Sábado, 6 de Agosto de 2005
A armadilha do terrorismo
A Al-Qaeda pretende destruir a nossa forma de vida e irá consegui-lo, pelo menos provisoriamente.

Dez dias depois dos atentados de Londres, a Al-Qaeda, ou um grupo relacionado com ela, voltou a emitir um “ultimato” aos países europeus, dando um mês para eles saírem do Iraque. Se tal não acontecer, avisam, sofrerão uma campanha de ataques terroristas como nunca viram. É claro que, depois de Nova Iorque, Madrid, Bali e Londres, qualquer ameaça deste tipo deve ser levada a sério e, como reconheceu a polícia inglesa, é praticamente impossível evitar novos atentados.

Esta terrível “inevitabilidade do terror”, e sua verificação periódica nas cidades ocidentais, vai fatalmente obrigar o nosso mundo a mudar. Para já, é visível o esforço tremendo que os poderes públicos fazem para não deixar o verniz estalar. Bush visitou mesquitas depois do 11 de Setembro, Blair convocou os líderes islâmicos para uma conferência, e ambos pediram ajuda no combate ao terrorismo. Por agora, parece chegar. No entanto, se a vaga de atentados continuar, o “verniz civilizacional” que caracteriza o mundo Ocidental pode quebrar.

É óbvio que o Ocidente gosta de ter de si próprio uma imagem de tolerância e liberdade, de superioridade moral sobre outros locais do mundo. No entanto, esse estado é necessariamente dependente das circunstâncias do mundo. Desde a 2ª guerra mundial, foi possível ao Ocidente, em especial à Europa, viver nesse mundo de paz e liberdade. Mas, convém não nos esquecermos de que se passou imediatamente antes. Entre 1939 e 1945, grandes nações do mundo Ocidental atiraram-se às goelas umas das outras com uma ferocidade nunca vista na história da Humanidade. O nazismo, o estalinismo, os campos de comcentração, as câmaras de gáz, as bombas atómicas, os terríveis bombardeamentos de Londres, Berlim ou Dresden, os horríveis combates de Estalinegrado, não foram entre beduínos, masai, ou mujaedens. Foram entre ocidentais, alemães, ingleses, americanos, ou orientais, como japoneses ou russos. Na época, como hoje, estávamos a falar dos povos mais civilizados, educados e ricos do mundo. A barbárie deu-se com eles.

60 anos depois, é importante perceber que, se provocados em demasia pelos terroristas islâmicos, os povos europeus podem voltar a revelar a sua propensão bárbara. Se as campanhas terroristas começarem a matar com grande frequência pessoas nos transportes de Varsóvia, Copenhaga, Roma, Paris ou Lisboa, as raivas começarão a crescer e serão difíceis de suportar.

Logo a seguir a Pearl Harbour, os americanos decidiram que as comunidades japoneses da Califórnia teriam de ser colocadas em campos de “controle”, onde aliás passaram todo o tempo da guerra. A expulsão dos imãs mais radicais, que os ingleses estão a considerar, é um primeiro passo, mas se as coisas se complicarem muito, outros se seguirão. Pouco a pouco, os ocidentais vão tornar-se mais “israelitas”, e vão começar a aparecer vozes a defender os “raides aéreos” de retaliação, o fecho das fronteiras, ou até as políticas de assassinatos selectivos. Nenhuma sociedade civil democrática aguenta durante muito tempo bombistas suicidas a explodirem-se nos autocarros ou nos metros, a matarem-nos os filhos, os familiares ou os amigos.

Infelizmente para a Europa, que sempre criticou Israel, as campanhas terroristas que julgávamos só ser possíveis em Tel-Aviv ou Jerusalém, já estão em King´s Cross, e em breve serão trazidas para outros locais. A declaração de guerra da Al-Qaeda pretende destruir a nossa forma de vida e, gostemos ou não, irá consegui-lo, pelo menos provisoriamente. Quanto mais dramáticos e mortais forem os ataques, mais nós teremos de mudar, não só aumentando a repressão policial, mas o que é bem pior, impondo repressões civis. Em certos casos, e infelizmente para muitos muçulmanos pacíficos, serão eles as principais vítimas. Vão ser estigmatizados, encurralados, as suas vidas vão ser analisadas à lupa, os seus direitos restringidos, e muitos poderão ser expulsos. Que ninguém duvide da terrível raiva que se esconde sob a superfície tolerante da Europa. Esperemos que seja possível controlá-la.



publicado por psylva às 21:24
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