Domingo, 17 de Outubro de 2004
Cultivar Icebergues
O icebergue mais famoso do mundo afundou o "Titanic" em 1912, mas hoje pode estar a flutuar num copo de "whisky" de um japonês. A água dos icebergues, a mais pura do mundo, é transformada em gelo, vodka, cerveja, champanhe e vendida como água engarrafada de luxo, sobretudo no Canadá e no Japão.

Os icebergues são temidos na sua qualidade de maravilhas naturais, mas o fascínio por estes gigantes de gelo começou a gerar, nos anos 80, um novo fenómeno.

Na Terra Nova, no Canadá, há portos que têm o privilégio de assistir a uma dança de montanhas geladas, quando o calor do Verão solta alguns icebergues dos glaciares e os deixa à deriva pelo Atlântico Norte. Os turistas começaram a acorrer a cidades portuárias como Twillingate, na costa norte da Terra Nova, no extremo da América do Norte, para excursões fresquinhas onde se podem avistar, a poucos quilómetros, ilhas agrestes, brancas ou azuis, aglomerados milenares de água, neve e gelo. Hoje, vendem-se postais, fala-se de espécimes, do brilho ou cor particular de um icebergue nas ruas de Twillingate, como se fala nos aromas do vinho na região de Champagne.

A presença cada vez mais familiar dos icebergues gerou, na década seguinte, novas ideias de negócio. Não se tratava de projectos alucinantes como o plano de rebocar um icebergue até à Arábia Saudita, nos anos 70, nem de novas tentativas de arrastar um genuíno cubo de gelo gigante até Los Angeles, como se alvitrava no início da década de 1990. Qualquer dos planos não passou do papel, tal como os icebergues em questão nunca passariam inteiros pelo equador.

Na Terra Nova pensava-se sim em cultivar icebergues. A sua matéria-prima era o alvo: água puríssima, intocada há milhares de anos. Os icebergues que flutuam nos oceanos começaram a formar-se, como parte de glaciares, há mais de 15 mil anos, sob a forma de neve. Essa neve original foi sendo coberta por mais e mais neve e, mais tarde, gelo. No interior do gelo ficam esses flocos de neve intocados pelos químicos do mundo moderno.

Como os maiores icebergues chegam a ter 200 metros de espessura e dezenas de quilómetros de comprimento e largura, tornam-se verdadeiras fortalezas ambulantes para água que nunca foi tocada por poluentes. Para aproveitar esse néctar, a Iceberg Vodka Corporation começou a cultivar icebergues na época certa - entre Abril e Novembro - com aviões que os identificam no mar e rebocadores que se fincam na ilha gelada e arrancam partes directamente para máquinas de engarrafamento.

Essa água pura e doce é depois vendida por várias empresas de água e bebidas canadianas no Canadá e no Japão, onde cubos de gelo e água de icebergue são produtos "gourmet". Os fabricantes dizem, orgulhosos, que esta é água em que ninguém fez xixi e garantem que não há ressacas após uma litrada de vodka à base de icebergue líquido de elevada pureza.


publicado por psylva às 10:53
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