Sexta-feira, 4 de Março de 2005
Ricardo
Durante largas décadas, os estudantes de Economia de todo o mundo ouviram falar de um aristocrata britânico de inícios do Século XIX e parcial ascendência portuguesa (David Ricardo).

Segundo alguns, a sua consagrada teoria das vantagens comparadas e o exemplo de 2 países (Portugal/Inglaterra) e 2 bens (vinho/tecido) ter-se-ão mesmo constituído – bem antes de Amália, Eusébio ou Mário Soares – na melhor divulgação da existência de uma nação chamada Portugal...

O dito Ricardo foi o precursor de uma teoria do comércio internacional de validade universal ao demonstrar pioneiramente o que tantos outros depois desenvolveram em múltiplas direcções: que a livre abertura dos países às trocas entre si resultaria numa situação de vantagens mútuas e, portanto, num factor de progresso global. Todo o sistema comercial multilateral em que temos vivido (GATT/OMC) assenta, em última instância, nas bases assim lançadas há quase dois séculos.

Decorre toda esta divagação da recente publicação por parte do mais (re)conhecido economista vivo (Paul A. Samuelson, 89 anos) -também ele uma referência no edifício teórico da Economia Internacional (modelo de Heckscher-Ohlin-Samuelson) - de um artigo (JEP, 2004) que veio “abanar” fortemente muitas das convicções estabelecidas.

A lucidez de Samuelson provém da sua capacidade de interpretar e retirar ilacções da evolução do mundo real, no caso o alastramento do fenómeno da globalização. Não se trata já da perda de empregos nas economias desenvolvidas em razão da multiplicação de importações provenientes de países de mão-de-obra barata (com destaque para a China ou a Índia) ou da deslocação de unidades produtivas para tais países - aí, a contrapartida ainda é equacionável ao fazer acompanhar as vantagens dos consumidores (acesso a produtos importados de preços inferiores) de uma concentração da especialização daquelas economias em bens de maior valor acrescentado produzidos por trabalhadores mais qualificados.

Trata-se sim de outro facto, consubstanciado no ‘offshoring’ para aqueles países emergentes de empregos qualificados (”colarinhos brancos”) e nas suas potenciais consequências devastadoras nos EUA e outras economias centrais. O que Samuelson antevê é a formação de um mercado de trabalho global para os trabalhadores qualificados, podendo este conduzir a uma escalada descendente nos seus níveis salariais nacionais e a um arrastamento sobre os níveis salariais médios das economias em causa que mais que compensará os ganhos de preços nas importações e determinará uma enorme distorção na distribuição do rendimento a favor do capital; ao que acrescenta os efeitos nefastos da nova concorrência internacional sobre os preços de exportação e a performance daquelas economias – como o próprio afirma: “a vantagem comparada não pode ser contabilizada como criando... ganhos líquidos maiores do que perdas líquidas”.

Será cedo para se concluir estarmos perante uma mudança de paradigma. Mas é já claro que Samuelson nos veio trazer algumas “qualificações importantes” face aos ortodoxos argumentos dos defensores da globalização a todo o custo...



publicado por psylva às 21:46
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1 comentário:
De p a 6 de Março de 2005 às 20:43
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