Quinta-feira, 25 de Maio de 2006
O problema liberal



Domingos Amaral




Porque é que as pessoas haverão de votar em partidos que, em vez de lhes diminuírem as ansiedades, as aumentam?

Desde há vinte anos para cá, não há liberal que se preze que não ache duas coisas: “que o Estado tem um peso excessivo na economia”, e que “a lei laboral tem de ser revista para facilitar os despedimentos”. Juntos, estes são os principais mandamentos da chamada “escola liberal”, que tem influenciado o pensamento político dos partidos de centro-direita. Portas dizia que era “conservador-liberal”, chamando a atenção que o liberal se aplicava às questões económicas. Barroso, e agora Marques Mendes, também se dizem “liberais”, defendendo em teoria estes princípios. No entanto, nenhum deles consegue resolver o principal problema gerado por estes princípios, que é o de ambos conduzirem imediatamente ao aumento do desemprego. Se “diminuirmos o peso do Estado”, rescindindo contratos como Marques Mendes propõe, o que acontece a essas pessoas? Naturalmente, vão para o desemprego. Pensar que, num passe de mágica milagroso, há logo dezenas de novas empresas privadas a desejar contratar esses escorraçados do Estado, é puro delírio. Portugal não tem, nem nunca teve ou terá, uma florescente economia privada, capaz de absorver essa gente. Aliás, basta olhar as estatítiscas do desemprego. De onde são originários os actuais 400 mil desempregados? Do sector público não é certamente, portanto só podem ser do sector privado. Ora, se o sector privado já está a despedir gente, é um absurdo pensar que vai poder absorver os que saírem do Estado. Portanto, se o país desejar despedir funcionários públicos, terá de se preparar para viver não com o desemprego a 8 por cento, mas sim a 10 ou mais.

O segundo princípio liberal tem resultados semelhantes. Eu acho curioso que se continue a reclamar uma lei laboral que facilite o despedimento. Mas, pergunto eu, se é impossível despedir pessoas, de onde aparecem tantos desempregados? Foram eles que se despediram voluntáriamente? O desemprego nos últimos anos tem aumentado sempre, e no entanto os liberais continuam a dizer que é preciso facilitar o “despedimento”. Bom, devemos então concluir que os liberais querem ainda mais desemprego? É isso a única proposta política que têm para fazer ao país?

Se calhar é por essas e por outras que o discurso liberal não ganha nem eleições nem referendos europeus. Em termos teóricos, é tudo muito bonito. Com leis laborais mais “flexíveis”, “Estado mais pequeno”, “o mercado a funcionar”, nascerá de imediato uma sociedade rica e florescente. É claro que há um pequeno detalhe, é preciso vencer eleições, mas isso não interessa aos teóricos. Escapa-lhes um mecanismo fundamental da democracia: para que os eleitores votem em nós, é preciso convencê-los de que vamos melhorar as vidas deles, e não o contrário. Aquilo que o discurso liberal ainda não percebeu, e por isso perde eleições atrás de eleições, é que para o comum dos mortais os riscos da vida aumentam numa sociedade liberal. A globalização, o mercado interno, os produtos chineses, os países de Leste, o euro, a diminuição do peso do Estado, a “flexibilização laboral”, tudo isso aumenta o risco das nossas vidas. Estamos muito mais expostos a perder os empregos por causa disso, o que é fonte de tremenda ansiedade pessoal. A pressão individual sobre a vida das pessoas aumentou brutalmente. E o que é que os liberais nos dizem perante isto? Pois dizem que a pressão ainda devia aumentar mais! Estado Social de Bem-Estar? Deve acabar a mama. Empregos garantidos? Nem pensar. Ou seja, confrontados com um aumento do risco das suas vidas, as pessoas ouvem os liberais falar e percebem que eles ainda querem aumentar mais esses riscos. Não admira pois que não votem neles. Estão a ter um comportamente perfeitamente racional. Porque é que as pessoas, principalmente as classes médias e baixas, haverão de votar em partidos que, em vez de lhes diminuirem as ansiedades, as aumentam?

O doutor Marques Mendes, por quem eu tenho estima pessoal, devia reflectir nisto. Quem continuar a fazer propostas que aumentam o risco da vida das pessoas, pode ficar muito bem visto entre os “intelectuais liberais”, mas não ganha eleições.
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publicado por psylva às 12:22
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