Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004
Interesses e corporativismos: revisitando um modelo de INSIDERS e OUTSIDERS
"Suponhamos que as forças sociais portuguesas se esforçam no sentido defender, de facto, os interesses que dizem defender. Esta possibilidade é, evidentemente, fantástica e impossível. Ninguém acredita que tais movimentos se tornem eficazes, abandonando o corporativismo tacanho e o seu habitual jogo de espelhos. Mas, mesmo absurda e fictícia, a hipótese pode servir como base de investigação académica. Assim, procurámos responder à seguinte questão: se as organizações sectoriais lusitanas actuassem no seu real interesse, que tipo de iniciativas realizariam? O resultado é curioso: existe uma entorse nacional. Essas associações deveriam fazer exactamente o contrário do que fazem.

Por exemplo: a principal iniciativa da esquerda deveria ser uma forte campanha contra a semana das 35 horas, os salários e privilégios exagerados dos trabalhadores. Toda a gente sabe que essas benesses não são para os pobres, mas só para os empregados favorecidos de multinacionais, ou de empresas à mesa do orçamento. Subindo os custos do trabalho, as regalias levam as empresas a apostar no capital, substituindo homens por máquinas. Deste modo, aumentam o desemprego e são muito gravosas para as massas laborais, sobretudo para o proletariado. Os sindicatos e partidos de esquerda deveriam, assim, estar empenhados na denúncia desta conspiração burguesa de algumas classes trabalhadoras abastadas, prejudicando as massas oprimidas.

Seria ainda de esperar que todas as forças progressistas combatessem vigorosamente as greves dos serviços públicos. As recentes paralisações da Carris, por exemplo, prejudicam muito gravemente os utentes pobres, que já pagaram o passe e ficam sem transporte, e não afectam os ricos, que vão de carro para o emprego. Além disso, são injustas, pois o seu propósito é dar mais benefícios à elite da classe trabalhadora, muito melhor remunerada que os pobres que transporta. O mesmo se pode dizer de greves na EDP, EPAL, escolas, hospitais e em tantos outros serviços básicos.

Os sindicatos estariam também na primeira linha da luta contra o emprego dos funcionários públicos. Os salários do Estado, que são a mais larga fatia do orçamento, constituem o maior obstáculo à criação de emprego, no País. Pago exclusivamente com impostos, cada lugar público sacrifica vários postos de trabalho produtivos, atrasando a economia e prejudicando as massas laborais, sobretudo, as operárias. Isto, sem contar com o facto de a própria actividade desses funcionários ser, normalmente, muito prejudicial à economia, com a burocracia, entraves e bloqueios aos trabalhadores. Deste modo, os sindicatos têm de fazer violentas manifestações contra as regalias dos funcionários públicos.

Seria de esperar que as organizações patronais lançassem violentas petições ao Governo, no sentido de exigir o fim imediato dos subsídios, apoios e outros programas de promoção da actividade económica. As empresas sabem bem que todo o dinheiro que recebem lhes saiu do bolso, ou do bolso dos seus clientes, em impostos. Deste modo, não há euro que o Estado gaste que não prejudique a actividade económica. Quanto menos gastar, melhor para ela. Há coisas em que o Estado precisa de gastar, como a pobreza, saúde, educação, diplomacia, etc. Mas o mínimo que se exige é que não gaste dinheiro a promover a actividade económica, que é precisamente aquilo que prejudica, quando gasta dinheiro.

Além disso, a forma como o Estado gasta essas verbas é muito nociva à actividade económica. Porque o Governo não usa a maioria desses fundos para dar apoio às empresas activas. Negócios falidos, oportunistas, sem iniciativa, em sectores sem hipóteses, são estes que acabam por receber a maior parte dos apoios. A actividade económica agradece o interesse, mas preferia que se reduzissem os prejuízos que o carinho do Estado lhe acarreta.

Grupos de pressão, ordens profissionais, organizações de agricultura, ambiente, pescas, minas, saúde, educação também fazem tudo para destruir os seus próprios fins. Os interesses organizados, há tanto tempo dominantes em Portugal, queixam-se repetidamente de que tudo vai de mal a pior. Mas, na busca insana dos seus ganhos, são eles as principais forças de paralisia do País. Depois de tantas tentativas, já deveriam ter descoberto que a melhor forma de satisfazer as suas "justas reivindicações" é o desenvolvimento, precisamente o que é destruído pelas "justas reivindicações".


publicado por psylva às 12:19
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds