Domingo, 10 de Abril de 2005
Keynesianos e monetaristas






“Se surgem muitos remédios para um único mal, é porque este não tem cura”.
Anton Tchekov (1860-1904)

A discussão entre Keynesianos e Monetaristas, tem dividido há décadas o pensamento económico e os economistas. Fervorosos adeptos de Keynes vêm com insistência a terreiro afirmar as virtudes do Estado-providência; pelo contrário, os adeptos de Friedman e da Escola de Chicago têm vindo a fazer valer a sua visão liberal sob as várias perspectivas económicas.

O debate Keynesiano-Monetarista das últimas duas décadas deve ser classificado como uma das controvérsias mais frustrantes de toda a história do pensamento económico, lembrando frequentemente as disputas medievais no seu pior. Repetidamente, afirmações violentamente polémicas são manifestadas, e posteriormente retiradas - a teoria quantitativa da moeda é uma teoria da procura de moeda que está embebida numa negligenciada tradição oral de Chicago; a procura de moeda é inelástica em relação aos juros e a oferta de moeda é uma variável exógenamente determinada; mudanças substanciais nos preços e nos rendimentos nominais são sempre o resultado de mudanças na oferta de moeda; os pontos de viragem no crescimento da oferta de moeda, precedem invariavelmente o mais elevado e o mais baixo dos pontos de viragem do ciclo económico.

Muito do debate consiste em falar de mal-entendidos e às vezes é difícil lembrar o que está de facto em disputa, uma dificuldade que é sentida pelos protagonistas principais. Atravessando directamente o debate, há uma contínua discussão sobre aquilo que Keynes realmente pretendia dizer, como se fosse impossível resolver questões substantivas e política económica sem primeiro decidir como Keynes diferia dos “clássicos”. Uma vez que A Teoria Geral contém, pelo menos, três, e talvez mais, versões da teoria keynesiana (o Keynesianismo Hidráulico, o Keynesianismo Fundamentalista e o Keynesianismo do Desequilíbrio - classificações avançadas por Coddington em 1976), há infindáveis maneiras de combinar os seus elementos em algo chamado “Keynesianismo”. Discussões sobre a mensagem central de Keynes constituem portanto um nevoeiro doutrinal que deve ser atravessado antes de considerar os méritos respectivos dos argumentos keynesianos e monetaristas. De facto, estando com muita atenção a este debate, fica-se com a impressão de que os economistas estão mais preocupados com a hermenêutica da Teoria Geral do que com o avanço do conhecimento de como a economia realmente funciona.

Friedman seguiu de facto a metodologia do “instrumentalismo” na fase inicial do debate, ou seja, produziu previsões sem produzir quaisquer explicações teóricas dessas previsões; numa fase posterior do mesmo debate, porém, até ele capitulou finalmente à procura de uma teoria que sustentasse as suas previsões. A teoria que forneceu provou-se inadequada à tarefa e, assim, na última fase do debate, ele adoptou uma teoria inteiramente nova, repousando na distinção entre inflação antecipada e não antecipada. Assim, o monetarismo de Friedman abandona a metodologia do instrumentalismo, aparentemente não por ser inerentemente deficiente, mas por não ser persuasiva.

Friedman sempre insistiu no “trade-off” entre inflação e desemprego. Relativamente ao emprego, Friedman prometia que um período de alto desemprego não precisava durar muito tempo: no máximo, dois anos, ou em alguns casos três anos, era tudo o que era preciso para regressar de todo à taxa natural de desemprego. Foi o governo de Tatcher dos anos 80 que chegou mais próximo de testar esta ousada previsão: o facto de, apesar de dez anos de inflação, a taxa de desemprego do Reino Unido nunca ter descido abaixo dos 8% e de, em cinco desses dez anos, ter permanecido acima dos 10% teve muito a ver com o colapso da causa monetarista na Grã-Bretanha. Um outro prego no caixão do monetarismo foi a descoberta, em ambos os lados do Atlântico, de que as estimativas estatísticas da taxa natural de desemprego seguiram na esteira das taxas de desemprego passadas, subindo e descendo com estas; isto é, o seu nível dependia do caminho tomado para o atingir. Se isto é um fenómeno real - quanto maior a proporção do desemprego que é desemprego de longo prazo, maior é a proporção da força de trabalho que se encontra desempregada por virtude da perda de aptidões ou de hábitos de trabalho - ou simplesmente um resultado estatístico, é ainda uma questão em aberto, mas põe em causa a noção de que a taxa natural de desemprego é um alicerce estável capaz de servir como base para as políticas anti-inflacionistas.


publicado por psylva às 16:15
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