Segunda-feira, 10 de Julho de 2006
O grande esquema



Entre as greves recorrentes e as faltas constantes de muitos professores, os alunos mal notam menos um dia de aulas.

No livro ”The Scheme for Full Employment” (Picador: 2003), o escritor Magnus Mills conta a história de um brilhante esquema para pôr fim ao desemprego.

O primeiro passo consiste em criar carrinhas compactas para transporte de mercadorias. Elas devem ser facilmente reconhecíveis e desmontáveis em várias peças de pequena dimensão. De seguida, constroem-se instalações espalhadas por diferentes regiões, separadas por menos de duas horas de condução. Em cada uma destas bases, existe uma oficina, um armazém, uma garagem, assim como espaço para escritórios e cantinas. O último passo é contratar os trabalhadores: mecânicos especializados na manutenção dos veículos e na sua montagem e desmontagem; armazenistas que descarregam as cargas e gerem o ‘stock’; condutores para dirigir as carrinhas; supervisores que gerem as operações; e outros como cozinheiros, pessoal de limpeza, quem vigie o portão, etc.

O esquema está montado. O trabalho consiste em carregar mercadorias de uma base para outra, de forma a garantir que todas têm sempre os ‘stocks’ a um nível adequado. E o que são estas mercadorias? São caixas com peças sobresselentes das próprias carrinhas. O esquema é brilhante porque é auto-suficiente: quanto mais as peças são movidas entre bases, maior a probabilidade de avarias, que por sua vez justificam mais viagens para buscar peças. Para além disso, o esquema pode acolher quase qualquer pessoa que procure emprego.

Claro que há o pormenor incómodo de como pagar salários quando não há receitas. Mas afinal para isso é que servem os contribuintes e os impostos! O esquema é um grande desígnio nacional, uma instituição nobre de que o país se pode orgulhar. O papel dos supervisores é garantir esta boa imagem do esquema. Trabalha-se, como noutras profissões, das 9 às 5, e os condutores não devem ter pressa de forma a que se comportem de forma cortês na estrada. As carrinhas reconhecíveis e os seus condutores afáveis e sempre atarefados de um lado para o outro tornam-se rapidamente respeitados por todos.

Na novela de Mills, depois de anos de operação, surgem problemas no esquema. Alguns trabalhadores gostam de sair mais cedo e há supervisores permissivos. Outro grupo, os puristas, receia que estas saídas exponham a inutilidade do esquema e comprometam a credibilidade dos seus trabalhadores. O conflito entre os dois grupos vai escalando até ao ponto em que um dos lados declara greve. Depois de três semanas de paralisação, os dois grupos acabam por negociar uma solução de compromisso. Todos terão o direito a sair 10 ou 15 minutos mais cedo, e por vezes (mas só raramente) poderão sair uma ou duas horas antes das 5.

Por esta altura, no entanto, os danos para o esquema são irreparáveis. Enquanto as operações estiveram paradas, os outros cidadãos notaram que não se sentiu falta de nada. Os trabalhadores do esquema começaram a ser vistos como preguiçosos e egoístas. A atenção da imprensa expôs o custo do esquema para cada contribuinte. Uma inspecção de rotina é escrutinada pela opinião pública e descobre falhas graves. Pouco tempo depois, o esquema é encerrado.

Os protestos do último ano na função pública em Portugal fizeram-me recordar este livro. No sector da justiça, entre magistrados, pessoal dos tribunais, e funcionários do Ministério da Justiça, estão muitas pessoas que passam grande parte do seu tempo a trocar processos, recursos, e outros papéis entre si. Apesar do prestígio social de que gozam e dos confortáveis salários e horários, alguns destes trabalhadores fizeram greve no seguimento de uma disputa sobre o direito a trabalhar menos. Essa greve praticamente não fez mossa no dia-a-dia de ninguém – poucos repararam que os seus processos judiciais vão demorar uma década mais alguns dias em vez de apenas uma década.

Agora, é vez dos professores. Estes convocaram uma greve estrategicamente colocada para lhes permitir uma ”ponte”. Entre as greves recorrentes e as faltas constantes de muitos professores, os alunos mal notam menos um dia de aulas. Para além disso, vários professores afirmaram publicamente que os pais sao incapazes de perceber o seu brilhante esquema e de os avaliar.

Felizmente que o livro de Mills é de ficção. Na vida real, esquemas tão brilhantes como o de Mills certamente nunca terão um fim. ____



publicado por psylva às 13:24
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