Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
Política monetária sem dinheiro
A inflação é, em última análise, um fenómeno monetário, e o dinheiro é, a longo prazo, neutro – não produz crescimento no futuro.

Wonfgang Munchau

A existir uma área onde os europeus fossem de Marte e os norte-americanos de Vénus, esta não seria outra que a referente à política monetária e ao papel dos agregados monetários. Na semana passada, os dois banqueiros centrais mais proeminentes do mundo discordaram publicamente. Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE) discutiu, no Financial Times, o porquê da análise monetária continuar a ser parte essencial da política do BCE. Por outro lado, Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal norte-americana, afirmou que, para um banco central, não seria muito aconselhável apostar forte no dinheiro, uma vez que a inovação financeira tem vindo a provocar distúrbios nas estatísticas monetárias.

À primeira vista, este diálogo assemelha-se ao velho debate “Keynesianos versus Monetaristas”, todavia, não é bem o caso. Para começar, o assunto prende-se com a questão do papel do dinheiro, e não com o monetarismo, a teoria que postulou que os bancos centrais deviam estabelecer um limite à massa monetária em circulação para estabilizar a inflação a médio prazo. Mas nem mesmo o BCE vai tão longe. O monetarismo sofreu, e ainda continua a sofrer, com a crítica devastadora da Lei de Goodhart, que defende que a relação previsível entre dinheiro e inflação é quebrada quando os legisladores começam a explorá-la.

Trichet e colegas acreditam que uma análise cuidadosa das condições monetárias – o denominado segundo pilar da estratégia do BCE –, pode desvelar sinais interessantes. À semelhança de outros bancos centrais, o BCE elabora as suas perspectivas futuras com base numa previsão económica, todavia, e contrariamente a muitos outros bancos, utiliza a análise monetária como uma verificação cruzada.

A maior parte – não toda –, da comunidade académica apoia Bernanke. Durante uma conferência no BCE, realizada no início do mês de Novembro, Michael Woodford, economista da Universidade de Columbia, apresentou fortes argumentos contra o dinheiro. Na sua opinião, não há necessidade para uma análise monetária individual. Como é sabido, os denominados modelos económicos neo-keynesianos, que não fazem referência ao dinheiro, fornecem toda a informação necessária aos banqueiros centrais, para que estes avaliem as futuras pressões exercidas pelos preços. Este tipo de modelo está em conformidade com tudo aquilo que os banqueiros centrais conservadores acreditam: a inflação é, em última análise, um fenómeno monetário, e o dinheiro é, a longo prazo, neutro, o que significa que não produz crescimento no futuro. Ora, tal significa que este segundo pilar é, na melhor das hipóteses, redundante.

Mas existem, igualmente, bons argumentos contra a total exorcização do dinheiro. Um deles é da autoria do próprio Professor Charles Goodhart. Este sugere um corolário interessante à sua famosa lei: uma vez que os bancos centrais, há muito que desistiram de estabelecer um limite para a massa monetária em circulação, não será de esperar que a relação entre dinheiro e inflação volte a estabilizar?

Mais, os que são a favor de uma análise monetária individual atribuem um papel importante aos canais de transmissão da política monetária, como é o caso dos empréstimos bancários ou dos mercados de capitais. Lawrence Christiano, da Universidade de Northwestern, assim como Roberto Motto e Massimo Rostagno, ambos do BCE, defendem que os modelos neo-keynesianos tradicionais, não conseguem explicar a força dos ciclos ‘boom-bust’ (grande crescimento e rápido colapso) nos mercados de acções. Para que tal aconteça, o dinheiro é essencial.

Mas, suponhamos que as pessoas se mostram excessivamente optimistas em relação a uma nova tecnologia, que as empresas contratam trabalhadores e aumentam a produção. Num mundo com uma política salarial inflexível, as empresas são responsáveis pela criação de uma capacidade excedentária, todavia, os salários não aumentam com a rapidez que seria de esperar. O resultado? Uma queda da inflação. Nestas circunstâncias, um banco central que estabeleça limites para a inflação, será obrigado a reduzir as taxas de juro, o que poderá conduzir a mais investimento. Com este modelo, a política monetária é directamente responsável pela criação de um ciclo ‘boom-bust’.

Mas este é um debate que está longe de terminar. Na minha opinião, creio que o dinheiro vai, de algum modo, fazer o seu regresso - talvez não como um pilar explícito nem, certamente, como uma versão século XXI do monetarismo. No entanto, e tendo em conta o modo de evolução dos mercados de capitais, não é aconselhável que os banqueiros centrais deitem fora a chave da análise monetária.



publicado por psylva às 16:47
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