Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
É fácil estragar o que já é péssimo

Considerando o Afeganistão e o Iraque, mas também a Rússia, Coreia, Palestina, Somália, Timor e tantos outros, nasce a pergunta: que é o pior que pode acontecer a um povo? A nossa geração, na lembrança dos terríveis regimes recentes, não tem dúvidas: o pior é viver em ditadura. Nazismo, fascismo e comunismo são os sistemas que aprendemos a desprezar no berço. Todos repetimos sinceramente o dogma da libertação de 1945, 1974 e 1989: "Nunca mais!"

Como é comum, a experiência traumática proclama uma palpável verdade, mas omite outras. Por exemplo, é difícil compreender hoje porque os nossos bisavós sofisticados ouviram com agrado as seduções antidemocráticas dos futuros ditadores. Como foi possível que, em civilizações elevadas, tiranos chegassem ao poder e se mantivessem populares tanto tempo?

O velho Aristóteles afirmou que o pior dos regimes é a tirania (Política IV, 3, 1289b05), confirmando a intuição reaprendida há duas gerações da maneira mais triste. Mas antes afirmara um princípio mais profundo e influente: "O homem, que é o melhor dos animais quando aperfeiçoado, torna-se o pior quando abandona a lei e a justiça" (I, 1, 1253b30). Aplicando esta ideia, diz, falando de Creta: "O pior de tudo é a confusão que vem da suspensão dos magistrados" (II, 7 1272b10).

Existe portanto algo mais atroz que a tirania. A anarquia. O profundo repúdio pelo horror de Hitler, Estaline, Mao, Saddam, Putin não nos pode fazer esquecer situações dramáticas como a podridão da república de Weimar ou a decadência das dinastias czarista e manchu. Mesmo a pior das ditaduras não chega ao caos da guerra civil ou à decadência dos Estados falhados. Portugal conhece bem esta ideia. Durante 48 anos, o Estado Novo usou como argumento central para se sustentar uma simples advertência: "Lembrem-se de como era antes de nós." E, de facto, enquanto as pessoas se lembraram da Primeira República, o regime manteve-se popular.

Entre nós felizmente a democracia agora é funcional. Mas estas considerações aplicam- -se a outras latitudes. Quando os talibãs tomaram o poder em 1996 trouxeram paz ao martirizado Afeganistão, que vivia em sangrento tumulto desde 1973. Os disparates desse regime foram muitos, mas certamente preferíveis à confusão anterior e seguinte. Mao fizera coisa parecida na China em 1949 e Hitler tirou a Alemanha da miséria. No Iraque começam saudades do tempo cruel de Saddam, onde, apesar de tudo, se podia sair à rua. Em tantos casos, do Haiti ao Bangladesh, do Líbano ao Uganda e ao Paquistão, a lição é que, na busca da liberdade, se saltou muitas vezes da frigideira para o fogo.

Estas são verdades inconvenientes. Num tempo que se mostra tão pragmático e realista em tantas áreas, é curiosamente nos regimes políticos, o mais concreto de todos os temas, que se vive tantas vezes um idealismo ingénuo. Temos de dizer que a candura de pretender implantar a democracia a todo o custo tem criado bastantes desastres recentes. Depois não faltam os ditadores em potência que, hoje como há cem anos, espreitam as oportunidades que lhes abrem os exageros parlamentares e a confusão partidária. Os libertadores azelhas, como Afonso Costa, Von Hindenburg ou George Bush, são os coveiros da liberdade.

Será que a democracia é só para alguns? Será que em certos casos a ditadura é preferível? Não sei dizer. Mas também ninguém sabe. Aliás este tipo de especulações ociosas e genéricas pouco têm a ver com o campo concreto da vida social. Na política, a curiosidade teórica e a elegância intelectual devem ceder sempre o passo ao realismo. Como disse Bismarck em 1867, a "política é a arte do possível".

Este amargo pragmatismo vê-se bem numa historinha do século IV a. C., contada por um autor do século I d. C.: "Em Siracusa, no tempo em que toda a gente desejava a morte de Dionísio, uma certa velhinha constantemente rezava para que não lhe acontecesse mal e ele vivesse mais tempo que ela. Quando o tirano soube disto, perguntou-lhe por que razão o fazia. E ela respondeu: 'Quando eu era rapariga nós tínhamos um tirano muito cruel e eu desejava a sua morte. Quando ele foi morto, sucedeu-lhe um que era um pouco mais cruel que ele. Eu também estava ansiosa por ver o fim do seu domínio, mas então tivemos um terceiro tirano, ainda mais cruel. Este és tu. Por isso, se tu fores levado, um pior vai suceder-te no teu lugar'" (Valerius Maximus Factorvm Et Dictorvm Memorabilivm Libri Novem VI, 2).



publicado por psylva às 16:41
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