Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Começa a nascer na sociedade portuguesa uma contestação forte e perigosa ao 25 de Abril.


Ela pode ser descrita mais ou menos da seguinte forma: "A geração que fez a revolução governou-se com ela; conquistou direitos, arranjou posições seguras, empregos bem remunerados, apoios do Estado. Agora quem sofre são os seus filhos, na casa dos 20 ou 30 anos, que, mesmo com cursos superiores, não conseguem carreira estável e andam no desemprego, a recibo verde ou trabalho temporário."

Primeiro temos de verificar se a crítica se baseia em factos reais. A resposta é claramente negativa. A geração anterior, quando era jovem, sofreu muito mais que esta. Não é justo acusar assim quem tanto fez pelo País.

É verdade que a crise actual tem sido muito dura para os jovens. O seu desemprego subiu bastante. Enquanto a taxa total média, desde o segundo semestre de 2000 ao segundo de 2006, se elevou de 3,8% para 7,3%, o desemprego entre os jovens até aos 24 anos passou de 7,9% para 14,8% e dos 25 aos 34 anos subiu de 4,4% para 8,7%. Mas um fenómeno paralelo sucedera nas crises anteriores. No 25 de Abril, de 1974 para 1977, a taxa dos jovens até aos 24 anos subiu de 2,8% para uns incríveis 23% e na faixa dos 25 aos 39 anos foi desde 0,9% até 6,6%. O mesmo padrão se repetiu nas recessões seguintes, com os jovens a perderem sempre mais emprego que a média. Por exemplo, a nossa última derrapagem, no início dos anos 90, foi nisto bem pior que a actual, pois a taxa até aos 25 anos chegou aos 17,2% e aos 8,8% dos 25 aos 34 anos.

Na distribuição do desemprego pelos níveis de escolaridade, o mais evidente é a semelhança de comportamento em todos os graus de ensino. Nos últimos seis anos a taxa de desemprego dos trabalhadores com formação igual ou inferior ao ensino básico subiu de 3,8% para 7,4%, enquanto que para o ensino secundário e superior passou dos mesmos 3,8% para 6,8%. Isto é bem melhor que em 1974-77, quando o desemprego no ensino superior atingiu os 12%, e nos graus inferiores 8,5%.

A precariedade é o único campo onde a evolução recente não é claramente melhor que a anterior. A percentagem de contratos a prazo sempre teve tendência para subir quando o desemprego desce e cair quando ele sobe, indicando que, nas épocas de dificuldade, quem mais sofre são os temporários. Mas se na crise de 1983 a 1985 os contratos a prazo caíram de 19,8% para 12% do total do emprego, e no início dos anos 90 de 20% para 10,4%, desta vez apenas desceram de um máximo de 21,6% para um mínimo de 19,1%.

Assim, à primeira vista, a crítica não passa de uma ilusão de óptica. Uma crise presente parece sempre mais grave que as antigas. A acusação limita-se a racionalizar essa dor, utilizando a retórica política que pede reformas contra os grupos instalados.

Mas, por outro lado, ela tem alguma plausibilidade. Verificaram-se mudanças importantes após a revolução, não tanto nos termos físicos das crises, mas nas atitudes. O que mais mudou desde Abril foram as reclamações. A jovem geração pode justamente queixar-se de expectativas defraudadas.

As duas primeiras décadas após a revolução de Abril estiveram bem conscientes das dificuldades. Construir a democracia e entrar na Europa eram desafios majestosos, que exigiam trabalho, esforço, empenhamento. Palavras como "desafio", "exigência", constituíam o essencial do discurso de responsáveis como Soares ou Cavaco. Mas na terceira década alterou-se a atitude. Vencida a aposta, tratava-se de aproveitar os ganhos. Os políticos recentes falam-nos mais de "garantias", "benefícios", "qualidade".

Foi nesta vaga que os jovens actuais foram educados. O Portugal moderno e europeu não lhes pedia dificuldades e dedicação, mas prometia bons empregos sem grande esforço. As universidades, muitas delas péssimas, licenciavam pessoas que ansiavam por muito mais do que sabiam fazer. Era inevitável a desilusão.

Isso vê-se no mais estranho elemento da actual crise. Desde 2000, quando começou a subir, o desemprego aumentou já de 179 mil pessoas. Mas, no mesmo período, foram criados e ocupados mais 209 mil postos de trabalho. Cresce o desemprego e o emprego. Como se explica o paradoxo? São tarefas que os jovens não querem fazer. Os seus pais teriam aceitado, mas eles não gostam. Os novos empregos são para os imigrantes, que aumentaram em 388 mil pessoas a população activa.

Existe de facto uma crise nos 30 anos do 25 de Abril. Mas ela deve-se sobretudo ao sucesso da revolução.






publicado por psylva às 09:00
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Semear futuras crises

As ideias de Luís Filipe ...

Tufão imobiliário

Ordem, custos e esbanjame...

Política, ideias e pessoa...

HÁBITOS DE RICO E A ARTE ...

As reformas da Chrysler

O que resta da esquerda?

O Governo e a Igreja

Um estado menos “keynesia...

arquivos

Outubro 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds