Domingo, 3 de Outubro de 2004
Os netos que paguem a crise
Era uma vez, há muitos muitos anos, uma família feudal com dificuldades financeiras. Sabendo que entre os seus servos alguns tinham feito um pé-de-meia para a reforma, decretaram a sua entrega aos cofres.

«E como vamos nós pagar as nossas sopas quando já não pudermos trabalhar?», choravam os servos. «Não se preocupem», disse paternalmente o senhor, «nós tomaremos conta de vós, pagaremos as vossas sopas». Mas como vão fazer isso? Com o dinheiro dos nossos filhos não pode ser, porque quase não temos filhos. Não se preocupem, ia insistindo o senhor.

Passados anos, já com o sucessor do senhor, não havia afinal dinheiro para pagar as sopas dos servos anciãos. O novo senhor ainda tentou ir de novo buscar uns pés-de-meia aos mais novos. Mas não havia praticamente nada ou estava tudo tão privado que era preciso invadir as casas com decretos de apropriação que (ainda) não eram lá muito bem vistos. Mas a fome, entre os idosos, e os tributos, sobre os outros servos, estavam a alimentar a revolta e a ser uma ameaça ao lugar do senhor. Deste e de outros com quem havia um acordo de não cunhar moeda, para garantir o seu valor. A União dos senhores reuniu-se então e resolveu ficar um pouco menos exigente na cunhagem de moeda e lá distribuíram pensões e baixaram tributos. Servos e anciãos, felizes, foram às compras. Mas passado um mês decobriram que, em vez de uma moeda, já precisavam de um saco de moedas «para comprar um quilo de feijão». Mordiscavam e mordiscavam a moeda e iam descobrindo que, afinal, valia menos que antigamente. E revoltaram-se. Os senhores feudais pensaram e pensaram. Tinham de se apropriar de tudo. Casas e lojas dos artesãos tinham de passar a pertencer ao senhor feudal, com todos os tostões que iam gerando. Se não o fizessem eles, alguém , mais igual que os outros, o faria...

Uma estória que promete ser a nossa história. Incapaz de resolver o problema das finanças públicas, estamos a «rapar» os fundos de pensões, ontem do BNU e dos CTT, hoje da CGD, da ANA e da NAV, e mais que existam. Nós e outros, como a França, por essa Europa fora. Não estamos a resolver o problema do Estado previdência, tentando salvar o que tem d ebom. Estamos a enviar a factura actual para o futuro. Filhos e netos, como alertou um economista, vão ter de enfrentar tempos de alta inflação ou mais uma onda de nacionalizações. O futuro a pagar a crise não é uma solução. É um problema.

Liberais?
Temos assistido, perplexos, a intervenções que revelam uma grande falta de sensatez num Governo defensor do mercado.

Dois exemplos. Um é o da Galp. Como é que um Governo pode anunciar que vai vender uma refinaria que pertence a uma empresa com accionistas privados?
O outro caso é o da Brisa/Scut’s. Como é que o Governo pode andar a dizer que anda a pensar entregar a exploração das Scut’s à Via Verde, que pertence à Brisa, uma empresa cotada? Não sabe que isso afecta a cotação da empresa e lança ruído no mercado, para o proveito de alguns? António Mexia tem a obrigação de saber isso. Num país normal, o anúncio seria apenas o da decisão, ao mesmo tempo que a empresa comunicava o facto, relevante, a todo o mercado.

São histórias lamentáveis, que se aproximam mais das relações do Estado da Rússia com a Yukos que do mercado


publicado por psylva às 13:49
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