Quarta-feira, 10 de Maio de 2006
PIB e inquietações
É frequente o crescimento do PIB mostrar-se aparente, se se tomar em conta reflexos em má qualidade de vida, ambiente e segurança.

Há cerca de quatro décadas, e por motivos então óbvios, proclamava-se na União Europeia o “crescimento zero”. Actualmente é diferente. Os povos dos países mais desenvolvidos sentem desespero quando as estatísticas revelam crescimento pouco significativo. Aliás, é frequente o crescimento do PIB mostrar-se aparente, se se tomar em conta reflexos em má qualidade de vida, ambiente, segurança, crise de solidariedade, deterioração social e comportamentos.

Atente-se, entre outros exemplos ou situações, no tabaco: a produção de cigarros, obviamente, entra nas estatísticas do PIB – uma produção que se destina a ser queima e cinza, que mais tarde gerará novos contributos em termos de PIB – serviços de Saúde e outros derivados dos malefícios do tabaco.

Outra citação relevante na actividade acerca da formação do PIB é a do crescimento da insegurança. E aparecerem serviços de protecção e vigilância, com pessoas e equipamentos para esses efeitos. As fábricas e os estabelecimentos de venda e de atendimento e as habitações apresentam-se, agora, com gradeamentos nas portas e nas janelas e os muros são mais altos. Tudo isto fará crescer a expressão do PIB, mas por aí há pior qualidade de vida. Os que roubam e agridem geram queixas e obrigam a trabalho extra, de magistrados, advogados, polícias e vigilantes. Tudo a acrescer o PIB.

Os elevados e dispendiosos volumes de equipamentos de que hoje se dispõe sofrem os efeitos dos desgastes e das inovações, o que obriga a substituições frequentes, regulares ou extraordinárias. Pense-se, por exemplo, no elevado número de viaturas particulares e dos encargos anuais com desgastes, consumos, substituições, reparações ou danos por desastres.

Criaram-se mais e melhores estradas, mais acessos, mais pontes e portagens, com a inerente conservação de tudo isso. Cada vez mais dispendioso e mais estrutural e sem retornos. Agora, sofrem-se as subidas nos preços dos combustíveis.

Muitas famílias passaram a fruir de habitações em duplicado, ou triplicado – casa na zona de trabalho, casa para fins de semana e/ou férias, na praia ou no campo. Por aí, surgiu mais produção, mais PIB, mas também desperdícios, gastos de conservação subsequentes e capitais empatados sem rendimento para a comunidade.

As famílias em comunhão de mesa e habitação passaram, via de regra, a ser só de pais e filhos menores. Os idosos, reformados e doentes passaram a viver em creches, lares e casas de repouso. E os filhos mais pequenos, dadas as ocupações de pais e mães e os afastamentos dos avós passaram a ser confiados a instituições variadas (lactários, creches e jardins escola).

Os alimentos, dantes, adquiriam-se, via de regra, directamente, aos agricultores. Os produtos que ora se vendem aparecem transformados, pela indústria, embalados e sofisticados, donde encarecidos. Tudo isto expressa-se em mais PIB, mas com muitos artificialismos. Materialidade igual, mas expressão de valor mais elevada.

São estas rupturas e insustentabilidades que se vão observando. No rigor, “produções reais” em Portugal é o que pouco se vê. Fecham as empresas e cessam actividades. Agricultura, pesca, extracção de minério, indústrias transformadoras diversas vão desaparecendo. Resta um quase nada.

Muitos portugueses pouco ou nada produzem. E muitos fazem turismo lá fora, compram lá fora, mandam capitais para fora. O Estado, por seu turno, tornou-se excessivamente despesista. Carece de mais receitas e sobe os impostos, e continua em défice. Mas as estruturas resistem.

Quem examina a excessiva despesa do Estado inquieta-se então. Claro que fazer despesa é fazer solicitações a fornecedores de bens e de serviços. As receitas do Estado também se configuram, em contrapartida, como prestações de serviços algo genéricas aos cidadãos e entidades. Eis aí também mais PIB (!) nos apuramentos da contabilidade nacional.

E já que há excesso de gastos da Administração Pública, então, bom seria que tais gastos gerassem reais valias e úteis serviços para a generalidade dos cidadãos – propiciando justiça, prevenindo crimes, castigando criminosos, melhorando a saúde e a educação. Ter-se-ia, assim, mais bem-estar e felicidade, digamos, … um PIB “melhor”. E é pena que tal não ocorra!
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publicado por psylva às 09:54
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