Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005
Subcontratação: o debate

Pergunta: Devem os países ricos preocuparem-se com a subcontratação e exportação de empregos para o 3.º mundo?

Não. Desde sempre ela existiu. A Motorola, p.e., na década de 60 já tinha fábricas na Malásia, Coreia e México. A poupança de custos nas partes, permitia-lhe ser competitiva no todo.

Mas... hoje o processo é mais extenso. Em montante: anualmente 0,5% dos empregos nos EUA são exportados. Em países: China, Índia, Sudeste Asiático. E no tipo de empregos: pela 1.ª vez não é apenas trabalho barato mas, também técnico que é exportado: enquanto o México e China exportam trabalho barato, a Índia exporta trabalho técnico. Nos computadores. No software. Na aeroespacial. Partes destas indústrias são hoje exportadas para o 3.º mundo. Em Bangalore (Índia) há um centro de tecnologia Jack Welch. Desde 2000 que Silicon Valley perde empregos, ano após ano. Estima-se que 3,3 milhões de empregos e 140 mil milhões de dólares de salários técnicos, emigrarão dos EUA até 2015.

... Que podem os países ricos fazer? Acabar com os incentivos fiscais a operações no estrangeiro (John Kerry). Continuar a investir em I & D (os países do mundo que mais gastam em % do PIB são Suécia, Japão, Finlândia e EUA). Atrair mais e melhores alunos para as áreas de engenharia e ciência (antes os EUA atraíam os melhores alunos indianos, hoje já não). Combater as ‘sweat shops’ (mas apenas gradualmente porque elas são na verdade a alternativa a empregos ainda piores). Promover legislação ambiental. E, finalmente, não se preocupar demasiado.

? É que há limites (à subcontratação). Mecanismos de compensação. Ajustamento. E novas oportunidades.

Limites: A necessidade de grande qualidade (na produção de certos componentes). E de rápida adaptabilidade na oferta de outros: na electrónica, sistemas automatizados, etc., a esmagadora maioria do trabalho fica onde a tecnologia teve origem, porque o produto muda continuamente e há poucas rotinas.

Há, depois, mecanismos de ajustamento: Salários que sobem deixando de compensar os custos de transporte, a falta de flexibilidade e rapidez da subcontratação. E há a taxa de câmbio. Se a Índia produzir grandes superavits, a sua moeda valorizar-se-á encarecendo a sua mão-de-obra ( a alternativa é alta inflação a prazo).

Finalmente, surgem novas oportunidades, algumas independentes e outras devido à subcontratação. Primeiro, novas áreas emergem, onde os EUA já estão presentemente muito à frente: robótica, a genomia dentro da biotecnologia e a electrónica ligada à defesa. E segundo, a subcontratação cria ela própria oportunidades: mais salários no 3.º mundo significa mais dinheiro para 1) serviços ocidentais: saúde, lazer, turismo; e 2) bens em geral.

Friedman refere no N.Y.Times que quando perguntou a um CEO indiano cuja empresa faz assistência técnica, ‘call center’ e processamento de cartões de crédito: “Em que é que os EUA beneficiam?”. Este lhe respondeu: “Olhe à sua volta nesta sala. O computador? É um Compaq. O software? Microsoft. Os telefones? Lucent. O ar condicionado? Carrier. Ah, e as bebidas? Coca-cola...”





publicado por psylva às 21:54
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Jorge Martins a 28 de Fevereiro de 2005 às 16:15
Há vários problemas com a subcontratação. Eu não sou especialista mas vou dar um exemplo:

1. Os países subdesenvolvidos têm algo a que se chama Zonas de Processamento de Exploração. Nestas zonas podem ser aplicadas regras especiais de impostos (e outros esquemas) para atrair as empresas estrangeiras. Se funcionassem como se esperava tinhamos benefícios para essas empresas se sediarem no tal país, mas as empresas arranjaram um esquema que as livra da responsabilidade, que é o seguinte: no caso (por exemplo) da Nike, esta é apenas uma marca que subcontrata outras empresas. Por isso quem faz o contrato na Zona de Processamento de Exploração é a empresa contratada e não a Nike. Assim, a Nike pode fazer (como que por leilão) quem está disposto a fazer os preços mais baratos. Até aqui tudo bem, o problema vem agora. A contratualização feita pela Nike é por encomendas e esta (naturalmente) está à procura dos preços mais baratos e pode andar sempre a mudar de empresa subcontratada para empresa subcontratada. Então essas empresas vão andar sempre à procura das Zonas onde os benefícios são maiores. MAS, as empresas de sub-empreitadas têm fábricas móveis, o que lhes permite saltar de contrato para contrato com pouca duração (poucos anos). No entanto, os países também querem atrair as empresas e assim cedem mais, e oferecem mais garantias e benefícios.

Resultado: há ínumeros casos de trabalhadores em condições sub-humanas e sem benefício prático para o país em que estão.

Fonte: "No Logo", de Naomi Klein. De certeza que com esse livro ficas a perceber um pouco melhor. Aconselho também "Globalização, a grande desilusão, de Steiglitz(?) prémio nobel da economia, para assuntos relacionados com o mercado globalizado.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds