Sábado, 6 de Agosto de 2005
Orçamento, sanguessugas e gafanhotos
Por: joão

césar

das neves

Portugal tem um problema claro. Há dificuldades e obstáculos, mas apenas um grande problema profundo e estrutural muitos trabalhadores a receber muito mais do que contribuem para o País.

Esta afirmação, aparentemente polémica, é afinal quase consensual. Todos sabemos que há trabalhadores a receber mais do que valem. Aliás os discursos políticos e as notícias do jornal dizem-no diariamente, só que nunca desta maneira directa. Todos sabemos que há muitos parasitas; só variamos na sua identidade. Uns falam de reformas milionárias ou salários principescos. Outros apontam carros em demasia ou luxos nas viagens. Outros ainda culpam a corrupção e a evasão fiscal. Mas todos sabem que há muita gente a roubar o Estado. E todos sabem que isso é hoje muito grave.

Porque não se esgotam aqui os lugares-comuns. Todos sabem que esse roubo se tornou a causa do maior problema do País. Não é difícil estender o consenso quanto se fala do drama central das contas públicas e do bloqueio que ele cria na actividade económica. Esses abusos salariais são, portanto, a razão central da actual crise nacional. Os jornais obedientemente atarefam-se a desenterrar os respectivos escândalos.

Mas será que a estagnação portuguesa se deve, afinal, apenas a uma infestação de parasitas? Está o organismo nacional a sofrer de um simples ataque de sanguessugas? Bem, a questão é essa, mas não da forma de que se fala. Nós temos, não tanto parasitas, mas gafanhotos.

É preciso dizer que não existem dúvidas quanto aos privilégios escandalosos. Essas despesas são elevadas e imorais. Mas têm dois óbices importantes não são relevantes e desviam a atenção do essencial. Porque, por estranho que pareça, a maior parte das opiniões sobre o buraco orçamental não se baseia na actividade mais directa e relevante: fazer contas. O dinheiro envolvido nesses abusos é microscópico perante a dimensão da cratera. Os casos que têm monopolizado a opinião pública são simbólicos, mas pouco mais.

O real problema nacional é, de facto, de trabalhadores que recebem mais do que produzem. Mas são outros. As pessoas esquecem que a única coisa que pode devastar uma selva não é a marcha dos elefantes, mas a fome das formigas "marabunta"; a única coisa que pode arruinar a planície não são manadas de herbívoros, mas pragas de gafanhotos. O nosso problema real situa-se em centenas de milhar de funcionários que, ganhando muito menos que os privilegiados, esmagam o Orçamento pelo número. O nosso problema é, sobretudo, que cada um desses, recebendo pouco, recebe mais do que produz para o País.

Não sei se repararam, mas os recentes debates sobre a função pública nunca falam de produção. Invocam dinheiro mal gasto, direitos adquiridos ou níveis de países ricos. Em momento nenhum aparece a questão da relação entre esse salário (pago com impostos) e o valor do seu trabalho para a sociedade.

O problema é bem visível ao comparar essa retórica com a lógica do sector privado. Aí os salários são determinados pelos custos da empresa e pela possibilidade de se manter competitiva. Só quem produz mais pode ganhar mais. A questão torna-se bem visível nos valores do crescimento real dos salários (vd. Banco de Portugal). Desde a entrada na UE, em 1986, o salário real por trabalhador de toda a economia aumentou em média 2,3% ao ano. Mas no sector empresarial esse crescimento foi apenas de 1,9%. Isso significa que o sector estatal cresceu muito acima das empresas. Se assumirmos que ele ocupa 15% da população activa, a média seriam uns astronómicos 4,7%. Isto é marabunta!

Tal não seria grave se esse sector contribuísse com algo comparável para o bem-estar nacional. Mas todos sabemos que, mesmo nas estimativas mais generosas, o valor da produtividade no Estado é muito inferior ao das empresas. Deste modo Portugal engordou nas últimas décadas um mecanismo que, em nome do fornecimento de valiosos serviços públicos, representa a devastação do corpo nacional. Os trópicos sabem que nada resiste a gafanhotos.



publicado por psylva às 21:22
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds