Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
A função social do lucro

O lucro era visto como mais valia roubada aos trabalhadores. E por isso as empresas produziam não para o lucro, mas para satisfazer necessidades sociais.

Jorge A. Vasconcellos e Sá

Um semanário citava recentemente um vice-presidente universitário: “tenho a sensação que está quase a aparecer uma nova economia baseada não no lucro (que é negativo), mas no bem social...”

Enfim, como a paciência é uma virtude, vamos por partes.

Em primeiro lugar, essa economia já apareceu, desenvolveu-se e morreu. Chamava-se comunismo. “Socialismo real”. O lucro era visto como mais valia roubada aos trabalhadores. E por isso as empresas produziam não para o lucro, mas para satisfazer necessidades sociais.

Mas como distinguir as boas das más empresas? Como estabelecer objectivos? É que a melhor empresa não é a que produz mais. Nem a que tem custos mais baixos. Nem a que mais poupa em investimento. A melhor empresa é a que faz tudo isto melhor em conjunto. E o que é tudo isto?: receitas menos custos dividido pelo investimento? Dá pelo nome de... lucro.

Lieberman na década de 60 e Abengurion na década de 80, descobriram-no. E para não ofender Marx, baptizaram-no de “lucro socialista”. A diferença para o capitalista? “Era apenas um resultado, não um objectivo”... Ou seja, quando se persegue é mau; mas quando acontece é bom. Claro como a água, não é?

Na economia de mercado, pelo contrário, não há diferença do lucro entre objectivo e resultado. Quando uma empresa tem lucros (desde que em concorrência, etc.) isso significa que 1) o seu produto é muito procurado (havendo alternativas); 2) os consumidores valorizam o produtos mais que o preço (senão não compravam); e 3) a empresa retira (compra) menos recursos (escassos) à sociedade do que lhe devolve (as suas vendas). Ou seja, cria valor. Por isso se diz que os gestores são os alquimistas modernos: transformam recursos menos valiosos em mais valiosos. Criam riqueza, bem estar. Dão à sociedade mais do que dela retiram.

E por isso se fala, (dentro de condições de concorrência, etc.) na função social do lucro.

O lucro é assim, quer um bom objectivo, quer um bom indicador da qualidade da gestão. E é da sua ausência, p.e. na Administração Pública, que decorrem muitas dificuldades. Em 1º lugar porque lidando esta com monopólios naturais, bens públicos ou semi-públicos, o lucro não pode ter este papel, nem de objectivo, nem de indicador da qualidade da gestão.

Em 2º lugar, e muito importante, enquanto nas empresas privadas o cliente é fonte de rendimento, traz dinheiro, e logo é naturalmente bem-vindo, já nos serviços públicos, o cliente não é fonte de rendimento (este vem do orçamento) mas de trabalho. Por isso é mais difícil estimular nos serviços públicos altos níveis de qualidade e de serviço por parte dos empregados.

Em síntese, quando se diz que 1) o lucro é mau; 2) em alternativa deve-se procurar o bem social; e 3) ao virar da esquina está esta sociedade, está-se a cometer três erros. Primeiro, o lucro é bom. Segundo, entre ele e o bem social não há diferença (desde que com concorrência, ética, etc.). E terceiro, essa sociedade não está ao virar da esquina, mas já existiu durante 70 anos e chama-se comunismo.

Quanto ao resto? O resto, está certo...



publicado por psylva às 16:40
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