a sala imediatamente. “Saia já! Já! não volte aqui. O senhor não volte mais.”
A sala cai num silêncio profundo. Profundo e incrédulo: por que motivo o professor reagira daquela maneira, ainda por cima a um aluno com bom currículo, com provas dadas, esforçado, e que, naquele momento, procurava apenas dar resposta a um problema teórico? O professor insiste: “Saia, saia já!”
O aluno recolhe então os livros, coloca-os na mala e dirige-se em silêncio para a porta. Quando se prepara mesmo para sair, o professor, a sorrir (sim, a sorrir), interrompe-o. “Pode voltar para o seu lugar. Pode sentar-se. Agora ficaram todos a perceber o que significa ser despedido sem ter qualquer culpa.”


publicado por psylva às 19:48
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