Domingo, 10 de Abril de 2005
Borges 3
O problema não é o modelo social, é o Estado asfixiar o crescimento e não libertar o potencial de inovação da economia

Acusado por muitos de ser um neoliberal, António Borges define-se como um social-democrata que se identifica mais com o modelo europeu do que com o americano. Isso não o impede de considerar que só libertando a energia do sector privado se cria riqueza

Optimista, considera que o momento que a economia mundial vive pode ajudar Portugal a sair da crise desde que o Estado estimule a concorrência, a inovação e o aparecimento de novas empresas. Não se incomoda de coincidir com o PS em aspectos do seu discurso, mas interroga-se como é que o Governo vai conciliar o aumento de gastos públicos que prometeu com a necessária arrumação das contas públicas.
Onde é que o Estado atrapalha a economia?
Na protecção de interesses instalados que actuam contra os agentes de mudança.
Está a pensar nalguma empresa?
Estou a falar num grande conjunto de sectores e de indústrias em que a regulação, a intervenção estatal, o controlo da actividade económica são feitos de modo a prejudicar os novos empreendedores. Ora a aposta deveria ser em quem aparece de novo, como na Escandinávia.
A governação do PSD falhou na regulação?
Se o PSD alguma coisa de importante fez, foi criar uma autoridade da concorrência forte, independente e lúcida. E o engº Álvaro Barreto liberalizou sectores que estavam encerrados. E não liberalizou mais porque o Governo caiu. Há um ponto importante, talvez o mais importante de todos, é que não podemos esperar ter uma economia aberta, com condições de inovação, de competitividade e de criação de novas empresas, para depois a asfixiarmos por um Estado que gasta tudo, absorve tudo e não deixa recursos livres. Daí o meu entusiasmo por Manuela Ferreira Leite...
Não existe uma correlação directa entre o peso do Estado na economia e os índices de crescimento. Veja a Finlândia.
Inteiramente de acordo.
Então qual é o seu problema?
Podemos preferir um Estado social muito generoso mas temos de saber minimizar as consequências dessa escolha em termos de eficiência económica. Podemos ter um sector público grande e financiá-lo correctamente. Mas o que está em causa não é só a dimensão do sector público, é sobretudo a forma como este afecta a economia e trava tudo o resto. O que é notável na Finlândia ou na Suécia é que, mesmo apostando num Estado social de grande dimensão, esses países têm um enorme respeito pela iniciativa, pela propriedade, pela concorrência, por manter os incentivos à mudança.
A sua visão para Portugal passa pelo enfraquecimento do nosso modelo social?
Não. O problema é outro. É termos ambições que não sabemos alcançar porque o modelo está mal estruturado e não é sustentável. A ideia de que a Europa está condenada à estagnação porque tem um modelo social muito pesado é uma ideia contradita pela realidade. O que é importante é não asfixiar o crescimento económico libertando o potencial de inovação e de criação que existe em todas as economias europeias, e também em Portugal. Isto não significa mais ou menos privatizações, pois para ter um modelo social generoso até podemos concluir que a melhor maneira é ter parcerias com os privados.
As nossas empresas reestruturam-se, dão lucro, reposicionaram-se no mercado, mas não investem. Como é que explica?
Um dos sucessos destes três últimos anos foi a recuperação da rentabilidade económica de muitas empresas, nomeadamente das grandes. Em 2001 a banca, a Sonae ou a Jerónimo Martins, para citar só algumas, estavam em situação muito difícil, mas o governo criou as condições para que a recuperação fosse possível, nomeadamente ao sublinhar a prioridade do reequilíbrio económico, levando-as a adoptar políticas muito rigorosas.
Se as empresas estão hoje bem, se têm recursos para investir, por que hesitam?
Porque não estão ainda convencidas do dinamismo da nossa economia e não têm coragem para investir fora de portas. Estão na expectativa.
Não está a dizer nada de diferente do que Sócrates tem dito...
Há muitas afirmações e propostas do primeiro-ministro que subscrevo: mais concorrência, mais liberalização, mais inovação, mais oportunidade para a criação de novas empresas. Já tenho dificuldades em aceitar propostas tradicionalistas que vão no sentido de confiar no Estado e na despesa pública (grandes projectos sociais e de investimento) como elemento dinamizador da economia. Este é o dilema do PS. Vamos ver quem é que domina na condução da acção governativa.
Há grandes projectos que só são viáveis com verbas públicas e, mesmo sem considerar que não se devam fazer, digo é que não é por aí que se relança o crescimento económico. O importante é criar um modelo de desenvolvimento diferente.
Vamos ser a Flórida da Europa, o sítio onde os reformados europeus vêm passar férias?
Também, também. A qualidade de vida que podemos oferecer é qualquer coisa de extraordinário. E existe aí uma oportunidade de criar profissões muito qualificadas nas indústrias da saúde e do lazer. Não minimizemos essa hipótese.
Mas não é disso que falo. Portugal, entre 1985 e 1995, fez uma completa revolução na economia. Em 1985 era só têxtil, vestuário, calçado, cortiça e vinho. Não havia mais nada. Em 1995 estas indústrias tinham passado para trás e tinha surgido um conjunto de novas actividades. Por que é que isso aconteceu? Porque em 1985 mudámos de modelo económico. Cavaco Silva liberalizou, desregulamentou e privatizou e depois confiou que o desenvolvimento acontecia. E aconteceu.
O enquadramento económico era mais favorável...
É verdade, mas se não tivesse havido esse novo modelo...
E tivemos estímulos: a entrada na Europa, a adesão ao euro. Agora, o que é que nos puxa?
Este governo começa a trabalhar numa conjuntura extraordinariamente favorável.
Pode explicar?
Temos uma conjuntura económica mundial que nunca foi tão boa. O crescimento dos EUA, de parte da Europa, do Brasil, da China, da Índia, do resto da Ásia, nunca foi tão favorável. Não digam que nós, um pequeno país, neste mundo que está numa fase de crescimento fabuloso, não consegue encontrar oportunidades. Há é que libertar a energia dos empreendedores, de quem é capaz de criar, de quem nos vai surpreender com novas actividades.
A sua visão dentro do PSD é vista como liberal. O partido está preparado para a aceitar?
Não sei o que é que quer dizer com liberal, porque se é preciso libertar muita energia e potencial, em paralelo é necessário ter um modelo social que traduza efectiva solidariedade. O nosso problema é que temos uma protecção caríssima e pouco eficaz.
Afinal é um social-democrata?
Sem dúvida.
Acusam-no de ser neoliberal.
Isso faz parte dos rótulos. Claro que sou um social-democrata e europeu. Vivi nos EUA e gostei muito de lá estar, mas ao fim de seis anos quis voltar para a Europa pois era onde me sentia bem.



publicado por psylva às 16:13
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