Sábado, 6 de Agosto de 2005
O monopólio da humanidade


Por:
Rui Ramos



Seria bom que os beatos do Estado Social renunciassem ao costume de olhar de cima para quem não pensa como eles.

Descobriram-no, finalmente. Ainda não sabemos bem como foi. Em Blade Runner, Harrison Ford utilizava um questionário complicado. Mas as técnicas de detecção devem ter mudado nos últimos vinte anos. Seja como fôr, a notícia parece boa: o ser não-humano que se havia infiltrado no nosso governo foi identificado, e posto na rua. Na quinta-feira, o Dr. Mesquita Machado, o autarca-mór do PS, explicou: o suspeito era “tecnicamente competente”, mas “falhava na parte humana”, “não tinha sensibilidade para o problema das pessoas”. Houve quem, ao princípio, se tivesse deixado iludir. Não foi o caso do arguto autarca. O Prof. Campos e Cunha nunca o enganou.

Eis como os cruzados do Estado Social gostam de pôr as coisas. A política, para eles, é um confronto entre humanos e não-humanos. Os humanos são eles, os não-humanos são os outros, os descrentes e infiéis do Estado Social – como seria o caso, em segredo, do ex-ministro. Não quer isto dizer que os humanos coloquem o Estado Social acima da crítica. No debate do orçamento, o Eng. Sócrates admitiu “desperdícios”, e denunciou até os “grupos de interesse” que exploram o sistema. Haverá até advogados do modelo dispostos a reconhecer-lhe ineficiências inultrapassáveis. Mas nem por isso abdicam do dogma de que é moralmente superior. Só o Estado Social impediria os fracos de serem vítimas dos fortes, e todos nós de vivermos à maneira da selva, em competição desesperada. No Estado Social, os egoísmos e forças cegas estariam submetidas à justiça e clarividência da humanidade. Com o Estado Social, quando fôrmos pobres, como simpaticamente nos augura o comissário Almunia, seremos ainda humanos.

Não desejo, como é natural, incomodar consciências tão satisfeitas. Mas duvido que os estudos sobre o nosso Estado Social justifiquem tanta euforia moral. Leiam, por exemplo, o insuspeito Maurizio Ferrera. As suas observações sobre o funcionamento do sistema em Portugal são edificantes. O mercado gera desigualdades? O Estado Social também. O mercado favorece os mais fortes? O Estado Social também. No Estado Social, é o poder político que, em última instância, decide da alocação dos recursos. Isso não elimina a competição entre grupos e indivíduos. Apenas a desloca de um domínio para outro: do domínio da inovação e da produtividade para o domínio da política, do lóbi, e da acção sindical. O sistema favorece quem tem meios para pressionar o poder, intrigar nos bastidores, e manifestar-se nas ruas. E não são, como é óbvio, os verdadeiramente “mais desfavorecidos” quem tem esses meios.

Onde está, portanto, a superioridade moral? Seria bom que os beatos do Estado Social renunciassem a esse deselegante costume de olhar de cima para quem não pensa como eles. O debate poderia, assim, prosseguir a níveis mais civilizados e interessantes. Perceberíamos que estão em confronto dois modelos sociais, um que assenta na decisão centralizada do poder político, e outro que deixa as decisões aos indivíduos. As vantagens e desvantagens de cada um dos modelos para gerar e fazer circular riqueza podem ser discutidas pelos técnicos. Fundamentalmente, porém, há aqui um choque de duas visões: uma que valoriza a igualdade, administrada pelo poder político, e outra que valoriza a busca da excelência, deixada à iniciativa individual. Existem argumentos muito convincentes a favor de uma e outra visão. Também existem esforços menos convincentes para combinar as duas. Mas não vale a pena partir do princípio de que as virtudes estão só de um dos lados. Ninguém tem o monopólio da humanidade.



publicado por psylva às 21:25
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