Domingo, 10 de Abril de 2005
Chile: a privatização da segurança social


Agora que nos EUA, tal como em outras paragens, se pretende reformar a segurança social é útil analisar as experiências anteriores.

O Chile embarcou num programa de privatização a partir de 1981: quem já estava no mercado de trabalho foi incentivado a colocar 10% do seu salário em fundos de pensões privados; e para quem entrou no mercado a partir dessa data, tal era obrigatório.

A lógica era tripla. Primeiro, aliviar as contas públicas. Segundo, os pensionistas viriam a beneficiar de uma gestão privada dos seus fundos. Terceiro: a economia.

A ideia era que os investimentos dos fundos de pensões promoveriam o mercado de capitais e ofereceriam crédito mais barato às empresas com a consequente aceleração do crescimento económico.

Sendo estes os objectivos, um quarto de século depois, os resultados foram mistos. Do lado negativo, o governo continua a ter que financiar a segurança social porque as contribuições de muitos não foram suficientes para garantir a pensão mínima de 140 dólares/mês. Resultado: ¼ do orçamento do estado continua a ir para a segurança social.

Depois, muitos fundos ficaram aquém das expectativas (em rentabilidade) e acima do esperado (em fees ocultos, por vezes representando 1/3 dos resultados). Em consequência, em alguns casos as pensões privadas não ultrapassam hoje 1/3 do valor que teriam se o pensionista tivesse optado pelo antigo sistema público. Com a diferença adicional de que a pensão privada tem uma vigência máxima de 20 anos e a pública é vitalícia.

Do lado positivo há que aduzir, primeiro que a situação da segurança social pública hoje poderia ser ainda pior, não fora a privatização; segundo, a alta rentabilidade de alguns fundos (10% de rentabilidade média anual); e terceiro, o milagre económico chileno das décadas 80 e 90, alimentado pela aquisição de acções e obrigações das empresas, pelos fundos de pensões.

Em jeito de balanço, a privatização parece ter sido boa para a economia. Mas – e apesar disso – ficou aquém das expectativas quer para o estado, quer para os pensionistas.

Daí o sistema estar agora a ser reanalisado para se fazer uma reforma: controlo dos fees dos fundos; garantir a sua qualidade de gestão; redução do nível das pensões públicas; e adiamento da idade da reforma. São estas algumas das medidas em discussão. Em outras paragens, como no Chile. Para onde é importante olhar para se aprender com a experiência dos outros. Porque a experiência própria é o pior dos professores: dá primeiro o exame e só depois a lição: o erro precede a aprendizagem.



publicado por psylva às 16:20
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds