Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
Macroeconomia

“Salários têm de cair 20%”


Olivier Blanchard considera que o aumento do salário mínimo vai atrasar a recuperação portuguesa
A economia portuguesa necessita de uma redução de 20% nos salários nominais para sair rapidamente da crise. Uma medida “terrível” mas que é a única solução, na opinião do ex-presidente do departamento de Economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), para a falta de competitiviade portuguesa. Neste sentido aumentar o salário mínimo é um erro.
O economista francês Olivier Blanchard e actual professor no MIT, em declarações ao Expresso, considera ser esta a descida necessária à resolução do problema da produtividade e à descida da taxa de desemprego que, no terceiro trimestre, aumentou para 7,4%. Para Blanchard este passo deveria ser dado imediatamente para que produza efeitos o mais rápido possível, embora compreenda que não seja fácil: “O aumento dos custos de trabalho acumulado nos últimos anos implica uma descida de 20% nos salários nominais - cerca de metade nos salários reais. Parece uma coisa terrível mas, na ausência de um milagre na produtividade, não há outra solução”.
Em relação ao salário mínimo, defende que não seja aumentado como o Governo pretende, mas que, pelo contrário, as pessoas que estão nessa situação sejam beneficiadas através da política fiscal.

Salário de 400 euros
No congresso do Partido Socialista, do passado fim-de-semana, José Sócrates anunciou um aumento do salário mínimo nacional para 400 euros em 2007. Um valor que corresponde a uma subida de 3,6% em relação ao actual nível de 385,9 euros e que deverá continuar a crescer rapidamente até 2009, de acordo com as palavras do primeiro-ministro. O salário mínimo foi desindexado das pensões no âmbito da reforma da Segurança Social e pode subir sem ter grandes implicações no comportamento da despesa pública.
Nos anos anteriores, a promessa de convergência das pensões acabou por funcionar como um travão ao andamento da retribuição mínima que cresceu abaixo da taxa de inflação e perdeu poder de compra.
O aumento anunciado por Sócrates foi aplaudido por sindicatos - que exigem, apesar de tudo, um valor superior - e criticado pelos patrões que temem uma pressão demasiado elevada sobre as empresas. O risco é funcionar como um entrave aos ganhos de competitividade e, ao mesmo tempo, atrasar a criação de emprego.

Apostar no turismo
Olivier Blanchard não tem dúvidas. A aposta na descida dos custos do trabalho nos sectores que produzem bens não transaccionáveis, isto é, que não vão para exportação, é o caminho que Portugal deve seguir. “Maior produtividade nos bens não transaccionáveis leva a preços mais baixos, o que facilita a descida dos salários nominais sem perda de poder de compra e acaba por tornar os sectores virados para a exportação mais competitivos” refere o economista francês. E acrescenta: “Não há obviamente qualquer erro em tentar melhorar a produtividade nos sectores transaccionáveis, mas é mais difícil porque já são mais competitivos”.
Segundo o professor do MIT, Portugal deve olhar com mais atenção para o turismo e todas as actividades que lhe estão associadas, pois é aí que poderá estar o segredo para o seu crescimento. “
Não tenho qualquer objecção ao facto de Portugal apostar em sectores de alta tecnologia e no investimento em educação, que são coisas boas para o crescimento - o acordo com o MIT é um bom exemplo, mas não penso que tenha vantagens comparativas nestes sectores ao contrário do que acontece no turismo, por exemplo”, refere Olivier Blanchard.
A análise do economista francês sobre a situação económica portuguesa será publicada em breve num artigo do ‘Portuguese Economic Journal’. No texto intitulado ‘Adjustment within the euro. The dificult case of Portugal’, Blanchard avalia as consequências da entrada de Portugal na União Económica e Monetária em 1999 que, na sua opinião. explicam o cenário actual. É com base neste estudo que chega às conclusões para a saída da crise económica que atingiu Portugal nos últimos anos.


publicado por psylva às 16:29
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds