Sábado, 2 de Outubro de 2004
Sudão: um genocídio em marcha
À semelhança de outros países africanos, o Sudão conhece hoje uma guerra civil a que muitos não hesitam em chamar «genocídio». A própria ONU considera esta situação como «a pior crise humanitária que o mundo hoje conhece», não hesitando mesmo em denunciar a «limpeza étnica» em curso, no Sul e agora especialmente no Leste do Sudão, na região de Darfur, território cuja superfície é quase equivalente à de França.

Mais uma vez temos um exemplo da desgraça que atinge os povos africanos, que, em primeiro lugar, sofrem as consequências da incompetência e corrupção de determinados dirigentes africanos que, ainda por cima, põem em prática, de maneira destemperada, ideologias mal digeridas, servidas frequentemente por uma falta de bom senso desconcertante...

Mas essas populações são, até certo ponto, igualmente vítimas da incúria internacional, que se limita durante demasiado tempo a protestos de pura forma e deixa as mãos livres a tiranos que destroem os países e aniquilam populações inteiras a seu bel-prazer.

Nos casos em que as populações estão em perigo de morte, o «direito de ingerência» deveria ser a regra e não a excepção. Para isso, seria indispensável que fossem dadas à ONU a autoridade e os meios adequados para intervir em qualquer parte do mundo, o que continua a não estar feito. Aqui os países membros do Conselho de Segurança têm uma pesada responsabilidade.

Se a guerra de Darfur começou em Fevereiro de 2003, a ruptura entre o Norte e o Sul tem a sua origem logo após da independência do Sudão, em Janeiro de 1956, quando a elite nortista se apoderou do aparelho administrativo e impôs a sua unilateralmente vontade em nome de uma dita «unidade do país», na realidade uma ideologia que passava pela arabização e islamização - esta na sua forma mais radical - de toda a sociedade, conforme os interesses dos islamitas no poder em Cartun (os mesmos que deram guarida aos terroristas Carlos e Ben Laden) enquanto o Sul recusava a Charia (lei islâmica) e preconizava o pluralismo cultural e religioso num Estado laico, mais adequado às características das populações do Sul, em geral cristãs e animistas. Desde então, a repressão sistemática das populações do Sul transformou-se em massacres e gerou uma guerra civil de que Darfur é um dos últimos episódios. A descoberta de petróleo no Sul do país veio agravar a situação.

É justamente nas regiões do petróleo que o Governo de Cartun procede hoje a uma verdadeira «limpeza étnica» das populações civis, com vista a favorecer os interesses de certas companhias petrolíferas transnacionais, nomeadamente do Canadá (Talisman), da Malásia (Petronas) e da China (CNPC), não sendo portanto de estranhar que este último país bloqueie com tanto zelo a acção da ONU no Conselho de Segurança.

As populações negras do Sul são vítimas de milícias de «árabes islamitas» fanáticos que, a soldo do Governo, e no mais puro estilo nazi que é apanágio dos terroristas contemporâneos, massacram indiscriminadamente, torturam, violam e arrasam as aldeias, capturando as mulheres e as crianças para fazer delas escravos, simbolizando o regresso de uma prática ancestral - a escravatura - que os ingleses tinham travado no tempo da colonização e que é hoje promovida pelo Governo do Sudão.

A Charia, que está no centro da filosofia de vida do actual Governo sudanês, é aliás uma das formas mais hipócritas dos islamitas integristas imporem, com a desumanidade do costume, leis intolerantes e retrógradas a toda a sociedade. Como o próprio Governo de Cartun afirma, o resultado da guerra só pode passar pela eliminação ou a submissão dos «infiéis».

Belo programa para alcançar o desenvolvimento e chegar à modernidade neste século XXI...


publicado por psylva às 12:52
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