Sábado, 6 de Agosto de 2005
Do bom ou mau governo


Que sentido faz querer construir o TGV e, ao mesmo tempo, privilegiar os transportadores rodoviários?

Ontem, os camionistas saíram à estrada. Para protestarem contra o aumento do preço dos combustíveis.
Ontem, ao fim do dia, o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, anunciou aquilo que designou como um pacote de medidas de "discriminação positiva": os transportes públicos de mercadorias vão beneficiar de algumas isenções fiscais.
Ontem, foi revelado que, se se mantiverem os actuais modelos de desenvolvimento económico, as reservas mundiais de petróleo estarão esgotadas lá para 2050.
Ontem, um conjunto de economistas divulgou um manifesto onde reforçaram as dúvidas sobre a utilidade de alguns grandes investimentos em obras públicas, nomeadamente os que o mesmo ministro Mário Lino defendeu serem indispensáveis para Portugal não ficar para trás.
O que é que estas notícias soltas nos mostram? Que, para nossa desgraça, temos um ministro das Obras Públicas que raciocina como se ainda vivêssemos no século XX e não no século XXI. Se não meditemos nestes elementos:
em Portugal a maior parte das mercadorias é transportada por estrada, um método de transporte que exige maior dispêndio de energia do que o transporte ferroviário. Em Portugal, a principal linha ferroviária de ligação a Espanha, a da Beira Alta, foi objecto de volumosos investimentos de modernização e permite hoje boas velocidades de circulação, melhores que muitas linhas estruturantes em países onde se apostou no transporte ferroviário - contudo, apenas 2,9 por cento das mercadorias que entram em Portugal utilizam aquela infra-estrutura.
Em qualquer parte do mundo, mas sobretudo na Europa, pratica-se a saudável política de deixar repercutir no consumidor final a flutuação dos preços dos combustíveis e, sobretudo, não se subsidia um meio de transporte que é pouco eficaz do ponto de vista energético, quando o petróleo está ao preço que está e, para mais, se começa a esgotar.
Em todos os países onde existe uma saudável autoridade do Estado, os governos não cedem aos primeiros contestatários, e logo no dia em que estes perturbam milhares de concidadãos, dificultando o trânsito nas estradas, dando-lhes aquilo que a racionalidade económica e a equidade no tratamento de todos os contribuintes recomenda.
Em países evoluídos mas periféricos, como a Irlanda ou a Finlândia, tal condição periférica não é invocada como argumento para grandes obras públicas de utilidade duvidosa - e tal não significa que o Estado invista menos, mas que investe muito melhor, como as taxas de crescimento dessas duas nações mostram.
Não nos iludamos: o bom governo não é que gasta muito em obras públicas, é o aplica parcimoniosamente e com critério o dinheiro dos que pagam impostos. O bom governo não é o que confunde a necessidade de promover o transporte público com a cedência aos interesses dos transportadores rodoviários. O bom governo não é o que promete infra-estruturas ferroviárias de luxo quando o país possui linhas férreas de qualidade subutilizadas. O bom governo não é o que raciocina com base nos critérios do passado, mas olhando para o que o futuro nos reserva, percebendo, por exemplo, que não se deve subsidiar actividades que consomem combustíveis derivados do petróleo, quando este está caro e deverá ser cada vez mais raro, e logo mais caro, no futuro.
O problema é que bom governo é coisa que parece não rimar nem com Portugal, nem com os hábitos portugueses. Salve-se pois quem conseguir bloquear mais estradas.



publicado por psylva às 21:23
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