Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
O que assusta os sindicatos
 
Em 1913, Henry Ford inventou a linha de montagem. A produção automóvel, até então artesanal, deu lugar à produção em massa e ao trabalho operário não especializado e rotineiro. A linha de montagem impôs um ritmo único ao trabalho e facilitou a monitorização dos trabalhadores. O trabalho não especializado eliminou barreiras à substituição do mesmo: todos aqueles que não conseguem trabalhar ao ritmo da máquina são facilmente substituídos.

Neste sistema, relações de reciprocidade entre empregador e trabalhador não são sustentáveis. Por um lado, mesmo que os trabalhadores queiram "remunerar" atitudes generosas por parte da empresa (por exemplo, o pagamento de salários elevados) não o conseguem fazer trabalhando mais ou melhor, já que as máquinas ditam o ritmo e impõem a qualidade. Por outro, a própria empresa não necessita de atitudes generosas para incentivar o esforço, já que este é observável e o trabalho facilmente substituível.

Assim, as linhas de montagem criaram as condições para um trabalho precário e pouco remunerado. Simultaneamente, estavam criadas as condições para o fortalecimento dos sindicatos, e Henry Ford sabia-o. Por forma a contrariar a tendência, Ford aumentou o salário dos operários, pagando cinco dólares por dia, o dobro do que a indústria pagava na época. Mas, como a linha de montagem dificulta atitudes recíprocas, salários mais altos atraíram mais gente, mas nem por isso significaram mais produtividade. E, como demonstrado em vários estudos experimentais, mesmo que reciprocar fosse fácil, a monitorização e substituição de trabalhadores, funcionando com um desincentivo explícito ao baixo esforço, destrói a motivação intrínseca para reciprocar. Assim sendo, Henry Ford "congela" os salários, e por volta de 1920 as organizações sindicais ganham força nas fábricas da Ford.

A história da Ford sugere que o sindicalismo tem um maior peso em sectores económicos onde a relação de reciprocidade entre empregador e trabalhador é fraca. Por exemplo: a) em sectores como o automóvel, onde o processo produtivo exclui atitudes recíprocas; b) em sectores como a construção, onde o resultado do trabalho é automaticamente visível, facilitando a monitorização; c) no sector estatal, onde os trabalhadores recebem independemente do esforço que colocam na execução das suas actividades. Por exemplo, um bom professor ganha o mesmo que um mau professor, bastando para isso que ambos trabalhem o mesmo número de anos.

O sindicalismo tem força no sector estatal, não porque o tipo de trabalho exclua relações de reciprocidade, mas apenas porque o tipo de incentivos existentes as exclui. O que nos faz pensar que propostas como o Estatuto da Carreira Docente, mais do que assustar professores, assustam essencialmente os sindicatos, que temem pela sua existência.

Para explorar o assunto ver Flynn, S. (2005). Why some Industries Unionize: Insights from Reciprocity Theory. Journal of Institutional Economics, 1, 99-120.



publicado por psylva às 16:38
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