Sábado, 20 de Novembro de 2004
O excepcionalismo americano
A leitura de “Plan of Attack” de B. Woodward (imortalizado com L. Bernstein por Watergate), trouxe-me à memória as palavras de Alexis de Tocqueville (séc. 19) sobre o excepcionalismo americano: não como melhor ou pior, mas no sentido de os americanos serem diferentes.

Este excepcionalismo percorre a sociedade americana de lés-a-lés: demográfica; religiosa; política; cultural; e economicamente.

Enquanto a UE15 envelhece e a sua população – decrescerá para 380 milhões em 2050 –, os EUA ultrapassam-na e alcançarão 410 milhões nessa data. Enquanto na Europa mais de 2/3 da população é urbana, os EUA é um país de subúrbios (+ de 50%): pequenas cidades, à volta de grandes metrópoles, mas com vida, comércio, serviços e indústria próprias.

Mais. Os americanos são um povo religioso: 44% frequentam habitualmente templos e 60% consideram que a religião é importante na sua vida, por oposição a 32%, 28%, 21% e 11% na Grã-Bretanha, Itália, Alemanha e França.

O sistema político é muito descentralizado: primeiro a nível estadual; e depois local: cidades e condados. Nenhum país tem mais eleições que os EUA, incluindo em alguns casos para juízes: de 4 em 4 anos um milhão de postos são eleitos.

Culturalmente as diferenças continuam. Gallup: à pergunta se tem muito orgulho na sua nacionalidade?... 80% dos americanos respondem afirmativamente, contra 45% britânicos, 38% franceses, 30% italianos e 19%(!) alemães. O que é mais importante que o governo faça? Ajudar os necessitados (62% em Itália; 61% na GB; 60% na França; 58% na Alemanha). Nos EUA? Apenas 35%. Então o que é prioritário? Dar liberdade para cada um atingir os seus objectivos (58%).

Segue-se o excepcionalismo económico: os americanos trabalham +11% de horas/ano que os europeus. Têm em média 15 dias de férias contra 25, 28, 35, 37 e 42 na Holanda, R.U., Alemanha, França e Itália. E uma produtividade superior à europeia em 11% (por hora) e 20% (por pessoa), maior esta por trabalharem mais horas. O seu PIB ‘per capita’ (PPP) é 42% superior ao europeu.

Por fim, os EUA são o país com a maior desigualdade da OCDE (o 2.º é Portugal): os 10% mais ricos ganham 17 vezes mais que os 10% mais pobres.

Em síntese, os EUA são uma sociedade excepcional (diferente). Individualista. Centrada no trabalho. No culto da simplicidade. Optimista. Produtiva.

E, por outro lado, (segundo um estudo de V. Labunsky) materialista. Superficial. Agressiva. Com pouca coesão familiar. E comunitária. Deselegante: uma sociedade de ‘jeans’, ténis e ‘t-shirts’. Apressada.

Nas palavras de O. Wilde após o seu regresso dos EUA: “Se os americanos não se vestem bem, vestem-se confortavelmente; no ar, além de conforto, há acima de tudo movimento, muito movimento e barulho. Todos parecem estar sempre com pressa para apanhar um comboio”.

No fundo, e como sempre na vida, os americanos têm os defeitos... das suas qualidades. E nuns e noutras são excepcionais.





publicado por psylva às 11:05
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