Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005
Vem de longe o adágio: em casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.


Não é pois de admirar que de vários quadrantes venham propostas para a ”salvação nacional”, um pouco para todos os gostos: nas indústrias tradicionais passar do preço à qualidade e entrega (rapidez e pequenas ou grandes quantidades); apostar nos serviços (financeiros, turismo e saúde); desenvolver o vector estratégico do mar; etc.

Contudo, todas estas sugestões têm tanto de válido como de secundário. Face à verdadeira grande prioridade nacional, que é a mudança dos hábitos de trabalho. A ética de trabalho. A qual, para parte da população portuguesa, não só é má, como tem vindo a decair.

O primeiro dos maus hábitos é a proscrinação. Sendo o tempo o grande recurso escasso da vida, muitos gestores não são decisores, são indecisores. Vão adiando, adiando, como se a produtividade dependesse de pensamentos e não acções. Ora, o pensamento é um meio para a acção. Não uma alternativa.

Segue-se a falta de rigor. O desleixo. E o cinzento. Nos EUA e na generalidade da Europa, é não ou sim. Se é não, é não. Se é sim, é sim. Em Portugal? Primeiro é sempre sim. E depois nim (nem não nem sim).

Falta depois uma cultura de responsabilidade. Pelos objectivos. Pelos compromissos. Pelo dinheiro dos contribuintes, interesses dos accionistas, protecção dos empregados e o bem estar da comunidade.

Quarto: falta de pragmatismo – Qualquer defeito é pretexto para não se avançar, esquecendo-se que, neste mundo, nada sendo perfeito, tudo tem que ser avaliado em balanço, de prós e contras. Um dos mitos é que os portugueses são despachados. Não são. Apenas improvisam para resolver as emergências criadas pela sua lentidão.

Quinto: a preguiça que se refugia no falar e reunir em vez de 1) pensar, 2) decidir e 3) agir. E na desorganização (i. é., na preguiça mental). A flexibilidade dos portugueses resolve sobretudo os problemas criados pela sua própria desorganização.

Sexto: os truques, as pequenas ”manhas” fazendo com que nada seja o que parece, por oposição a ‘think straight, talk straight’.

Em síntese, prevalece hoje em vários sectores uma cultura de adiamento, desleixo, irresponsabilidade, ausência de pragmatismo, preguiça e ”truques”.

Pode-se mudar? Pode. Flexibilizando (os mercados). Liberalizando (a concorrência). Abrindo (ao exterior). Reformando (as instituições públicas).

Só através destes quatro vectores se fará a grande revolução necessária hoje, trinta anos após a revolução da liberdade: a revolução do trabalho.

Não trabalhar mais (Portugal já é o 2º país da UE que mais horas trabalha). Mas, melhor. Mais simples. Com mais rigor. Mais rapidez. Mais sentido de responsabilidade. Mais respeito.

Sem esta reforma, pouco das outras resultará. Pelo que não sendo suficiente, a revolução do trabalho, é certamente a primeira entre as grandes reformas estruturais, necessárias.







Dois dos livros mais oferecidos neste Natal foram O Código da Vinci de Dan Brown (Bertrand, 2004) e A Verdadeira História de Jesus de E. P. Sanders (Notícias, 2004). Nas suas diferenças, incluem uma oculta característica curiosa a própria base de raciocínio destrói-lhes a veracidade.

Ambos partem do princípio de que os Evangelhos são falsos. A razão, que repetem sucessivamente, é que os textos bíblicos foram escritos por fiéis várias décadas após os acontecimentos, o que lhes retira credibilidade. Mas eles, escrevendo dois mil anos mais tarde com base em crenças modernas, é que julgam relatar com segurança «a verdadeira História» do que aconteceu. Seria ridículo, se não fosse triste, pois os dois, mas sobretudo o teólogo Sanders, têm pretensões científicas.

O que não dizem é que neste campo essa abordagem pouco ou nada tem a ver com a solidez da Física ou até da História.

Eles não conseguem provas científicas, em qualquer dos sentidos, das palavras «provas» e «científicas». Existe investigação séria e factos prováveis, mas depois combinados em especulações e construções hipotéticas que, mesmo quando escoradas em argumentos respeitáveis, não têm qualquer garantia da certeza de outros ramos intelectuais.

Nesta disciplina o trabalho de cada investigador é construir uma teoria para compatibilizar os dados disponíveis da forma mais plausível. Nas lacunas ou contradições, esquecem uns, empolam outros. Por isso há tantas. Se a sua doutrina convencer os colegas, a tese ganha chancela de «resultado científico». Mas no tribunal da História, como nos outros, a principal fonte válida é a afirmação das testemunhas. «Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro» (Jo 19, 35). Desprezando isso, para mais a milénios de distância, perde-se a verdade e entra-se na ficção.

Estas teorias sofisticadas têm fatalmente de ser quase só fantasia.

Isso vê-se bem quando é descoberto um novo elemento objectivo, normalmente em escavações arqueológicas, e vários «resultados científicos» voam em estilhas, mostrando que as suas certezas seguras tinham mais de certezas que de seguras.

A data dos Evangelhos, por exemplo, ainda há pouco considerada muito tardia, tem vindo a ser aproximada do tempo de Jesus à força de achados da arqueologia.

Além disso, a questão aqui não é histórica. O que nos interessa na personagem de Jesus é saber se fez milagres, se ressuscitou dos mortos, se é filho de Deus. Qual a escavação, análise textual ou experiência laboratorial que permite a certeza quanto a isto? A ciência, por definição, não entra nestes campos, como na determinação do melhor bolo-rei ou do vencedor das eleições. Aduzir resultados científicos nestas matérias é arrogância tonta.

Os dois livros são pois manifestos religiosos sob capa objectiva.

O Código da Vinci não esconde crenças gnóstico-esotéricas.

A Verdadeira História oculta uma fé cientifista. A hipótese de partida é que há um Jesus histórico, que não interessa se é Deus ou ressucitou. A sua «verdadeira História» é mundana e separável de questões espirituais e sectárias. Pode separar-se Mozart da sua música? O Marx histórico não é revolucionário?

Isto, além de ser mera convicção de fé materialista (onde está a prova?), mostra uma tacanhez de espírito nada científica. Estar fechado a outras possibilidades foi sempre o maior obstáculo à descoberta da verdade





publicado por psylva às 21:46
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