Sábado, 6 de Agosto de 2005
Competitividade e... dinheiro dos outros
“... Dos directores destas companhias (”joint stock companies”), sendo administradores mais do dinheiro de terceiros do que do seu próprio dinheiro, não se pode esperar que cuidem dele com a mesma vigilância aturada com que frequentemente os membros de uma sociedade privada cuidam do seu (...).

Deste modo, a negligência e o esbanjamento têm sempre, mais ou menos, que prevalecer na administração dos negócios de uma companhia deste tipo.”
Quem afirmou isto foi Adam Smith, há mais de duzentos anos, algo que os seus pseudo seguidores esqueceram, apesar dos mais recentes escândalos da gestão de grandes empresas nos Estados Unidos e na Europa. Esse esquecimento manifesta se sobretudo pela continuada discussão sem sentido do “público versus privado” que, não raramente, degenera na discussão do “governo vs Privado”.

Adam Smith não distingue o governo da área privada, mas sim, numa linguagem mais moderna, o “agente” do “principal”.

É evidente que toda esta discussão se põe no contexto extremo da defesa do egoísmo estrito, tantas vezes associado, erradamente, a Adam Smith.

Basta, para o mostrar, lembrar outra das suas posições: “Por mais egoísta que um homem possa ser, há evidentemente na sua natureza alguns princípios que o interessam pela sorte dos outros e tornam a felicidade deles necessária a si próprio, embora disso não usufrua nada, a não ser o prazer de a ver.”
Um olhar atento às duas citações de Adam Smith pode evidenciar uma latente contradição: “se eu me interesso pela felicidade do outro, então trato dos seus negócios tão bem quanto dos meus, porque isso o fará feliz e eu sinto me bem por o ver feliz”, seria a conclusão extremada da segunda citação. O caro leitor já estará, por certo, a rir se de tanta ingenuidade ou utopia... e tem razão.

Mais creio que, de qualquer modo, vale a pena confrontarmos as duas situações polares para entendermos que cada um de nós, isoladamente ou em grupo de interesses, defronta, mesmo no campo das acções económicas, este inescapável “trade off” que está, afinal, no centro da emergência da ética negocial e da mais badalada responsabilidade social das empresas.

Mas se assim é para o caso de um administrador do dinheiro de outros, que dizer do governo e dos governantes que, em permanência, gerem e utilizam o dinheiro dos outros para as finalidades comuns desses outros?
Em que situação a relação “agente-principal” é mais relevante do que aqui? E qual a relação que tem sido mais pervertida que esta, em que o “agente” tantas vezes se assume como “principal” e o “principal” se demite do seu papel?
É bom lembrar que, neste caso, o “agente” é o governo (em qualquer dos seus níveis) e o “principal” é o povo (sobretudo o povo pagante!) e não o contrário.

Se tivermos em atenção Adam Smith entenderemos que, facilmente, o “agente”, ou seja o governo, conduz os negócios com “negligência” e “esbanjamento”, que é preciso evitar a todo o custo. Negligência e esbanjamento, como salienta Adam Smith, que são comuns também às empresas não administradas pelos próprios donos (e mesmo essas...), mas para as quais se têm testado modelos de governação que minimizem essas perversões.

E para os governos, como minimizá las? Que tem sido feito, de verdadeiramente profundo, para discutir o verdadeiro papel do governo na actual situação de globalização, de interdependência e de profunda mutação tecnológica e escolher a orgânica e governação que melhor pareçam garantir uma eficiente e equitativa obtenção dos seus fins, entretanto claramente assumidos?
Já há uma década, num estudo sobre o assunto, escrevi:
“O problema fundamental que deve estar em discussão não é a dimensão da intervenção do Estado em si mesma, mas se as despesas por ele efectuadas são de facto as escolhidas pelos cidadãos e, sendo o, se foram feitas de modo eficiente, isto é, atingindo os objectivos ao menor custo.

A resposta à primeira preocupação centra se na “governance” e na relação entre o Estado e a Sociedade Civil, designadamente como é que uma sociedade democrática reparte os poderes e obrigações entre a “governance” unilateral e a consensual. Ao contrário, a resposta à segunda preocupação tem muito mais a ver com a reforma do Estado, quer a que diz respeito à desintervenção quer, sobretudo, a que diz respeito à sua reorganização interna.”
Uma década depois, infelizmente, não vejo razões para alterar nada, a não ser acrescentar uma pergunta:
Como poderá ser competitiva uma sociedade em que cerca de 50% (não interessa a “guerra” das décimas) do valor bruto gerado é utilizada pelo Estado sem critérios claros de governação e, portanto, com manifestos indícios de “negligência” e “esbanjamento”?



publicado por psylva às 19:46
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1 comentário:
De Lus a 11 de Agosto de 2005 às 00:59
Inteligente!!
Sabe, em Portugal o problema é acima de tudo de educação. E a sua falta conduziu os portugueses à estupidez - que significa incapacidade de aprender. São incapazes de aprender porque são já incapazes de pensar. E a incapacidade vem do modelo positivista da universidade implementado há mais de duzentos anos e que atinge a quase totalidade dos portugueses. E este modelo positivista corroeu de tal modo os portugueses quen nem quarenta anos de Salazarismo o conseguiram abalar. Eu, que tenho Salazar como um grande governante e um homem superior, tenho de reconhecer que Salazar nunca conseguiu acabar com o maior problema de Portugal: a universidade. Conduziu com tal génio os destinos do país que durante o seu mandato as nossas graves deficiências que já vinham de muito atrás, passaram despercebidas. mas assim que morreu, o nosso país desabou. Poucos anos após a sua morte a existência histórica de portugal desapareceu, que é o mesmo que dizer que o povo português desapareceu. O que estamos a assistir hoje, é apenas o consequente desabar material. o que há mais de duzentos anos vem sendo ensinado nas universidades portuguesas é precisamente o materialismo que tudo corrói.
O ministério da educação foi a única pasta de que Salazar não foi ministro. O prestígio universitário, o facto de o ter sido, as preocupações com o concreto e o real, a sua pouca estima pelos intelectuais, etc., terão sido factores de peso para que este inteligente homem não visse onde estava o grande mal de Portugal.
Um país educado tem espírito e, com espírito, acaba-se sempre por ser liberal ou, pelo menos, feliz...


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