Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005
Passado
escolha é entre os que não nos tiraram da crise, os que lá nos meteram e os que fariam pior se lá estivessem. São esses que nos vão alimentar durante semanas com o mais diáfano dos manjares as promessas. E a única promessa que era preciso que nos fizessem é precisamente aquela que não vão fazer. Era urgente que nos garantissem solenemente que vão prejudicar a sério muita gente.

A democracia portuguesa funcionou surpreendentemente bem nos vinte anos iniciais após o 25 de Abril, pela primeira vez na sua História.

Mas começa a dar sinais das terríveis doenças que a destruíram nas suas existências anteriores. O corporativismo, clientelismo e, acima de tudo, o despesismo estão em crescendo desde que em meados dos anos 90 perdemos o medo à Europa.

Têm-se multiplicado os grupos de interesse que se arrogam direitos a dinheiros públicos e, por isso, voltaram os apertos que Passos Manuel, Fontes Pereira de Melo e Afonso Costa conheceram tão bem. Toda a sociedade está refém dessa chantagem fiscal.

O problema não é o défice, é o total da despesa. O Estado leva metade do que produzimos. Os impostos não podem dar mais do que dão, as medidas extraordinárias nunca deram e o combate à fraude é ficção. Confiar no crescimento económico para resolver o problema é como pedir chuva para encher um balde roto. Alimentar o monstro nunca o enfraqueceu. Só há uma solução, reduzir despesas. Isso não é austeridade, é seriedade.

Por isso seria vital que os candidatos em disputa nos dissessem claramente a quem é que vão cortar as benesses, quais os grupos que irão perder os subsídios, que «justas reinvindicações» o Estado não vai cumprir.

Isso era o que precisávamos que nos dissessem. Mas não vão dizer. As promessas assegurarão uma atitude severa e rigorosa, mas contra inimigos vagos ou abstractos, como evasores fiscais, corruptos e até alguns grupos de interesse, mas sempre anónimos.

A primeira razão está na comunicação social, que não perdoaria nunca a um programa honesto e realista. Podemos confiar nos media para estarem sempre contra o interesse nacional, enchendo-nos os ouvidos com quaisquer lamentos patéticos dos que vivem dos nossos impostos. Como nos recentes protestos dos trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos que, apesar de ninguém lhes tocar nas reformas superiores às dos outros funcionários, ainda se arrogam o direito a decidir onde o Estado coloca o fundo com que lhas paga.

Os jornais têm vindo a jogar um jogo viciado com os sucessivos ministros das Finanças. Se um ministro (como Ferreira Leite) se apresenta como austero, atacam-no por destruir o País com a dureza.

Mas se (como Bagão Félix) tenta uma atitude mais animadora, é arrasado por descontrolar as contas. As Finanças são presas por ter cão e presas por não ter. A coisa até teriam graça, se não fosse o País a sofrer. Os ministros são ridicularizados, todos riem, a intriga política prospera e o problema permanece. O programas dos partidos, para conseguirem passar, é optarem pela contabilidade de borracha.

A opinião pública, auto-intoxicada pelos alegados direitos dos que vivem à custa do povo, exigiria uma coragem sobre-humana a um ministro que se atrevesse a tomar medidas do mais elementar bom senso. Não admira, portanto, que as reformas fiquem por fazer, e se acu- sem os políticos de cobardia, depois de os colocar numa posição impossível.

Claro que não faltam culpas aos executores. Longe vão os tempos em que Cavaco Silva subiu o preço da gasolina a dias da eleição com o único argumento de que o País precisava. Hoje os políticos atropelam-se para mostrar a sua vassalagem à omnipotência mediática.

O mais grave da situação é que a situação não é suficientemente grave. Apesar do que dizemos, estamos longe de «bater no fundo». E, com a ajuda da Europa, talvez nunca lá cheguemos.

A conjuntura é suficientemente séria para indignar, mas não o suficiente para aceitar sacrifícios. Ela só promete que a mediocridade eloquente vai arrastar-se anos.


publicado por psylva às 21:53
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