Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
Um dia destes quase ninguém vive em Lisboa
O IMI e as taxas municipais estão a obrigar a classe média a ir viver fora da capital
Lisboa é uma cidade lindíssima. A sua luz inspirou Alan Tanner a filmá-la e a chamar-lhe “A cidade branca”. No Euro-2004, foram muitos os estrangeiros fascinados pela beleza de Lisboa - e que, por isso mesmo, prometeram voltar. E ao longo de séculos, poetas, trovadores e cantores não se têm cansado de incensar o fascínio que Lisboa provoca.

Os últimos anos, contudo, não têm sido fáceis para a capital portuguesa, nem sobretudo para os seus habitantes. Por dia, entram na cidade 400 mil viaturas, das quais 40% apenas para a atravessar em direcção a outro destino. Este movimento, no entanto, torna caótico o trânsito em Lisboa - já não há “horas de ponta”, porque todo o dia é “hora de ponta” - e o estacionamento um verdadeiro inferno, com o desespero dos condutores para estacionar as viaturas a só ser suplantado pelo desespero dos transeuntes, que ficam sem passeios para andar.

Para complicar a situação, temos obras e obras que se arrastam há anos e que não têm o mínimo de bom senso. O famoso túnel do Marquês, obra faraónica com que Santana Lopes quer deixar a sua marca na cidade, não só não vai resolver nada em termos de trânsito naquela zona de Lisboa, como há três longos anos inferniza a vida de todos os que vivem, trabalham ou têm de passar por uma das mais emblemáticas rotundas da capital.

Outra obra absolutamente irrealista e que está a consumir milhões de euros dos contribuintes sem que se veja fim à vista é a da construção do túnel do Terreiro do Paço por onde deve circular o metropolitano. Sabia-se das especificidades técnicas sobre as quais está construída a baixa de Lisboa desde o terramoto de 1755. Sabia-se das dificuldades que o terreno apresentava. E havendo todos estes problemas e uma estação no Cais do Sodré a 200 metros, seria do mais elementar bom senso não persistir num projecto de elevado grau de risco. Mas os socialistas insistiram e a obra lá continua, vai para seis anos, transformando a sala de visitas da capital num infernal estaleiro de obras...

Mas se pensam que é tudo, enganam-se. Em Lisboa, já se sabia, tudo é mais caro, desde a alimentação à habitação. Mas agora vem aí um rolo compressor. O IMI (Imposto Municipal de Imóveis) que está a ser cobrado é um verdadeiro assalto à mão armada, sobretudo para as habitações mais recentes. A taxa de esgotos é tão elevada que não se acredita. Depois disto, alguém se admira que Lisboa tenha perdido entre 1991 e 2005 mais de 20% dos seus habitantes?

A continuar por este caminho, dentro de uns anos não teremos cidades-dormitórios à volta de Lisboa. Lisboa é que será uma cidade-escritórios, sem munícipes residentes. A classe média será obrigada a viver fora de Lisboa, por falta de capacidade económica. Os que ficarem serão muito velhos para partir e estarão em instalações degradadas. Ou serão muito ricos e viverão em condomínios fechados, com seguranças por todo o lado, enquanto bandos de arruaceiros e vagabundos passeiam pelas ruas desertas espalhando o terror e o horror.

É assim que se perde competitividade. Porque de nada valerá ter excelentes hotéis, auditórios, anfiteatros, estádios de futebol. Ninguém vem fazer turismo, congressos, espectáculos de música ou eventos desportivos numa cidade sem «glamour», envelhecida e insegura.



publicado por psylva às 16:42
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