Domingo, 10 de Abril de 2005
Apeiem-se e empurrem


Quando Bill Clinton reduziu alguns programas sociais, o senador republicano Phil Gramm comentou: agora aqueles que iam à boleia irão apear-se e empurrar connosco.

Esta é uma frase que resume liminar e transversalmente uma série de causas responsáveis pelo atraso português: a % da população que vai à boleia enquanto os outros... empurram.

Encontramo-los um pouco por toda a parte: na administração central e local, quer quando não cumprem o horário (daí Portugal, além de um choque fiscal, precisar de um choque de horário); quer na atitude: levantando dificuldades por simples prazer (de atrapalhar) ou para vender facilidades. Ambos os factos ilustram a importância de um verdadeiro sistema de incentivos na função pública.

Depois, no sector público empresarial há 366 (!) controladas ou participadas pelo Estado e responsáveis por 4 mil e 600 milhões de euros em indemnizações compensatórias, subsídios, aumentos de capital, suprimentos e garantias à exploração entre 1999 e 2001; anualmente 1,3% do PIB, 154 euros ‘per capita’ por ano, quase ½ euro por dia por pessoa, é gasto para este fim (Tribunal de Contas, Janeiro 2004). Todas estas empresas estão encostadas, de uma forma ou outra, ao Orçamento.

Há ainda os que usam os seus monopólios (Carris, CP, etc,), ou posição dominante (EDP, PT, etc.), para oferecer um ‘deficit’ de serviço e receber um ‘superavit’ de preços.

Nas empresas privadas vão à boleia aqueles que trabalham pouco, devagar e... mal: chegam tarde, tomam um café, conversam, telefonam, almoçam e passeiam-se: na melhor das hipóteses fazem apenas vento; na maioria dos casos, são ómegas: não adiantam nem atrasam. Falta aqui um choque de concorrência.

Há ainda aqueles empregados que adoecem com frequência, o que já levou o Financial Times a chamar a Lisboa a capital mais doente da Europa (2/10/2002): 7,6% de taxa de absentismo, excluindo doenças profissionais (acidentes, etc.), suspensões disciplinares e maternidade/paternidade. Em Espanha o absentismo é de apenas 2,7% (pouco mais de 1/3 do português).

Lá fora não é assim? Não, não é. A % de população que vai à boleia (face aos que empurram) é muito menor. Ou se empurra, ou se apeia. Porque os mercados funcionam muito melhor. Com mais concorrência. Estimulando cada um a dar o seu melhor. Como disse A. Greenspan, presidente da Reserva Federal: “quando era jovem, detestava os economistas meus concorrentes; mas cada um deles fez de mim um melhor economista”.

É certo que quem não quiser, não tem que empurrar: a liberdade é sobretudo a liberdade dos outros. Mas então não vai à boleia: apeia-se e segue outro caminho: lazer, trabalhos marginais, ‘part-times’, nas franjas da sociedade. Tudo bem. À boleia? Tudo mal.

Daí, Portugal precisar de um choque de concorrência. De lés a lés. Porque o ritmo da cadeia produtiva é o ritmo do seu elo mais lento.

E daí também o mistério de, sendo os portugueses em Portugal os menos produtivos na UE-15, no estrangeiro, contudo, são vistos como trabalhadores; disciplinados; e prestimosos. Porquê? Porque aquilo que se incentiva é aquilo que se obtém.



publicado por psylva às 16:16
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