Domingo, 10 de Abril de 2005
A bomba atómica asiática


A vontade dos bancos centrais asiáticos para continuarem a financiar os EUA através da acumulação de reservas em dólares não deverá resistir dois anos


A economia norte-americana tem menos de dois anos para corrigir de forma suave e controlada os seus desequilíbrios, defendem os economistas Nouriel Roubini e Brad Setser, em estudo agora divulgado. Na ausência desta correcção gerida, as economias norte- americana e internacional correm o risco de recessão, alertam.
Roubini e Setser, docentes universitários respectivamente em Nova Iorque e Oxford, consideram que o traço estruturante da economia mundial é o défice da balança corrente dos Estados Unidos da América (EUA). O saldo negativo da balança que combina as balanças de bens e serviços, rendimentos e transferências unilaterais deverá ter ultrapassado os 600 mil milhões de dólares em 2004, o que o coloca em torno do equivalente a 6,0 por cento do produto interno bruto (PIB), após os 531 mil milhões de dólares verificados em 2003 (4,7 por cento do PIB). Os economistas prevêem que o défice corrente continue a expandir-se significativamente em 2005 e 2006, na ausência de uma recessão ou uma queda importante do dólar. A dimensão deste défice é agravada pelo défice orçamental, o que faz com que a maior economia do mundo seja também a maior devedora, o que se traduz na absorção pelos EUA de 80 por cento da poupança do resto do mundo.
Por outro lado, o traço estruturante do sistema financeiro e monetário internacional é o financiamento dos EUA a taxas de juro baixas. O essencial deste financiamento, de que os norte-americanos precisam para sustentar os seus défices, é assegurado por bancos centrais, em particular asiáticos, e não investidores privados. Em 2003 terá ascendido a 485 mil milhões de dólares, o que representou 90 por cento do défice corrente.
Roubini e Setser consideram que as nações do Pacífico constituíram um novo sistema de Bretton Woods, que designam por Bretton Woods II. No original, criado no pós-II Guerra Mundial, a Europa e o Japão ligaram as suas moedas ao dólar; neste, as economias asiáticas ligaram as suas moedas ao dólar.

Riscos são para todos

O problema, realçam, é que se os EUA não tomarem medidas para reduzir as suas necessidades de financiamento externo antes que se esgote a vontade dos bancos centrais asiáticos para continuarem a aumentar as suas reservas em dólares, o risco de uma correcção súbita para a economia dos EUA e internacional aumentará.
Esta correcção terá como ingredientes a desvalorização acentuada do valor do dólar, a subida rápida das taxas de juro de longo prazo e a queda acentuada dos preços de uma série de activos de risco, incluindo acções e imobiliário. A baixa de preços conduzirá a uma severa recessão nos EUA e a queda das importações associada ao arrefecimento norte-americano e à queda do dólar conduzirá a um severo arrefecimento global, senão mesmo a uma recessão.
Os economistas adiantam que para os países financiadores dos EUA os benefícios da colagem da respectiva moeda ao dólar, que se traduz em taxas de câmbio estáveis, excedem os custos da acumulação de reservas. Por exemplo, a ligação da moeda chinesa ao dólar tem ajudado as exportações do país permitindo absorver o excesso laboral de centenas de milhões de trabalhadores pobres e pouco qualificados, oriundos do seu vasto sector agrícola. Em contrapartida, a acumulação continuada de reservas por parte dos bancos centrais asiáticos permite aos EUA utilizar a sua procura interna para conduzir o seu crescimento e gerir os resultantes grandes défices correntes.
Roubini e Setser, defendem que o actual "status quo" não resiste dois anos, uma vez que a escala do financiamento requerido para sustentar o défice corrente dos EUA está a aumentar a uma velocidade superior à vontade dos banqueiros centrais continuarem a empilhar reservas em dólares. Só o banco central da China acumulou 100 mil milhões do último trimestre de 2004, que corresponde a um total anualizado de 400 mil milhões de dólares.
Vários factores contribuem para a insustentabilidade da actual situação, entre eles o risco que coloca ao sistema financeiro asiático. Por exemplo, uma apreciação do renminbi em 33 por cento face ao dólar significaria uma perda de capital equivalente a 10 por cento do PIB da China. Roubini e Setser consideram que quanto mais tarde o ajustamento, maior a perda, e que a China poderá perder o equivalente a mais de 20 por cento do PIB em 2008. Ou seja, o Bretton Woods II requer que a China esteja disposta a aceitar grandes riscos para o seu futuro crescimento económico e grandes perdas nas suas reservas em dólares, concluem.



publicado por psylva às 16:18
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds