Domingo, 10 de Abril de 2005
Borges I
Temos que construir um PSD com ideias, com gente nova, abertura à sociedade civil e que não seja o mesmo de hoje

Por José Manuel Fernandes, Cristina Ferreira e João Pedro Henriques, fotografias de David Clifford

Depois do desastre eleitoral de Fevereiro, António Borges, que ajudou a fundar o então PPD, regressa a um congresso partidário com vontade de contribuir para a reconstrução do agora PSD. Para isso até acha que é bom que o partido passe quatro anos na oposição, mesmo que entretanto defenda a eleição de Cavaco Silva para a Presidência da República. O qual, acredita, até seria, pela sua exigência, uma boa ajuda para o sucesso das boas políticas do Governo de José Sócrates

António Borges, vice-presidente executivo do banco de investimento norte-americano Goldman Sachs, tem sido considerado um potencial futuro primeiro-ministro de um governo liderado pelo PSD. Em entrevista ao PÚBLICO, o economista declara-se um "social-democrata", que defende o Estado social europeu, pelo que recusa o rótulo de "neoliberal". Aos 55 anos, o ex-reitor da prestigiada escola de negócios francesa INSEAD afirma que vai ao Congresso apoiar Marques Mendes, mas esclarece que o faz com reservas pois a sua candidata era Ferreira Leite. E não dá indicações de querer disputar para já a liderança do PSD, pois antes "tem que dar provas". Fundador do Partido Popular Democrático (hoje PSD) e um dos redactores do seu primeiro programa, Borges vive há 25 anos fora de Portugal, residindo actualmente em Londres. Esta será a segunda vez que participa num Congresso do PSD - a primeira foi em 1975 - e nele apresentará uma moção estratégica para ser votada. Leonor Beleza, Alexandre Relvas e Jorge Bleck, Aguiar Branco e Rui Rio estão a seu lado.
PÚBLICO - Porquê uma moção agora?
ANTÓNIO BORGES - Ela aparece como forma de intervenção construtiva e para criar a oportunidade de lançar um movimento que mobilize e entusiasme as pessoas. Este momento é particularmente importante, é a altura de dizer que o país tem tido problemas muito sérios que não se vão resolvendo. O PSD chegou ao Governo para criar uma política nova e colocar o país noutro caminho, e, três anos depois, é bom reconhecer que as coisas correram mal e, com muita humildade, recomeçar. É preciso aproveitar a vontade de muitos portugueses de que o país dê uma volta e o PSD apareça diferente. E é um momento único para encontrar novas lideranças. Gostaríamos que fosse outro o candidato...
Manuela Ferreira Leite?
Sim, mas ela não quis candidatar-se por razões muito nobres. Entre os dois que se apresentam seria desejável que o novo líder fosse Marques Mendes. Se se revelar um bom líder, terá todas as condições de sucesso.
Que condições?
Se renovar, abrir e mobilizar o partido, ou seja, se puser em prática os princípios da moção que defendo, então estaremos com ele.
Marques Mendes esteve ligado à direcção do PSD com Marcelo e com Barroso. Não é um novo rosto, como é que poderá personificar uma nova política?
Claro que não é um novo rosto, mas é uma nova liderança. Tem uma oportunidade de mudar e de fazer qualquer coisa de novo no partido. E esta moção destina-se a isso mesmo, começando até pelo líder, no bom sentido, no sentido da renovação. Depois desta derrota eleitoral, ninguém pode apostar na continuidade.
Espera que as pessoas que integram o seu grupo possam integrar a direcção do PSD?
Não está nas nossas mãos. A nova liderança é que escolherá com quem quer trabalhar. Manifestámos disponibilidade, interesse e empenhamento para trabalhar no partido e na vida política portuguesa, mas depende das condições. Se a nova liderança estiver connosco nos objectivos e princípios que pomos em cima da mesa, então estaremos com ela.
Vai ter lista para o Conselho Nacional?
Para já não.
O que propõe a moção?
Fundamentalmente a ideia de renovação e de refundação e uma nova ideia de fazer política. Precisamos de qualquer coisa de diferente e de uma exigência muito grande de integridade, bem como de um trabalho político que se desligue do interesse individual ou de grupo. Este é um dos problemas principais do país, que não é específico do PSD. A política está muito subordinada a interesses.
Já disse que a governação do PSD foi afectada por esses interesses e afirmou mesmo à RTP que alguns ministros se utilizaram do país para negócios privados. E ao ser questionado se Morais Sarmento e José Luís Arnault poderiam integrar o seu grupo, afastou essa possibilidade. Foi por se utilizarem das suas funções para benefício próprio?
Não é verdade. Deixe-me esclarecer. Para refundar o partido temos de saber distinguir os que estão na política por razões erradas, mas não associei os nomes que mencionou a essa situação.
Está disponível para reunir a sua moção com outra? Com a de Marques Mendes?
Não, a nossa é um projecto autónomo. Vamos ver como é recebida e até pode ser que não tenha sucesso.
A moção não poderá ser encarada como um ultimato ao novo líder: ou mudas a forma como se tem feito política ou, no próximo congresso, estaremos a disputar a liderança?
A moção é para unificar o partido, não para dividir. Sem mobilizar o partido não vamos conseguir ganhar eleições daqui a quatro anos. Temos que construir um partido com ideias, que tenha pessoas entusiasmadas, gente nova, abertura à sociedade civil e que não seja o mesmo de hoje.
Quanto tempo tem Marques Mendes para mostrar o que vale?
É normal que a sobrevivência de um líder partidário esteja ligada ao seu sucesso eleitoral. Mas isso acontece em qualquer parte do mundo.
Se em 2009 o PSD tiver necessidade de mudar o líder, está disponível para avançar?
O que digo é que estou disponível para contribuir para o PSD. Pensam que só me interessa ser líder e primeiro-ministro de Portugal, mas que legitimidade tenho eu para reclamar essa ambição sem nunca ter dado provas políticas de qualquer espécie? Para mim é mais importante colaborar numa equipa com condições para fazer um bom trabalho.
Vai fazer o percurso partidário que lhe falta?
Vou tentar estar mais presente e dar um contributo mais regular para o debate político em Portugal e no partido, se este quiser. Daí a moção. Se o PSD estiver aberto a novas ideias e contribuições, muito mais gente estará com ele.
Cavaco Silva foi o dinamizador da moção?
Conheço-o há muito tempo e volta e meia falo com ele. Mas isso nada tem a ver com a moção.
Não a debateu com Cavaco Silva?
Por acaso sobre o conteúdo da moção não.
O seu grupo não ouviu Cavaco Silva?
Que grupo? Não estamos a falar de um grupo organizado, mas sim de pessoas que se foram reunindo ao longo do tempo com regularidade. É uma geometria variável. Algumas reuniram-se logo em Junho, quando Durão Barroso se foi embora. E foram-se reunindo e discutindo. Quando ocorre a dissolução da AR dei uma entrevista que teve algum impacto. Mais tarde, já durante a campanha eleitoral, estivemos sempre calados e a única coisa que fizemos foi apoiar os candidatos do PSD que mereciam ser apoiados. Por exemplo, só depois das eleições se juntaram a nós Aguiar Branco e Rui Rio. Surge então a altura em que tentámos lançar a candidatura de Ferreira Leite, decidindo depois apresentar a moção. Mas não existe sempre unanimidade neste grupo. Há muito mais espontaneidade do que parece.
Mas sempre com o objectivo da renovação do PSD?
Sem dúvida. E eu sou o mais júnior de todos, ao pé de Leonor Beleza, de Jorge Bleck...
E Marcelo Rebelo de Sousa?
É um grande amigo com quem falamos com frequência. Tem o seu posicionamento próprio e podia candidatar-se a líder com toda a naturalidade. Mas não quis.
Apoiava-o?
Sem dúvida. É das pessoas que mais notoriedade dá ao PSD, que mais reputação e qualidades de liderança tem.
Ferreira Leite vai aparecer associada à vossa moção?
Julgo que não. Ela disse-nos que irá ao congresso, que defenderá as ideias em que acredita, e que acho que são estas, mas quer estar acima de todas as controvérsias.



publicado por psylva às 16:12
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